A crise global de 2008: uma análise marxista dos perigos da financeirização da economia

Por Lucas Barroso*

Desde a metade do século XIX, Karl Marx (1818-1883) já previa a centralidade dos Estados Unidos no mercado mundial. Em seu artigo “Deslocamentos do Centro de Gravidade Mundial”, o sociólogo alemão tece suas análises sobre a conjuntura econômica estadunidense a partir de uma recente descoberta de minas de ouro nas minas californianas. Sobre isso, Marx afirma que “o centro de gravidade do mercado mundial era a Itália, na Idade Média, a Inglaterra na era moderna, e é hoje a parte meridional da península norte-americana” (2003 [1850], online). Assim, segundo o autor, a economia estadunidense começaria a desempenhar um papel vital na perpetuação mundial do Capital a partir desse período histórico.

Ao longo da história da humanidade, tal previsão marxiana se confirmou como acertada. O desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos consolidou-se a partir de uma teia produtiva que até hoje interliga as economias do mundo, tanto em suas qualidades quanto em seus defeitos. A partir do século XX, na reconfiguração monopolista-financeira do Capital, o desenvolvimento capitalista atingiu níveis estratosféricos no país e, por conta disso, crises no sistema começaram a ser mais corriqueiras, posto que as inerentes contradições econômicas intrínsecas ao sistema impedem o pleno desenvolvimento da sociedade.

Em consonância com a teoria marxiana, uma literatura especializada nos processos de financeirização da economia passou a ser desenvolvida nos meios acadêmicos. Abordando essa temática, John Bellamy Foster, professor de Sociologia na Universidade de Oregon (Estados Unidos), em “A financeirização do capital e a crise” (2009) e em “Implosão financeira e estagnação” (2009), este último escrito conjuntamente com Fred Magdoff, professor emérito da Universidade de Vermont (Estados Unidos), procura analisar o capitalismo a partir da ótica financeira, expondo os seus mecanismos parasitários, como a implementação de uma especulação financeira em determinados setores econômicos, por exemplo.

Publicado originalmente na revista Monthly Review (v. 59, n. 11, 2008), o artigo “A financeirização do capital e a crise” (2009) inicia apresentando uma definição do processo de financeirização, tão recorrente na contemporaneidade. Segundo Foster, esse mecanismo é um “processo de progressivo deslocamento da centralidade da produção em direção às finanças” (2009, p. 10). Desde a década de 1970, em consonância com o aumento dos gastos militares, essa estratégia burguesa tem sido vista como a principal força propulsora do crescimento econômico das sociedades capitalistas modernas (FOSTER, 2009, p. 13). Sobre isso, a inevitabilidade de crises torna-se cada vez mais comum, visto que especulações financeiras têm sido cada vez mais corriqueiras no sistema capitalista.

Exemplificando tais afirmações, o autor usa como norte a crise global de 2008. Fazendo parte de um contexto geral de descontrole inevitável, John Bellamy Foster afirma que esse acontecimento histórico em específico não se trata apenas de mais um episódio da contração de créditos tão comum no capitalismo, mas sim “assinala uma nova fase no desenvolvimento das contradições do sistema” (2009, p. 13). Assim, em meio à aderência global à financeirização econômica, analisar esse período de crise é importante para entender os problemas sociais que são decorrentes desse processo de inflexão no sistema capitalista, uma vez que, com o desenvolvimento dialético intrínseco ao Capital, os períodos cíclicos de estagnação econômica tornam rotina na realidade mundial (FOSTER, 2009, p. 25).

Em seu outro artigo “Implosão financeira e estagnação” (2009), escrito juntamente com Fred Magdoff, em consonância com as ideias desse seu trabalho, o autor procura analisar as causalidades e as consequências da crise global de 2008. Para tentar reverter a forte queda no mercado acionário no início da década de 2000, uma bolha no setor imobiliário foi criada pelas instituições financeiras. Isso se deu pelo fato de que as baixas taxas de juros, aliada a disponibilidade maior de fundos pelos bancos, gerou a formação de uma hiperespeculação no mercado residencial, movida pelas idas massivas de capital para o setor, que, visando compensar o estouro da bolha no mercado de ações, fizeram os preços das residências dispararem. Consequentemente, como historicamente acontece, a mania especulativa gerou tensão e pânico, que culminaram na crise de 2008 (FOSTER, 2009, p. 15; FOSTER; MAGDOFF, 2009).

Em seu artigo, John Bellamy Foster e Fred Magdoff (2009) destacam que, mesmo com a tentativa do Estado norte-americano de reabastecer a economia financeira com empréstimos e compra de ações, a armadilha da liquidez transformava auxílios bem intencionados em arapucas da financeirização (p. 9). Além disso, o habitual instrumento monetário de baixar as taxas de juros também perdeu a sua eficácia nessa situação, uma vez que é impossível negativar tais dados. Por conseguinte, os setores da sociedade começaram a sentir os efeitos da recessão, como os principais fabricantes de automóveis dos EUA, além de se dar início a uma escalada galopante do desemprego, da submoradia e de congelamentos de salários no país (FOSTER; MAGDOFF, 2009, pp. 10-11). No sistema capitalista monopolista-financeiro, se os lucros dos burgueses não são compartilhados entre as classes, os prejuízos assim o são.

Dessa forma, a partir das reflexões suscitadas nos artigos “A financeirização do capital e a crise” (2009) e “Implosão financeira e estagnação” (2009), é possível compreender o caráter estacionário das economias capitalistas modernas. Recorrendo à financeirização da cadeia produtiva, as estratégias burguesas de perpetuação de seus lucros têm se mostrado instáveis e especulativas, como aconteceu na crise global de 2008, por exemplo. Nesse caso, recorrer ao Estado como um solucionador e “emprestador de última instância” (FOSTER; MAGDOFF, 2009, p. 12) não trouxe o sucesso esperado, como aconteceu na Grande Depressão de 1929. Nesse sentido, as consequências dessa estagnação da produção e do investimento estão sendo sentidas até hoje em diversos países. Mesmo havendo diversas justificativas economicistas para as crises capitalistas, a verdade continuará sendo apenas uma: “a causa é o modelo” (FERNANDES, 1998, p. 11). Por isso, por ser uma tendência e não uma exceção do capitalismo, a alternativa mais humanista possível ainda consiste na união dos proletários em prol do fim do modelo capitalista monopolista-financeiro (FERNANDES, 1998, p. 12), como fora previsto por Marx ainda no século XIX.

Referências bibliográficas:

FERNANDES, Anníbal. “Apresentação à Edição Brasileira”. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Edmilson Costa. 3ª Edição. São Paulo: EDIPRO, 2015, pp. 7-12.

FOSTER, John Bellamy. A financeirização do capital e a crise. Revista Outubro, v. 18, pp. 09-41, 2009. Tradução de Emilio Chernavsky. Disponível em: <http://outubrorevista.com.br/ a-financeirizacao-do-capital-e-a-crise/>. Acesso em: 25 fev. 2021.

FOSTER, John Bellamy; MAGDOFF, Fred. Implosão financeira e estagnação: de volta à economia real. Tradução de Margarida Ferreira. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, n. 24, pp. 7-40, jun. 2009.

MARX, Karl. Deslocamentos do Centro de Gravidade Mundial. Marxist Internet Archive, 2003 [1850]. Tradução de Jason Tadeu Borba. Disponível em: <https://www.marxists.org/ portugues/marx/1850/02/deslocamento.htm>. Acesso em: 03 jul. 2020.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. “Burgueses e proletários”; “Proletários e comunistas”. In: ___________. Manifesto do Partido Comunista. 1ª Edição. São Paulo: Expressão Popular, 2008. caps. 1 e 2. pp. 8-45.

* Lucas Barroso é bacharelando em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e licenciando em História pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Possui experiência com ênfase no ensino e pesquisa de História do Brasil e de contemporaneidades.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8481113958603388.

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