O mito do elitismo em Lênin

Por Paul D’Amato. Via International Socialist Review, traduzido por Juan Rodrigues.

“Reciclando as mesmas duas ou três citações e se estruturando em conceitos acerca de Lênin estabelecidos pelos mencheviques, muitos historiadores concluem que a única contribuição de Lênin para o marxismo, expressa em “Que Fazer?”, consiste na concepção de organização revolucionária enquanto partido centralizado e clandestino pelos revolucionários profissionais, os intelectuais da classe média. A argumentação segue com a ideia de que o elitismo presente no pensamento de Lênin estava baseado, citando o historiador direitista Richard Pipes, no fato de que ele havia “perdido a sua fé na classe trabalhadora.”


Em sua grande maioria, os historiadores ocidentais vêm apresentando Lênin como um grande elitista, quando não um autocrata. O dito elitismo teria emergido pela primeira vez em sua obra Que Fazer?, onde estes dizem estar o resumo de todo o pensamento leninista – o trabalho onde Lênin teria “explicitamente abandonado o marxismo ortodoxo e se provado um jacobino ou um blanquista”[1]. Reciclando as mesmas duas ou três citações e se estruturando em conceitos acerca de Lênin estabelecidos pelos mencheviques, muitos historiadores concluem que a única contribuição de Lênin para o Marxismo, expressa em Que Fazer?, consiste na concepção de organização revolucionária enquanto partido centralizado e clandestino pelos revolucionários profissionais*[2], os intelectuais da classe média. A argumentação segue com a ideia de que o elitismo presente no pensamento de Lenin estava baseado, citando o historiador direitista Richard Pipes, no fato de que ele havia “perdido a sua fé na classe trabalhadora.”[3]

Segundo Leopold H. Haimson, um dos fundadores da ortodoxia elitista em Lênin : “O que estava implícito em Que Fazer? não era meramente uma falta de fé na capacidade da tomada autônoma de consciência do movimento trabalhador, mas também um traço básico em seu pensamento, o de que nenhum ser humano teria a habilidade de superar seus impulsos elementares e de agir de acordo com o que sua consciência diz sem a orientação e o controle do partido e suas organizações.” [4] Como o historiador Lars T. Lih exemplifica, esses argumentos são baseados na ideia de que Lênin “temia o desenvolvimento espontâneo do movimento dos trabalhadores” tanto que “ele fez com que o movimento se divergisse do seu curso natural para que pudesse ser controlado por não-trabalhadores, pelos intelectuais revolucionários burgueses.”[5]

Em sua meticulosa pesquisa Lenin Rediscovered, Lih chama essa análise onipresente de “interpretação manualesca”, [6], da obra Que Fazer?, que é incisivamente reiterada texto após texto: “O panfleto Que Fazer? é declarado uma descrença na capacidade da classe trabalhadora em atingir, sem uma liderança externa, o grau necessário de consciência para que pudesse ser parte decisiva nos futuros eventos revolucionários.”[7]; sendo que a postura de Lênin sempre foi a de “destruir a noção de que a consciência socialista pertencia a poucos”[8]; e assim por diante.

Um outro grupo de historiadores faz uma argumentação diferente[9]. Lih, por exemplo, mostra de forma explicitamente detalhada em sua obra, Lenin Rediscovered, que na verdade foram os oponentes de Lênin que subestimavam a classe trabalhadora e, que os escritos lenenianos do período de Iskra (1900-1903) estão recheados de argumentos sobre como o movimento socialista estava atrasado em relação ao movimento operário. “Não achamos que alguém duvide que o vigor do movimento atual consiste na tomada de consciência das massas (principalmente do proletariado industrial),” Lênin diz no segundo capítulo, “e que sua fraqueza está na falta de consciência e iniciativa entre os líderes revolucionários.”[10] Neil Harding, em seu excelente livro Lenin`s Political Thought, faz uma argumentação parecida com a de Lih: “É dito que, neste período, Lênin perdeu sua fé em um movimento de massas espontâneo, e por causa disso sempre defendeu que a revolução teria de ser guiada por uma elite especializada. Esta interpretação tem o atrativo de ser simples e consistente com a ideia de Lênin enquanto um jacobino, porém apresenta problemas insuperáveis para aqueles que a tentam assimilar aos escritos de Lênin .”[11]

Infinitas passagens de Lênin neste período, que contradizem as interpretações manualescas, são simplesmente ignoradas pelos historiadores. Na grande maioria dos casos, Lênin é citado fora de contexto. Mais do que qualquer outro revolucionário, os trabalhos de Lênin devem ser lidos com o entendimento das condições sobre as quais foram escritos. Nigel Harris pontuou muitos anos atrás: “O texto Que Fazer? vem sendo alvo de numeroso ataques ocidentais, e muitos deles não conseguem entender que este pequeno panfleto colocou até mesmo suas próprias ideias a serem vistas sobre outra perspectiva. É como se um dia, ao ver que está chovendo quando estou prestes a sair de casa, eu dissesse “devo vestir uma capa impermeável” e que, de alguma forma, essas palavras fossem salvas para que no futuro algum arquivista pesquisando sobre a história das capas impermeáveis pontuasse assertivamente: “O Harris sempre acreditou profundamente nas virtudes das capas impermeáveis; por exemplo, foi dito por ele ‘devo usar uma capa impermeável’.”’ A metáfora não é perfeita, mas o ponto é claro. Jornalistas ocidentais vem sendo tão sem escrúpulos quanto Stálin ao citar Lênin fora de contexto, desprovidos das perguntas as quais ele estava tentando responder.[12]

O Período de Iskra

Qual foi o contexto em que Lênin escreveu “Que Fazer?” ?

A primeira fase do movimento social-democrata, no começo da década de 1890, se focou no recrutamento de operários para grupos de estudos secretos. O movimento era necessariamente secretos por conta da natureza repressiva da autocracia. Quando a luta de classes começa a ganhar força, no meio desta década, os trabalhadores têxteis juntamente com os social-democratas, incluindo Lênin, fizeram agitações visando reivindicar soluções para as demandas econômicas imediatas dos trabalhadores. Neste ponto, esses grupos estavam organizados localmente, independentes uns dos outros, sem formas de organização nacional. Uma parte da juventude social-democrata neste período começou a superestimar a importância da luta econômica, ao passo que menosprezavam a necessidade da organização da classe trabalhadora enquanto ferramenta política contra a autocracia. “Quando começamos uma agitação de massas, muitas vezes não somos capazes de nos conter de ir para o outro extremo,” Lêninexplica. “A predominância do trabalho isolado,” ele pontua, “está naturalmente conectada com a dominação na luta de classes.”[13] Foi apenas questão de tempo até que esforços teóricos fossem feitos para colocar um fim nessa linha de pensamento. No ano de 1899, o folheto “Credo” foi posto em circulação nos meios social-democratas. Escrito por E. D. Koskova, o documentos expressava simpatia com o reformismo gradualista de Eduard Bernstein, na Alemanha, e argumentou que, ao invés de lutarem pela revolução, os socialistas russos deveriam se articular para “reformar os problemas da sociedade do dia de hoje em linhas democráticas, com o objetivo de proteger todos os direitos da classe trabalhadora da forma mais efetiva possível.”[14]

Um pensamento clássico dos economicistas da época foi expresso no jornal Rabochy Mysl: “Que tipo de luta de classes é desejável para os trabalhadores conduzirem? Não seria o cenário onde apenas eles seriam capazes de conduzir as circunstâncias atuais?”[15] Este pensamento não é nada mais que uma ressureição da afirmação de Bernstein, que se o movimento era “tudo”, então o objetivo final era “nada”. Não se espanta que Lenin e seus colegas consideravam o economicismo a variante russa do revisionismo de Bernstein.

A resposta de Lênin ao panfleto, escrita durante seu exilio na Sibéria (que teve início no ano de 1895 e acabou no verão de 1900), foi breve. Seu artigo, assinado por mais dezessete socialistas exilados, argumentava que: “A assertividade de que a classe trabalhadora russa ‘ainda não se organizou politicamente’ somente revela a ignorância do movimento revolucionário da Rússia.” Lênin escreve: “Aparentemente, a ideia do autor de “Credo” se inclina para a noção de que a classe trabalhadora deve, seguindo a linha de menor resistência, se confinar em meio à luta de classes, enquanto os elementos da oposição liberal usam da “participação” dos marxistas nas decisões legais como ferramenta de luta. A aplicação de tal ideia seria equivalente ao suicídio político dos social-democratas russos, retardaria e tiraria a união da classe operária e do movimento revolucionário.”[16]

Lênin argumenta que, se a posição dos trabalhadores na luta de classes for restrita à sua atuação econômica, o movimento irá se separar em vários partidos diferentes e perderá sua união na luta contra a autocracia.

Não demorou muito para que, após a popularização do economicismo, a luta de classes ganhasse um caráter mais político, o que deu grande palco para o conflito ideológico sobre esse assunto. O movimento dos estudantes ganhou força, e foi igualmente reprimido pelo governo. Os trabalhadores se juntaram a alguns destes movimentos. Foram eles que começaram a organizar os protestos do nove de maio, incluindo aquele que levou à uma greve geral em Kharkov, no ano de 1900. Em maio de 1901, trabalhadores de São Petesburgo travaram lutas nas ruas contra a polícia e os cassacos, e então se trancaram na fábrica. Aproximadamente 30 mil estudantes participaram da greve geral no inverno de 1901-02. Em Moscou, a comemoração do aniversário do fim da servidão acabou com o choque entre trabalhadores e cossacos. Em novembro de 1902, uma greve do setor ferroviário em Rostov do Don se transformou em uma greve em toda a cidade.[17]

Após o fim de seu exílio na Sibéria, Lênin, juntamente com Julius Martov, Alexander Petrosov e a velha guarda do marxismo na Rússia, começou a publicação de um jornal, Iskra, em que depositava a esperança de unir os fragmentados comitês social-democratas. “Nossa missão principal,” escrevia Lênin na primeira emissão do Iskra, “é facilitar o desenvolvimento político e a organização política da classe trabalhadora. Aqueles que tentarem atrapalhar essa tarefa, os que negarem a subordinação aos métodos de luta, estarão atrapalhando seriamente o movimento.” Lênin desprezava aqueles que queriam “usar dos trabalhadores para política apenas em alguns momentos, apenas em momentos festivos,” quando o objetivo deixava de ser uma luta revolucionária da classe trabalhadora contra a autocracia, para se tornar a luta por concessões parciais.[18]

Lênin expôs seus pontos em diversos artigos do Iskra, que culminaram na obra Que Fazer?. Quais seriam seus pontos principais?

• Primeiro, sua polêmica contra os membros do movimento que minimizavam a importância da formação política e teórica dos trabalhadores[19]; em particular, aqueles que tentavam importar reformismos para dentro do movimento com a desculpa de “liberdade à crítica”. Ele ataca especificamente o jornal Rabochaya Dyelo e seu editor, Krichevsky, argumentando que “o movimento socialista como um todo, em todas as suas formas…. incluindo as mais oportunistas, crava suas bases nos interesses populares e na emancipação política e econômica da classe trabalhadora.”[20]

• Segundo, ele faz ataques aos economicistas, representados pelo jornal Rabochaya Mysl, que visava limitar a classe trabalhadora à lutas puramente econômicas, e deste modo “converter o nascente movimento operário em um mero apêndice dos liberais.”[21] Ele criticava aqueles que, por apoiar o foco na luta econômica, acabavam mais por atrapalhar o movimento do que por ajudar a construí-lo. Rabochaya Mysl, por exemplo, apresenta uma critica muito particular de que a única luta importante para os trabalhadores seria “aquela que está acontecendo no tempo presente.”[22]

• Ainda contra os economicistas, que menosprezaram a prática de agitação popular e de demandas políticas dos trabalhadores, ele argumenta que “a força presente no movimento de hoje atua de acordo com a libertação ideológica das massas, principalmente do proletariado industrial, e que sua fraqueza está na falta de consciência e de iniciativa por parte dos líderes revolucionários.[23]

• Lênin também faz uma série de propostas práticas para a superação do estado fragmentado, paroquial e primitivo do movimento socialista. A tarefa imediata, ele dizia, era a da organização em nível nacional, baseada em comitês centrais de revolucionários que produziriam um único jornal para toda a Rússia, o que poderia atuar como, segundo Lênin, um agente de organização coletiva, de propaganda, e uma ferramenta para “conduzir a organização revolucionária, a disciplina e o entendimento de que o trabalho revolucionário feito clandestinamente, poderia levar a resultados melhores.”[24] Apenas um partido político centralizado, com um núcleo político forte, pode construir uma organização operária que seja capaz de cumprir com suas tarefas, assim como a vanguarda da luta contra o absolutismo.

Existem vários pontos em que Que Fazer é mal interpretado, isso ocorre pois muitas propostas feitas por Lênin eram feitas para contextos e situações específicas, mas muitos historiadores as tomam como visões permanentes e totais. Por exemplo, a ênfase dada por Lenin aos métodos clandestinos de organização é apresentada como peculiaridade do que atualmente se chama de leninismo. Isto é mentira. A intensa repressão da polícia tzarista obrigava todos os partidos de esquerda a se organizarem clandestinamente. Essa ênfase dada por Lênin no desenvolvimento de militantes revolucionários treinados para evitar a polícia é uma derivação direta do caráter “primitivo” e descentralizado do movimento socialista russo – que ainda não havia se organizado enquanto movimento nacional. Lênin almejava acabar com essas condições ao formar militantes em verdadeiros experts em evitar a detecção e a prisão pela polícia. Era uma questão urgente. A vida útil de um comitê, isto é, antes da polícia o dissolver, era de no máximo dois meses, após isso este era reerguido por pessoas que muitas vezes não tinham o menor conhecimento de como organizar um comitê. O movimento carecia de coesão e continuidade.

Se é argumentado que Lênin tinha o desejo de formar uma organização exclusivamente com estes revolucionários profissionais. O que também é mentira. A ideia de Lênin era a de que o partido deveria de ter um aparato secreto, que consistia nos revolucionários mais experientes e centrais de cada comitê, mas ao redor deles existiriam diversas camadas de membros “não profissionais” do Partido. “Organizações partidárias não deveriam ser idealizadas enquanto uma massa de militantes de maioria profissional,” aponta Lênin no Congresso do Partido de 1903, “nós precisamos de vários níveis de organização, começando com uma extremamente limitada e secreta e indo até uma organização mais aberta, livre.”[25] Hal Draper, teórico americano, argumenta que por “revolucionários profissionais” Lênin não se referia a um funcionário em tempo integral do Partido, mas sim um militante que dedicasse a maior parte de seu tempo ao trabalho revolucionário.” [26]

Lênin também nunca concebeu a ideia de que esses comitês secretos do Partido deveriam ser formados exclusivamente por intelectuais. “A tomada de consciência espontânea das massa, consequentemente, causaria a formação de vários militantes “profissionais” atuantes em suas respectivas posições.”[27] Lênin escreve para um trabalhador no ano de 1904: “Nós devemos visar a maior consciência de classes entre os trabalhadores possível e, consequentemente, a transformação destes em militantes “profissionais” e em membros destes comitês… Os comitês deveriam incluir, de acordo com o possível, todos os principais líderes populares do movimento operário.”[28]

Se avançarmos para o ano de 1906 essas argumentações ficam ainda mais insustentáveis. Aqui nós encontramos Lênin criticando severamente os membros do comitê bolchevique – isto é, os revolucionários profissionais – por sua postura conservadora em relação a trazer trabalhadores para este comitê. Em um discurso feito no Terceiro Congresso do Partido, em abril de 1905, Lênin argumenta: “Em meus escritos para a imprensa, eu pontuei claramente que o maior número de trabalhadores possível deveria ser alocados nestes comitês. O período que sucede o segundo congresso é marcado pela falta de atenção ao cumprimento desta tarefa – esta é a impressão que eu tive a partir de conversas com meus camaradas trabalhadores. Esta inércia precisa ser superada.”[29]

Meses depois, com as coisas se encaminhando para uma direção mais favorável, Lênin argumentou que: “No terceiro congresso eu havia sugerido que houvessem cerca de 8 trabalhadores para cada 2 intelectuais nos comitês do partido. O quão obsoleta esta sugestão parece nos dias de hoje! Agora nós rezamos para as organizações do partido terem um intelectual social-democrata para centenas de trabalhadores social-democratas.”[30]

Draper reconhece que Lênin foi muito mal interpretado por seus contemporâneos por conta de suas ênfases se restringirem a certos pontos e não a outros durante a construção de uma ideia; como por exemplo o foco dado à organização de militantes inteiramente ligados às tarefas do Partido no ano de 1902, e ao recrutamento das massas para o Partido em 1905. “Seria esperado de um escrito acadêmico atual, com a vantagem temporal de poder olhar os acontecimentos em sua totalidade e com total disponibilidade de documentos, a apresentação e o pensamento sobre as diversas tentativas de Lênin em clarificar e modificar suas visões. O que geralmente é ignorado no estudo contemporâneo das obras de Lênin são justamente suas clarificações sobre a autocrítica.”[31]

A ideia de que Lênin sempre favoreceu formas de organização não democrática também é falsa. Em “Que Fazer?”se é dito que sobre condições de liberdade política, os socialistas russos prefeririam formas democráticas de organização do Partido. “Nós bolcheviques,” ele argumenta em 1905, quando o Partido efetivamente adotou métodos democráticos, “sempre reconhecemos que sob novas condições, quando as liberdades políticas forem alcançadas, seria essencial adotar o princípio eletivo”[32]. Lênin apenas pontua que, sobre as condições da época (1902), as formas de abertura democrática apenas facilitariam o “trabalho da polícia em realizar ataques em grande escala.”[33]

A historiadora Moira Donald diz que: “Não há evidências que justifiquem a afirmação de que Lênin, durante este período chamado de formação do bolchevismo, rejeitou o elemento democrático na tradição marxista. Através de Que Fazer? Lênin expressa a importância do elemento democrático veinculado à luta por democracia na Rússia. Entretanto, ele diz que por conta da situação política delicada da época o Partido deveria agir com cautela; as condições pouco democráticas impunham limites principalmente àqueles comprometidos com objetivos democráticos.”[34]

Donald e Lih fazem importantes pontuações contra os detratores de Lênin, que tentam encaixar Que Fazer? enquanto uma traição ao marxismo ortodoxo – a linha de argumentação segue com a equivocada concepção de que Que Fazer? representa a base da documentação sobre Lênin. Ambos parecem convictos de que Lênin considerava suas visões enquanto adaptações do modelo do Partido Social-Democrata Alemão à Rússia. “Nunca rejeitando o modelo social-democrata alemão da época,” escreve Donald:

Lênin manteve uma rigorosa disciplina nos estudos do SPD, constantemente buscando paralelos entre a história do Partido alemão e seu próprio… Entretanto, se alguma crítica pode ser feita sobre a leitura de Lênin sobre este partido durante o período, ela está relacionada à sua visão otimista e ao fato de ter subestimado a influência de Bernstein dentro do partido. [35]

As famosas passagens de “Que Fazer?”

Muitos críticos apontam as concepções de Lênin sobre o partido enquanto produto de sua ideia de que a classe trabalhadora não poderia atingir a consciência socialista “espontaneamente” sem a orientação de intelectuais burgueses. O que surgiria disto seria a oposição por parte de Lênin entre o conceito de liderança consciente e o de movimentos “espontâneos”. Duas passagens de Que Fazer? são frequentemente citadas para reforçar essa afirmação: “A história de todos os países nos mostram que a classe trabalhadora, apenas por seus próprios esforços, é capaz de desenvolver sindicatos, lutar por seus direitos, forçar os governantes a assinarem leis trabalhistas justas, etc. A teoria socialista, entretanto, cresceu fora do campo teórico filosófico, histórico e econômico elaborado pelos representantes das classes opressoras, dos intelectuais.[36]” E “A missão social-democrata é a de combater a espontaneidade, é trazer esses sindicatos desorganizados para debaixo das assas da social-democracia revolucionária. [37]”

A primeira passagem é uma citação direta de um ensaio de Karl Kautsky[38], uma vez que ele acabara de lê-lo ao preparar Que Fazer? Praticamente todo historiador ao chegar neste ponto considera estas passagens a maior quebra teórica em Que Fazer?, onde ele expressara sua “falta de fé” na classe trabalhadora. Nenhum deles pareceu entender a ironia presente no fato de que essa quebra na teoria ortodoxa deriva de um símbolo implacável da ortodoxia, isto é, deriva do comandante porta voz da ortodoxia da Segunda Internacional. Eles contornam essa problemática simplesmente por ignorá-la.[39]

Tiradas de contexto, estas passagens poderiam ser interpretadas enquanto elitistas: trabalhadores não podem atingir a consciência socialista sem o comando dos intelectuais burgueses. Porém Lênin nunca mais usou essas formulações desta forma (assim como nunca o tinha feito). Apesar disso, esta ainda é tomada por muitos como a mais definitiva constatação de Lenin sobre consciência de classe e lutas de classe.

De certa forma, ao parafrasear Kautsky, Lênin meramente define um ponto central que era factual para com o cenário russo. Gorin, delegado do Terceiro Congresso de 1903, explica durante o debate acerca de Que Fazer?: “O que nós dissemos está ligado a um fato, e não expressa nenhum tipo de filosofia social ou concepção histórica. Nós apenas dissemos que a social-democracia russa foi meramente uma doutrina importada, que antecedeu o crescimento do movimento operário na Rússia. Mas os social-democratas russoas não caíram dos céus. Tendo surgido enquanto uma doutrina popular entre as outras organizações revolucionárias russas, esta assume sua forma social-democrata sobre a pressão da efervescência do movimento operário e do socialismo científico leste europeu, e apenas depois se juntariam ao movimento operário, de fato, russo.”[40]

Era um fato para todo o revolucionário de que o marxismo na Rússia primeiro atraiu os intelectuais, que depois viriam a apresentar estas ideias à classe trabalhadora. Para nenhum deles, e muito menos para Lenin, essa situação temporária deveria ser vista enquanto permanente – isto é, a ideia de que os intelectuais deveriam comandar a classe trabalhadora. Em um de seus primeiros longos escritos políticos, “O que os aliados da população são e como eles combatem os social-democratas,” escrito em 1894, Lênin diz: “Não deve existir nenhum tipo de sectarismo quando o objetivo é a organização do proletariado, e quanto o papel dos intelectuais é justamente tornar os líderes vindo da intelectualidade desnecessários. ”[41]

Mais adiante, como apontado por Hal Draper, Lenin qualifica, se não nega completamente, a análise de Kautsky em uma importante nota de pé de página: “Isto não significa, é claro, que os trabalhadores não tenham papel na criação desta ideologia. Entretanto, este papel desempenhado não seria o de trabalhador, mas sim o de socialista teórico, assim como os seguidores de Proudhon e de Weitlings; em outras palavras, eles apenas assumem um papel central quanto estes estão capacitados, mais ou menos, a adquirir o conhecimento de sua época e a desenvolvê-lo. Tomando em conta que a maioria dos trabalhadores alcance este estágio, todos os esforços deverão ser feitos para ampliar e aumentar o nível de consciência dos trabalhadores em sua totalidade; se é necessário que estes não se limitem à barreiras artificiais da “literatura para trabalhadores” mas que leiam e compreendam a “literatura geral”. É ainda mais correto dizer “que estes não sejam limitados”, uma vez que todo o trabalhador deseja ler tudo o que é escrito à academia mas poucos conseguem fazê-lo, alguns poucos (péssimos) intelectuais dizem que esta limitada literatura que era acessível às massas era o suficiente “para trabalhadores” entenderem as questões centrais.”[42]

A argumentação de Lênin é que a classe trabalhadora está pronta para ler e absorver a teoria socialista, o que é rejeitado por intelectuais que desejam restringir os trabalhadores à puras questões econômicas. Seguindo no mesmo livro, Lênin continua a qualificar os pontos argumentando que a classe operária, de fato, gravita entorno da consciência socialista, mas esta não se da desta forma em um vácuo ideológico: “É comumente dito que a classe trabalhadora gravita, espontaneamente, o socialismo. Isto é verdade no sentido de que a teoria socialista descreve e abrange os problemas dos trabalhadores mais profundamente do que qualquer outra, e por isso estes teriam facilidade em assimilar essa aproximação… A classe trabalhadora gravita espontanemente o socialismo; entretanto a ideologia burguesa é imposta à massas em um grau muito maior.”[43]

Os trabalhadores estão espontaneamente ao entorno do socialismo; mas estes ainda são mais influenciados pela ideologia da burguesia. É precisamente esta contradição que demanda um Partido político que represente os interesses da classe. A revolução só é possível quando organizada e quando se luta por ela. A massa de trabalhadores que é anteriormente cativada pelas políticas socialistas deve se organizar para exercer mais influência ao resto dos trabalhadores do que a ideologia burguesa.

Seguindo nesta linha, Lênin redefine o que quer expressar ao falar sobre trazer a consciência de classe aos trabalhadores “de fora.” Agora ele estaria se afastando da formulação de Kautsky – de que o socialismo deveria ser introduzido à massa trabalhadora por intelectuais – ao dizer que a consciência socialista só poderia ser desenvolvida entre os trabalhadores se as relações entre patrão e empregado fossem compreendidas para além das fábricas: “A luta econômica apenas faz com que os trabalhadores percebam as atitudes do governo sobre a classe trabalhadora. Consequentemente, por mais que nos esforcemos em explicitar o caráter político desta luta econômica, nós jamais seremos capazes de desenvolver a consciência política dos trabalhadores (ao nível da consciência política social-democrata) mantendo as estruturas que sustentam esta luta.” E segue, “A consciência política de classe só pode ser ‘trazida de fora’, isto é, de fora à luta econômica, de fora desta atmosfera das relações entre trabalhadores e patrões. A esfera a partir da qual é possível obter este conhecimento é a esfera das relações entre todas as classes e camadas com o governo e o Estado, as interrelações presentes entre as distintas classes.”[44]

Parafraseando outra passagem de Que Fazer?, a consciência de classe trabalhadora pode apenas ser inteiramente socialista se este grupo é treinado a reagir a todas as formas de opressão e tirania, independentemente dos grupos que estas ataquem estarem ou não dentro da atmosfera operária: ataques à estudantes, programas contra judeus, opressão de minorias nacionais, de mulheres, e assim por diante.[45] Sem esta consciência, a classe trabalhadora jamais será capaz de derrubar o czarismo e rumar ao socialismo. Isso não quer dizer que Lenin desacreditava que a luta de classes pudesse ajudar o trabalhador a atingir a consciência socialista. Ele havia escrito poucos anos antes, em seu texto “Sobre as greves,” (logo após começar seus ataques contra o economicismo russo) precisamente que “toda a greve trás intensos pensamentos socialistas à mente do trabalhador, pensamentos sobre a luta que tange toda a classe trabalhadora na emancipação da opressão do capital.”[46]

Moldada pela eclosão da revolução de 1905, a argumentação repressiva de Lenin contra quaisquer vestígios conservadores no Partido o levaram a enfatizar ainda mais o modo em que as lutas estariam levando os trabalhadores à consciência socialista. Lênin reforça a relação dialética entre a proposição dos líderes “conscientes” e os esforços espontâneos dos trabalhadores na jornada ao socialismo. “A classe trabalhadora é instintivamente, espontaneamente social-democrata, e mais de dez anos de trabalho social-democrata transformou de forma vigorosa esta espontaneidade em consciência.”[47]

Não foi Lênin, mas sim os economicistas que argumentaram que os trabalhadores não estavam prontos para luta ou agitação política. Em 1899, por exemplo, o comitê de Kiev escreveu: “Não acreditamos que seria possível no presente momento a ‘transformação’ dos trabalhadores em agentes de ações políticas, em outras palavras, não acreditamos na possibilidade dos trabalhadores fazerem agitação política, uma vez que os trabalhadores russos, em sua totalidade, ainda não tem a maturidade necessária para a luta política.” Lênin responde a isso da seguinte forma: “Os trabalhadores russos, no geral, não apenas apresentam a maturidade necessária para a luta política, como já demonstraram este fato diversas vezes por se engajar em atos da luta política, frequentemente de forma espontânea.”[48]

Quando estes argumentos de Lênin são combinados às suas ideias apresentadas em “Um Passo À Frente, Dois Atrás” (suas conclusões sobre o Congresso do Partido de 1903) sobre a consciência desigual da classe trabalhadora (“Precisamente porque existem diferentes graus de consciência e de atividade, as distinções devem ser feitas dada a proximidade do militante com o Partido”[49]), a argumentação se parece com algo do tipo: A classe trabalhadora almeja e luta fortemente pela consciência socialista, entretanto, a influência ideológica da classe dominante atua tão fortemente quanto; isto resulta em diferentes tipos de consciência e, consequentemente, necessita da figura um Partido organizado pelos trabalhadores que possuam maior consciência de classe para aumentar o nível de informação para a classe como um todo. Quem ataca esta figura, reduzindo o Partido a um mero suporte ao invés de considerá-lo um órgão de liderança na luta contra a autocracia, está sendo coadjuvante do plano burguês de confundir e fragmentar os trabalhadores. A vanguarda não era um corpo externo à classe, mas constituía sua parte mais consciente e organizada.

Essas ideias sobre a relação entre classe e Partido não eram únicas a Lênin, também foram sustentadas por outros. “Toda a classe trabalhadora é uma só coisa,” escreveu Plekhanov em 1901, “e o Partido Social-Democrata é outra, isto ocorre pela pequena participação dada a classe trabalhadora… Na minha opinião, a luta política do nosso Partido, que representa a forma mais consciente de revolucionária de guarda avançada do proletário, deve ser iniciada imediaramente.”[50] Durante o Segundo Congresso, no ano de 1903, o delegado Karsky defendeu “Que Fazer?” com a seguinte formulação[51]: “O camarada Akimov considera que o Partido não deve estar acima da classe trabalhadora. Esta forma de apontar a questão parece ser descontextualizada e incorreta. É de fora da classe trabalhadora que emerge o militante, a força consciente e o Partido, que são os portadores dos ideais socialistas, e é por isso que o Partido não pode deixar de estar acima da classe trabalhadora, justamente pois é justamente este quem vai liderar a massa insuficientemente consciente.”[52]

A descrença na classe trabalhadora

O que fora escrito em “Que Fazer?” definitivamente não representa Lenin enquanto um descrente na classe trabalhadora. Na verdade é completamente o oposto. Lenin estava argumentando contra os socialistas que menosprezavam o papel de liderança dos socialistas organizados precisamente no momento em que o movimento operário estava cada vez mais gravitando as ideias socialistas. A proposta de Lenin ao fazer esta argumentação era justamente insistir na importância do Partido enquanto órgão de aceleração e liderança da tomada de consciência política operária ao invés de um mero agente passivo – portanto seus argumentos contra a “adoração à espontaneidade” não se dirigiam à espontaneidade de fato, mas sim contra o pensamento de que a tarefa dos socialistas em meio a isto era apenas a de observar. A questão central da época, e Lenin percebeu isto, era que o intenso avanço do movimento operário estava deixando os conceitos e a coesão de uma organização revolucionária. Lenin continuaria a ressaltar isto em “O Retardo dos Líderes (lídeologistas,’ revolucionários, social-democratas) por trás do levante espontâneo das massas.”[53]

Tomando as afirmações de Lênin sobre divergir o movimento operário de seu curso natural, Lih faz uma argumentação bastante coerente sobre como isso era uma frase retórica baseada em uma resposta à formulações feitas por seus oponentes.[54] Em 1901, Lênin escreveu um artigo, “Uma conversa com os defensores do economicismo,” no qual ele anexou uma carta crítica a Iskra. Basicamente a ideia da carta era de que a posição dos socialistas de organização e liderança havia sido exagerada em Iskra, ao passo que desconsiderava o papel dos fatores históricos: “Ao mesmo tempo, Iskra considera muito pouco os elementos materiais do movimento, cujas interações traçaram uma forma de agir e seus rumos, estes que jamais seriam divergidos por nenhum intelectual, por mais que este seja portador das mais finas teorias e programas.”[55]

Lênin considerou esta formulação completamente passiva e determinista; em sua concepção ela menosprezava o papel da organização consciente em moldar o movimento operário. Ele escreveu, “Dizer que intelectuais (líderes políticos conscientes) não podem moldar os rumos do movimento é simplesmente ignorar a verdade de que os elementos conscientes participam destas interações e, consequentemente, das tomadas de decisão.”[56] Aos que disseram que os socialistas não poderiam divergir o movimento operário de seu curso natural, Lênin diz: “Sim, nós podemos e devemos divergir o movimento, isto porque os socialistas organizados não são simples observadores passivos olhando coisas sobre as quais não têm nenhuma influência, mas sim elementos determinantes na construção dos objetivos.” Neste mesmo artigo, Lenin esclarece que suas críticas acerca das tarefas dos social-democratas não vem da rejeição da luta espontânea, mas do fato de que o movimento trabalhador avançou aos trancos e barrancos enquanto os social-democratas o puxava para trás: “É um fato que a tomada de consciência da classe trabalhadora e de outros grupos vem aumentando exponencialmente nos últimos anos. Os ‘elementos materiais’ do movimento vêm crescendo enormemente, mesmo comparando com o ano de 1898, mas os líderes conscientes (os social-democratas) ficaram para trás em seu crescimento.”[57]

E o pior, argumenta Lênin, existiram pessoas do movimento socialista que tentaram justificar teoricamente este atraso: “Desde o final de 1897, particularmente após o outono de 1898, o movimento social-democrata russo foi impregnado por elementos individuais e jornais que não apenas fecharam seus olhos para esta desvantagem, mas também a consideravam uma virtude que teria aumentado os movimentos espontâneos e pregavam a ideia de que os social-democratas não deveriam guiar o movimento, mas se fazer presente em todo o seu corpo. [58]

Podemos ver que é pura mitologia dizer que Lênin encarava as lutas espontâneas dos trabalhadores de forma hostil. Muito se é alegado que Lenin fez um chamado entre os socialistas para “combater a espontaneidade.” Mas Lenin usa desta formulação de forma retorica contra os economicistas que acreditavam na luta espontânea dos trabalhadores ao invés da luta liderada pelos socialistas. O que ele quer dizer é que os socialistas devem combater teorias espontâneas dentro do movimento, ou seja, a ideia de que os trabalhadores necessariamente vão, de uma forma ou de outra, se envolver ao socialismo de forma espontânea, sem a liderança dos socialistas. Lenin comenta: “Ao que parece, estamos passando por um período em que o movimento operário está se engajando brutalmente em conflitos. Estes conflitos tanto afligem os governantes e a classe dominante quanto trazem esperança e coragem aos socialistas.”[59] E segue, “A fonte de sustento dos social-democratas revolucionários é o espírito de protestar juntamente aos trabalhadores que, tomando toda a violência e opressão que rodeia este, de vez em quanto se rebelam na forma de explosões desesperadas. Estas explosões nos revelam as mais amplas camadas sociais dos trabalhadores, e estimula neles o ódio pelos opressores inimigos da liberdade.” [60]

Lenin se encanta com as explosões da classe trabalhadora justamente pois isso serve para a tomada de consciência; claramente ele não separa as duas coisas, mas considera que a espontaneidade e a organização estão em relação dialética, uma nutre a outra através de suas interações.

Muitas outras passagens escritas anteriormente a “Que Fazer?” explicitam que Lenin não hostilizava a luta espontânea dos trabalhadores e muito menos era descrente quanto às suas capacidades em adquirir consciência de classe. “O levante da classe trabalhadora russa,” ele escreve em 1897, “está lutando espontaneamente pelo conhecimento, pela organização, pelo socialismo e para que a opressão seja menor a cada dia que passe.”[61] E ele escreve em 1899, “Tem sido observado na juventude um irrefreável entusiasmo pelas ideias socialistas.”[62] Lenin apenas se atenta à necessidade de conduzir esse entusiasmo de forma efetiva e centralizada; um Partido bem organizado com um aparato profissional clandestino, por conta da polícia. No mesmo ano ele reforça: “Nenhuma classe em toda a história conseguiu poder sem a “produção” de líderes políticos, sem seus representantes capazes de organizar e liderar o movimento. A classe trabalhadora da Rússia já deixou claro que é capaz de produzi-los, tanto homens quanto mulheres. A luta que se desenvolveu tão ferozmente nos últimos cinco anos nos revelou o intenso potencial revolucionário da classe trabalhadora; nos revelou que mesmo as mais impiedosas formas de governo não apenas não conseguem diminuir o número de trabalhadores que marcham ao socialismo, como aumentam a taxa de combatentes na luta política.”[63]

Muitas ideias de Lênin neste período refletem o pensamento dos marxistas ortodoxos da época; incluindo o de Kautsky. O conceito lenineano de hegemonia da classe trabalhadora na revolução contra o absolutismo foi desenvolvido pelos fundadores do movimento marxista russo, Plekhanov e Axelrod. Coube a Lênin aplicar esta teoria de forma exemplar à prática. [64] Mesmo com a forte identificação de Lênin com Kautsky e com a social-democracia alemã, tinha algo no Iskra que se diferenciava de seus socialistas contemporâneos. O que era único ao seu pensamento foi a forma em que Lênin explorou o conceito de organização para tratar de questões políticas – coisa que Rosa Luxemburgo e Leon Trótski fizeram somente anos depois. Como pontua Donald, sua visão era inovadora: “Lênin debatia teoricamente e dava atenção a questões que não eram consideradas importantes pelos teóricos marxistas…. Que Fazer? fundiu a teoria marxista e a prática social-democrata de uma forma a caber apenas nas condições russas da época… Lênin entendeu e elevou as questões organizacionais ao plano de teoria marxista de uma forma que nem Kautsky nem qualquer outro teórico contemporâneo fez. A importância deste desenvolvimento não foi apreciada até que certos elementos da estrutura organizacional de Lênin se tornassem pontos de controvérsia nos conflitos que dividiram o Partido em seu Segundo Congresso em 1903.” [65]

Conclusão

A abordagem básica de Lênin ao período iniciado no começo dos anos 1890, quando ele se tornou um marxista, até a revolução de 1905 pode ser resumida em um de seus primeiros artigos, escrito em 1894: “A atividade política dos social-democratas se baseia em promover o desenvolvimento e a organização do movimento trabalhador na Rússia. Em transformar este movimento que, nos dias de hoje, realiza protestos, greves e rebeliões esporádicas, em uma luta organizada de toda a classe trabalhadora russa contra o regime burguês e o sistema social baseado na opressão dos trabalhadores. Subjacente a essas atividades está a convicção comum dos marxistas de que o trabalhador é o representante natural do russo explorado.” [66]

“Que Fazer?” não representa uma quebra com essas visões, mas sim uma defesa polêmica destas – uma defesa feita em circunstâncias específicas e contra oponentes específicos. O próprio Lenin confirma que “Que Fazer?” continha polêmicas exageradas escritas para uma discussão específica. Durante o Segundo Congresso do Partido, em 1903, ele responde as críticas feitas às famosas passagens de “Que Fazer?” dizendo: “Obviamente um episódio da luta contra o economicismo foi aqui confundido com uma apresentação de princípios teóricos importantes.”[67]

Lenin faz uma argumentação similar na introdução de uma reimpressão de seus textos em 1907, que incluía uma versão abreviada de “Que Fazer?”: “O erro básico daqueles que criticam ‘Que Fazer?’ é justamente abstrair o panfleto de sua situação histórica concreta, de seu contexto.”[68] Aqueles que hoje criticam o “exagero” sobre a questão organizacional em “Que Fazer?”, falham miseravelmente em entender que à época era extremamente importante defender esta questão: “Nos dias de hoje, a noção de organização dos revolucionários profissionais já é bem consolidada, isto é, já nos conduziu à diversas vitórias. Estas vitórias não teriam sido possíveis se as ideias sobre a organização não tivessem sido fomentadas da forma que foram, se não tivéssemos exagerado como exageramos.”[69] E claro, ele aponta, a ênfase em construir uma organização profissional estava “à parte de suas conexões com a ‘genuína classe revolucionária que emergiu espontaneamente’”[70]

Ao mesmo tempo, Lenin admite que a imaturidade do movimento resultava em um debate “destrutivo” entre os social-democratas exilados.[71] Ele também reconhece não ter usado as melhores formulações em “Que Fazer?”. Após romper com Lenin em 1904, Plekhanov declarou que divergia de seu camarada na relação entre “consciência espontânea e política.” Lenin rebate essa crítica por dizer que ela é “baseada em frases fora de contexto, em expressões particulares as quais eu não formulei precisamente, sem contar que existia um consenso geral entre os editores de Iskra sobre todo o conteúdo de “Que Fazer?”. [72]

E para responder aos que vieram com o tempo e tentavam transformar este panfleto no documento fundador do leninismo, ele escreve: “Nem mesmo durante o Segundo Congresso eu tive qualquer intenção em elevar minhas formulações ao nível “programático”. Pelo contrário, a expressão que eu usei – e desde então esta vem sendo muito citada – foi que os economicistas tinham ido para um extremo. Este panfleto “endireitou” o que fora deturpado pelos economicistas… O significado destas palavras é muito claro: “Que Fazer?” é a correção das distorções economicistas, e é errado ver a situação de outra forma que não esta.”

Lenin era fundamentalmente anti-elitista – não nos moldes anarquistas, que negavam a necessidade de qualquer liderança em uma luta, mas no sentido de considerar as lideranças um produto do desenvolvimento de consciência desigual na classe trabalhadora, e que sua tarefa era a de elevar o nível de consciência e atividade dos demais. Duncan Hallas, Marxista britânico, escreve: “É evidente que qualquer grupo revolucionário é necessariamente uma vanguarda. Mas o argumento de que este conceito é elitista simplesmente não tem substância alguma. A essência do elitismo é a crença de que as diferenças de consciência e experiência estão enraizadas em inalteráveis condições genéticas ou sociais, e de que as massas são incapazes de se auto governar, agora ou no futuro. A rejeição do pensamento elitista implica em atribuir estes contrastes à causas que podem ser mudadas. Isto não significa negar as suas diferenças.”

Praticamente todo analista de Lenin considera “Que Fazer?” não apenas o documento fundador do leninismo, mas também a versão final e completa do pensamento de Lenin. Isto é tomado não apenas pelos historiadores ocidentais, mas também pela hagiografia Stalinista de Lenin, ainda que as ideias de Lenin devam ser observadas em seus respectivos contextos. Os escritos de Lenin sempre foram feitos de acordo com as situações práticas que ele julgava ser o “elo da corrente” – de acordo com o que deveria ser feito em dado momento do movimento. Mais do que isso, as ideias de Lenin evoluíram: seu Marxismo foi moldado pelas lutas.

Todas as opiniões de Lenin (sobre o Estado, sobre a natureza burguesa da Revolução Russa, sobre o imperialismo, sobre o Partido, etc) foram aprendidas e moldadas com base nas lições aprendidas no curso das lutas, nos desenvolvimentos do capitalismo global e no movimento socialista internacional. Mesmo dizendo que as suas concepções mais maduras acerca da relação entre classe e Partido foram expressas no período que estamos discutindo, é errado afirmar que o período de Iskra representa completamente suas visões sobre organização partidária. Isso, no entanto, não afeta em nada as contribuições que Lenin fez ao Marxismo nesta época. Muito frequentemente os socialistas desprezam o período de Iskra , e particularmente “Que Fazer?”, quando se é necessário distinguir o que foi históricamente contingente e o que foi mais relevante para os Marxistas como um todo. É sob esta ótica que os socialistas deveriam ler e interpretar “Que Fazer?”


Notas

* Os revolucionários profissionais, ou militantes profissionais (professional revolutionaries), aqui tratados se referem aqueles que dedicavam a maior parte de seu tempo às tarefas do partido.

1- Neil Harding, Lenin’s Political Thought: Theory and Practice in the Democratic and Socialist Revolutions (New York: Humanities Press, 1983), 135. O livro de Harding, que é uma crítica à tese do elitismo em Lenin, é um das melhores obras acadêmicas sobre a teoria e prática leneniana. Infelizmente não está mais sendo impresso.

2- “Os historiadores acadêmicos que criaram as bases das interpretações manualescas constituíam a primeira geração do estudo do pós-guerra soviético: Leopold Haimson, Alfred G. Meyer, Adam Ulam, Leonard Schapiro, John Keep, Samuel Baron, Allan Wildman, Israel Getzler, Abraham Ascher, Richard Pipes, Jonathan Frankel.” Lars T. Lih, Lenin Rediscovered: What Is to Be Done? in Context (Chicago: Haymarket Books, 2008).

3- Richard Pipes entrevistado para PBS, “Heaven on Earth: A ascenção e a queda do socialismp,”Junho de 2005.

4- Leopold H. Haimson, The Russian Marxists and the Origins of -Bolshevism (Boston: Beacon Press, 1966), 138–39. (First published 1955 by Harvard University Press). Haimson atribui o “medo profundo” de Lenin da “expressão desenfreada” das “paixões humanas” ao fato de que ele estava “temeroso de suas próprias emoções”. A maioria desses historiadores também descreve Lenin como fraco em teoria, mas taticamente brilhante, um homem que, de forma oportunista, adaptou a teoria após o fato para justificar qualquer passo que desejasse dar. Ver Harding, Lenin`s Political Thought.

5- Lih faz suas próprias traduções de “Que Fazer?” ao final de seu livro. Ele aponta que a palavra russa stikhiinost é traduzida para “espontâneo,” quando traduzir para “elementar” mantem mais o sentido original. Isso clarifica que quando Lenin falava sobre “espontaneidade,” ele não estava se referindo às lutas sem líderes conscientes, mas às lutas com nível rudimentar de organização e consciência.

6- Lih, Lenin Rediscovered, 13.

7- Abraham Ascher, Pavel Axelrod and the Development of Menshevism (Boston: Harvard University Press, 1972), 177–79.

8- Samuel H. Baron quoted in Lih, Lenin Rediscovered, 34.

9- Lih, Lenin Rediscovered; Harding, Lenin’s Political Thought; Moira Donald, Marxism and Revolution: Karl Kautsky and the Russia Marxists, 1900–1924 (New Haven: Yale University Press, 1993).

10- V. I. Lenin, What Is To Be Done? (WITBD) in Collected Works (CW), Vol. 5 (Moscow: Progress Publishers, 1977), 373.

11- Harding, Lenin’s Political Thought, 156–57.

12- Nigel Harris, Beliefs in Society (Harmondsworth, England: Penguin Books, 1968), 54.

13- Lenin, “Urgent tasks of our movement,” CW, Vol. 4, 367.

14- Citado em Lenin, “A protest by Russian social democrats,” CW, Vol.4, 173–74.

15- Citado em Harding, Lenin’s Political Thought, 150.

16- Ibid., 178–79.

17- Tony Cliff, Lenin: Building the Party (Chicago: Haymarket Books, 2005), 82–84.

18- Lenin, “The urgent tasks of our movement,” CW, Vol. 4, 369.

19- “Que Fazer?”369

20- Ibid., 356.

21- Ibid., 363.

22- Ibid., 367.

23- “Que Fazer?”, capitulo 2, primeiro parágrafo.

24- Lenin, “An urgent question,” CW, Vol. 4, 222.

25- Lenin, “First speech in the discussion on party rules,” CW, Vol. 6, 498.

26- Hal Draper, “The myth of Lenin’s concept of the party, or, What they did to What Is To Be Done?.”

27- Lenin, “Que Fazer?”

28- Lenin, “Letter to a comrade on our organizational tasks,” CW, Vol. 6, 235.

29- Lenin, “Speech on the question of the relations between workers and intellectuals within the social-democratic organization,” CW, Vol. 8, 407.

30- Lenin, “The reorganization of the party,” CW, Vol. 10, 36.

31- Draper, “The myth of Lenin’s concept of the party, or what they did to What Is to Be Done?”

32- Lenin, “The reorganization of the party,” 30.

33- Lenin, “Que Fazer?”, 479.

34- Donald, Marxism and Revolution, 35.

35- Ibid., 27. Em “Que Fazer?”, Lenin faz referências explícitas à ideia de que os russos estão tentando, de sua própria forma, implantar o Programa Erfurt do SPD.

36- Lenin, “Que Fazer?”, 375.

37- Ibid., 384–85.

38- See Ibid., 383–84.

39- O que também é ignorado é o fato de que nenhum dos apoiadores de Lenin, nem mesmo os que romperam com ele em 1903, parecem ter descoberto essa profunda quebra. “A miserável falha de Axelrod em repudiar estes pontos elitistas publicamente em 1902 não é algo fácil de explicar,” escreve Abraham Ascher. Ele justifica a estranha afirmação com pura especulação: “Provavelmente, o motivo da falta de força na fala de Axelrod era seu medo de destruir a unidade” do grupo da Iskra. Ascher, Pavel Axelrod and the Development of Menshevism, 178–79.

40- Brian Pierce, 1903: Second Congress of the Russian Social Democratic Labor Party. Transcrito e anotado (London: New Park, 1978), 166.

41- Lenin, “What the friends of the people are and how they fight the social-democrats,” CW, Vol. 1, 298.

42- Ibid., 384.

43- Ibid., 386.

44- Lenin, WITBD, 422.

45- See ibid., 423.

46- Lenin, “On strikes,” CW, Vol. 4, 315.

47- Lenin, “The reorganization of the party,” 32.

48- Lenin, “Apropos of the Profession de Foi,” CW, Vol. 4, 289.

49- Lenin, One Step Forward, Two Steps Back, CW, Vol. 7, 258.

50- Citado em Jonathan Frankel, ed., Vladimir Akimov on the Dilemmas of Russian Marxism (London: Cambridge University Press, 1969), 47.

51- A crítica vem de A.S. Martynov, que viria a se tornar um menchevique. Ele cita uma famosa passagem de “From without” para mostrar que Lenin havia divergido da ortodoxia. Esta crítica, com a qual nenhum apoiador de Iskra concordou, se tornou a base da argumentação do elitismo em Lenin.

52- 1903: Second Congress of the Russian Social Democratic Labor Party, 162–63.

53- Lenin, WITBD, 446.

54- See Lih, Lenin Rediscovered, 346–53.

55- Lenin, “A talk with defenders of economism,” CW, Vol. 5, 313.

56- Ibid., 316.

57- Ibid.

58- Ibid., 317.

59- Lenin, “Another massacre,” CW, Vol. 5, 25.

60- Ibid., 25–26.

61- Lenin, “The tasks of the Russian social democrats,” 346.

62- Lenin, “An urgent question,” 223.

63- Lenin, “Urgent tasks of our movement,” 370.

64- “O movimento revolucionário da Rússia só pode triunfar enquanto movimento revolucionário dos trabalhadores. Não existe e não poderia existir nenhum outro caminho para nós.!” George Plekhanov, “Discurso no Congresso Internacional dos Trabalhadores Socialistas em Paris,” Julho 14-21, 1889, https://www.marxists.org/archive/plekhanov/1889/07/speech.html . Eu repito isto de forma concisa pois tanto Plekhanov quanto Pavel Axelrod eram ambivalentes em relação ao papel da burguesia na revolução, tanto que algumas de suas formulações foram fundamentais para a concepção Mencshevique de que, uma vez que a revolução Russa seria de caráter burgues, os trabalhadores deveriam restringir suas demandas para permanecerem próximos à esta classe. Plekhanov, por exemplo, em seus escritos Marxistas mais antigos, dizia que o Partido dos trabalhadores deveria fazer demandas democráticas para não “assustar ninguém com um remoto ‘espectro vermelho. ‘” Os liberais uniriam forças com os social-democratas, ele argumenta, uma vez que “eles não encontrariam garantias nas obras revolucionárias de que a derrubada do absolutismo seria sinal para a revolução social na Rússia.” Por isso, para Plekhanov, a hegemonia da classe trabalhadora só pode ser assegurada se esta fosse “madura”, suprimindo suas próprias necessidades para não assustar a burguesia.” Plekhanov, “Socialismo e a Luta política,” Selected Philosophical Writings (Moscow: Progress Publishers, 1974), 101.

65- Donald, Marxism and Revolution, 39.

66- Ibid., 298–99.

67- Ibid., 168.

68- Lenin, “Preface to the collection Twelve Years,” CW, Vol. 13, 101.

69- Ibid., 102.

70- Ibid., 104.

71- Ibid.

72- Ibid., 107.

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