Internacionalismo proletário e libertação nacional: uma carta para Górki

Por Vládimir Ilitch Uliánov, via marxists.org, traduzido por Carmen Delgado

Escrita em 3 de janeiro de 1911, enviada de Paris para a Ilha de Capri (Itália). Publicada pela primeira vez em 1924. Esse texto foi traduzido como parte do projeto que originou o livro “O centralismo democrático de Lênin“.


3 de janeiro de 1911

Prezado A. M., [pseudônimo de Máksim Górki]

Pretendia já há algum tempo responder sua carta, mas a intensificação da briga [1] por aqui (cem mil demônios a carreguem!) me distraiu.

Mas gostaria de conversar com você.

Primeiramente, antes que me esqueça: Tria foi preso junto com Jordania e Ramishvili. É relatado como sendo verdade. Uma pena, porque ele é um bom sujeito. Um revolucionário.

Em relação à Sovremennik. [2] No Rech de hoje li o conteúdo da primeira edição e estou xingando e xingando. Vodovozov sobre Muromtsev… Koslov sobre Mikhailovsky, Lopatain “Não nosso”, etc. Não se pode evitar xingar. E cá está você, brincando como se fosse: “realismo, democracia, atividade”.

Você acha que estas são boas palavras? Elas são más palavras, usadas por todos os enganadores da burguesia no mundo, desde os cadetes e SRs em nosso país aos Briand ou Millerand aqui, Lloyd George na Grã-Bretanha, etc. As palavras são más, pomposas, e carregam uma mensagem dos SR-Cadete. Não é bom.

No que concerne a Tolstói, compartilho inteiramente da sua opinião de que hipócritas e malandros farão dele um santo. Plekhanov também estava enfurecido com toda a mentira e bajulação em torno de Tolstói, e aqui estamos de acordo. Ele critica Nasha Zarya por isso no CO (a próxima edição) [3], e eu o faço em Mysl [4] (o no. 1 chegou hoje. Parabenize-nos sobre nosso próprio jornal em Moscou, um jornal marxista. Este foi um dia muito feliz para nós.) Zvezda No. 1 (publicado no dia 16 de dezembro em São Petersburgo) também contém um bom artigo escrito por Plekhanov com um comentário trivial, pelo qual já repreendemos os editores.  Provavelmente foi inventado por aquele idiota do Yordansky, junto com Bonch! Mas como é que Sovremennik pode combater a “lenda sobre Tolstói e sua religião”. É Vodovozov com Lopatin? Você deve estar brincando.

O fato de eles terem começado a golpear os alunos é, na minha opinião, reconfortante, mas não se deve permitir que Tolstói se safe com “passivismo”, anarquismo, narodnismo ou religião.

No que concerne ao quixotismo na política internacional da social-democracia, acho que você está errado. São os revisionistas que há muito afirmam que a política colonial é progressista, que implanta o capitalismo e que, portanto, não faz sentido “acusá-la de ganância e crueldade”, pois “sem essas qualidades” o capitalismo está “paralisado”.

Seria quixotismo e choramingo se os sociais-democratas estivessem dizendo aos trabalhadores que poderia haver salvação de algum modo à parte do desenvolvimento do capitalismo, não através do desenvolvimento do capitalismo. Mas nós não dizemos isso. Dizemos: o capital devora você, devorará os persas, devorará a todos e seguirá devorando até que o derrubemos. Essa é a verdade. E nós não esquecemos de acrescentar: exceto por meio do crescimento do capitalismo, não há garantia de vitória sobre ele.

Os marxistas não defendem nem uma única medida reacionária, tal como banir trusts, restringir o comércio etc. Mas a cada um com seus problemas. Deixe Khomyakov e companhia construir ferrovias através da Pérsia, deixe eles mandarem Lyakhovs [5], mas o trabalho dos marxistas é expô-los aos trabalhadores. Se devorar, dizem os marxistas, se estrangular, lute de volta, reaja.

A resistência à política colonial e ao saque internacional por meio da organização do proletariado, por meio da defesa da liberdade para a luta proletária, não retarda o desenvolvimento do capitalismo, mas o acelera, obrigando-o a recorrer a métodos de capitalismo mais civilizados e tecnicamente superiores. Existem capitalismos e capitalismos. Existe o capitalismo cem-negro-outubrista [6] e o capitalismo Narodnik (“realista, democrático”, cheio de “atividade”). Quanto mais expomos o capitalismo perante os trabalhadores por sua “ganância e crueldade”, mais difícil é para o capitalismo de primeira ordem persistir, mais seguramente está fadado a passar para o capitalismo de segunda ordem. E isso é adequado para nós, é adequado para o proletariado.

Você acha que cai em uma contradição? No início da carta considerei as palavras “realismo, democracia, atividade” más palavras, e agora eu acho que são boas? Não há contradição aqui; o que é ruim para o proletariado é bom para a burguesia.

Os alemães têm um jornal exemplar de oportunistas: Sozialistische Monatshefte. Nele, senhores como Schippel e Bernstein há muito atacam a política internacional dos social-democratas revolucionários, protestando que essa política se assemelha às “lamentações de pessoas compassivas”. Isso, irmão, é um truque de vigaristas oportunistas. Peça que esse jornal seja enviado a você de Nápoles e tenha seus artigos traduzidos se você estiver interessado na política internacional. Você provavelmente também tem esses oportunistas na Itália, só que não há marxistas na Itália, é isso que a torna tão desagradável.

O proletariado Internacional está pressionando o capitalismo em duas vias: convertendo o capitalismo outubrista em capitalismo democrático e, ao afastarem o capitalismo outubrista para longe de si mesmo, transportando esse capitalismo para os selvagens. Isso, entretanto, amplia as bases do capitalismo e o aproxima de sua morte cada vez mais. Praticamente não resta mais capitalismo outubrista na Europa Ocidental; praticamente todo o capitalismo nela é democrático. O capitalismo outubrista foi da Grã-Bretanha e França para a Rússia e para a Ásia. A revolução russa e as revoluções na Ásia = a luta para derrubar o capitalismo outubrista e substituí-lo pelo capitalismo democrático. E o capitalismo democrático = o último de seu tipo. Não há nenhum outro estágio para ele seguir. O próximo estágio é sua morte.

O que você acha do Zvezda e do Mysl? O primeiro é enfadonho, na minha opinião. Mas o último é todo nosso e eu estou muito satisfeito com ele. Temo que logo o fechem, no entanto.

Gostaria de saber se o senhor não poderia organizar para que meu livro sobre a questão agrária vá para Znaniye. Converse sobre isso com Pyatnitsky. Simplesmente não consigo achar um editor, nem por amor ou por dinheiro.

Lendo seu PS: “minhas mãos estão tremendo e congelando” me deixa indignado.  Que casas miseráveis vocês têm em Capri! É uma vergonha, de verdade! Até nós aqui temos aquecimento central; e suas “mãos estão congelando”. Você deve se revoltar.

Tudo de bom.

Seu,

Lênin

Eu recebi um convite de Bolonha para ir a uma escola lá (20 trabalhadores). Eu recusei [8]. Eu não quero nada com os vperyodistas. Nós estamos tentando de novo fazer com que os trabalhadores venham para cá.


NOTAS

[1] Aquele patife do Trotsky está unindo golosists e e vperyodistas contra nós. É uma guerra! – Lenin

[2] Sovremennik foi uma revista de literatura, política, ciência, história e arte, publicada mensalmente. Esteve ativa de 1911 a 1915 em São Petersburgo e possuía uma orientação ideológica que mesclava aspectos do marxismo e do narodnismo, um movimento da intelligentsia russa, cuja atuação se deu de maneira mais significativa nas décadas de 1870 e 1860, movimento marcado pelo anti-czarismo.

[3] Ver “Heroes of Reservation'” (presente edição, Vol. 16). – Ed.

[4] Isso refere-se ao artigo de Plekhanov “Karl Marx e Leo Tolstói” publicado no jornal Sotsial-Demokrat No. 19-20, de 13 (26) de janeiro, 1911.

[5] Lyakhov V. – um coronel do exército czarista, comandou as tropas Russas que suprimiram o movimento revolucionário na Pérsia em 1908.

[6] Os Cem-Negros foram gangues monarquistas de pogromistas organizados pela polícia czarista para combater o movimento revolucionário.

Outubrista – membros do partido Outubrista (ou União do 17 de Outubro), um partido contrarrevolucionário da grande burguesia industrial e senhores de terras que se engajaram na agricultura capitalista. Foi fundado em novembro de 1905. Enquanto defendiam o Manifesto de 17 de outubro, no qual o czar, assustado com a revolução, prometia ao povo “liberdades civis” e uma constituição, os outubristas apoiaram sem reservas a política interna e externa do governo czarista. Os líderes dos Outubristas eram o conhecido industrial A. Guchkov e o dono de vastas propriedades M. Rodzyanko.

[7] Lênin parece estar se referindo à seu livro A Questão Agrária na Rússia próximo ao final do Século XIX escrito em 1908 para as Granat Bros.Enciclopédia. Não foi publicado lá por motivos de censura, e Lenin pretendia, como sua carta indica, publicá-lo pela editora Znaniye. Entretanto, foi primeiro publicado em Moscou em 1918 como um livreto pela Editora Zhizn e Znaniye ^^ (ver Vol. 15 desta edição) ^^

[8] A escola anti-partido na Bolonha (novembro 1910 – Março 1911) foi uma continuação da escola de Capri. Os professores e palestrantes desta escola foram Bogdanov, Lunacharsky, Trotsky, Lyadov, Maslov, Sokolov e outros. Um convite para dar palestras foi recusado por Lenin haja vista a tendência anti-partido e as atividades de divisão promovidas pelos organizadores da escola. Lenin convidou os estudantes a Paris, onde prometeu dar para eles uma série de palestras sobre questões de tática, a situação dentro do partido e a questão agrária. As palestras em Paris não aconteceram.

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