Carta aos Comitês Distritais da Organização de Petrogrado do POSDR (bolcheviques)

Por Vladímir Ilitch Lênin, via marxists.org, traduzida por Lorena Monnerat

Escrito em 31 de maio de 1917 e publicado pela primeira vez em 1925, na revista Krasnaia Letopis (“Anais vermelhos”), n. 3.


Caros camaradas,

Anexo uma resolução do Comitê de Petrogrado sobre o estabelecimento de um jornal próprio, e duas resoluções apresentadas por mim em nome do Comitê Central do Partido Operário Social-Democrata Russo em uma reunião do CP [Comitê de Petrogrado] realizada na terça-feira, 30 de maio. Por favor, discutam essas três resoluções e nos deem sua opinião bem fundamentada sobre elas do modo mais detalhado possível.

Sobre a questão de um jornal separado para a organização de Petrogrado ser necessário ou não, o CP [Comitê de Petrogrado do Partido Bolchevique] e o CC [Comitê Central do Partido Bolchevique] têm visões conflitantes. É essencial e aconselhável que o maior número possível de membros do Partido em Petrogrado participe ativamente da discussão deste conflito crescente e ajude, com sua decisão, a resolvê-lo.

A Executiva do CP se manifestou unanimemente a favor de um órgão de imprensa separado para o Comitê de Petrogrado, apesar da decisão do CC de criar dois jornais no lugar do Pravda, cujo tamanho é obviamente inadequado. Esses dois jornais são: o antigo Pravda, como Órgão Central do Partido, e um pequeno Narodnaia Pravda (os nomes dos dois jornais ainda não foram decididos em definitivo), como um órgão popular para as massas. Os dois jornais, de acordo com a decisão do CC, terão um único conselho editorial, e o CP terá um representante em cada jornal (um com direito a voz no Órgão Central, e um representante votante no órgão popular). Um Comitê de Imprensa será estabelecido (consistindo de trabalhadores dos distritos que estão em contato próximo com as massas) e um número definido de colunas em ambos os jornais serão reservados para as necessidades do movimento operário local.

Esse é o plano do CC.

A Executiva do CP, por outro lado, quer um jornal especial próprio. A Executiva decidiu isso por unanimidade.

Na reunião do CP realizada em 30 de maio, após o relatório do camarada M. Tomski e seu discurso encerrando o debate, e depois de meu próprio discurso e da discussão na qual muitos camaradas participaram, houve uma divisão igualitária de votos – quatorze a favor da Executiva e quatorze contra. Minha moção foi rejeitada por dezesseis votos a doze.

Minha opinião é que não há necessidade fundamental de um órgão especial do CP. Tendo em vista o papel de liderança da capital e sua influência em todo o país [Petrogrado era a capital da Rússia na época], apenas um órgão do Partido é necessário lá, a saber, o Órgão Central, e um jornal popular para ser publicado em uma forma particularmente popular pelo mesmo conselho editorial.

Um órgão especial do CP está fadado a criar obstáculos ao trabalho harmonioso, podendo até mesmo dar origem a diferentes linhas (ou matizes) de política, o que seria extremamente prejudicial, especialmente em tempos de revolução.

Por que deveríamos dividir nossas forças?

Estamos todos terrivelmente sobrecarregados e temos poucas pessoas para fazer o trabalho; os escritores do partido estão cada vez mais do lado dos defencistas. Nestas circunstâncias, não podemos permitir qualquer dispersão de esforços.

Devemos concentrar nossos esforços, não dispersá-los.

Há motivos para desconfiar do CC, por acreditar que não selecionará o conselho editorial adequadamente, ou que não dará espaço suficiente para as atividades locais em ambos os jornais, ou que irá “intimidar” os editores do CP, que estarão em minoria, e assim por diante?

Em meu segundo projeto de resolução, listei especialmente alguns desses argumentos (que ouvi mencionados na reunião do CP em 30 de maio), a fim de colocar a questão abertamente diante de todos os membros do Partido, para que avaliem cuidadosamente cada um dos dois argumentos e cheguem a uma decisão bem ponderada.

Se vocês, camaradas, têm motivos significativos e sérios para não confiar no CC, digam-no abertamente. É dever de cada membro do nosso Partido organizado democraticamente fazê-lo, sendo então um dever do CC do Partido dar atenção especial a essa desconfiança, relatando-a ao congresso do Partido e entrando em negociações especiais com o objetivo de superar essa deplorável falta de confiança no CC por parte da organização local.

Se não houver tal falta de confiança, então é injusto e errado desafiar o direito do CC, conferido pelo congresso do Partido, de dirigir as atividades do Partido em geral e suas atividades na capital em particular.

O nosso CC está pedindo demais ao querer dirigir os jornais de Petrogrado? Não. No Partido Social-Democrata Alemão, em seus melhores dias, quando Wilhelm Liebknecht estava à frente do partido por vários anos, ele era o editor do Órgão Central do partido. O OC era publicado em Berlim. A organização de Berlim nunca teve um jornal berlinense especial, só dela. Havia um Comitê de Imprensa de trabalhadores e havia uma seção local no Órgão Central do partido. Por que deveríamos nos afastar deste bom exemplo que camaradas em outros países nos deram?

Se vocês, camaradas, desejam garantias especiais do CC, se querem que mudanças sejam feitas em um ou outro ponto do plano do CC para o estabelecimento de dois jornais, peço a vocês, em nome do CC, que considerem cuidadosamente o assunto e apresentem seus pontos de vista.

Acredito que a decisão da Executiva do CP de estabelecer um jornal especial em Petrogrado é completamente errada e inconveniente, porque divide nossas forças e introduz em nosso Partido elementos de conflito. Na minha opinião – e neste ponto apenas expresso a opinião do CC – é aconselhável que a organização de Petrogrado apoie a decisão do CC, dê-se tempo para verificar os resultados da experiência dos dois jornais trabalhando de acordo com o plano do CC e então, se necessário, aprovar uma decisão especial sobre os resultados dessa experiência.

Com saudações social-democratas de camaradagem,

31 de maio de 1917

Lênin

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