Em defesa das vanguardas – contra o vanguardismo e o obreirismo

Por Leandro Modolo e Rodolfo Sanchez

“É muito mais difícil pescar uma dezena de sábios que uma centena de tolos. E continuarei a defender essa posição, não importa quanto vocês incitem a multidão contra o meu “espírito antidemocrático” etc. Por “sábios”, em matéria de organização, deve-se compreender, como o indiquei em várias ocasiões, apenas os revolucionários profissionais, tanto faz se foram forjados de estudantes ou operários.” V. I. Lenin

Historicamente as lutas dos trabalhadores, em especial a sindicalista, enfrenta uma delicada (às vezes infantil) contradição que se expressa no obreirismo e no vanguardismo. Neste espaço consideraremos as duas como posições extremas e opostas nos desvios das vanguardas em geral. O primeiro é resultado da busca por uma identificação absoluta com aqueles que as vanguardas buscam sintetizar e representar, algo que decorre em posicionamentos acríticos e demagógicos. E a segunda, trata-se das vanguardas que se autoproclamam superiores a tudo que as cercam, levando a desidentificação com as próprias classes e movimentos dos quais buscam estarem vanguardas, consequentemente, reproduzem relações de dominação que em tese deveriam ser atrofiadas e abolidas. 

Não cabe aqui remontarmos as histórias destas práticas e de todo debate que atravessa as nossas trincheiras. Mas, considerando a cultura liberal que recorta a esquerda contemporânea, consideramos importante fazer um esforço ensaístico para trazermos para o debate uma velha contradição que atravessa a defesa das vanguardas e, com isso, fazer uma alerta para não cairmos em históricos erros e em demagogias.

Primeiro cabe deixar claro de qual contradição estamos falando? Desde Marx e Engels e do chamado “socialismo científico”, as lutas entre burguesia e proletariado jogam um papel fundamental na luta anticapitalista. Com Lenin e seus seguidores tal luta ganhou contornos ainda mais acentuados, tornando-se o eixo fundamental da linha política das organizações revolucionárias. Se a ontologia e a epistemologia materialista de Marx e Engels pautaram as relações de produção e reprodução como categorias estruturantes da vida social e, vis a vis, a luta de classes como a sua dinâmica política. Lenin, por sua vez, compreendeu o papel decisivo da luta sindical como componente tático imprescindível para o processo revolucionário, ao mesmo tempo em que fez da forma partido a principal ferramenta de organização das classes subalternas para levar a cabo a estratégia central dos bolcheviques: a revolução socialista – lembrando sempre que a estratégia deve prevalecer sobre as táticas.

Para levar a cabo a revolução socialista no século XX, contudo, um desafio se colocou para os militantes revolucionários: como organizarmos teórica e politicamente os trabalhadores que, embora tenham o capital inscrito na pele e no coração, não produzem automaticamente a consciência de classe e, tão pouco, a consciência socialista? O leninismo respondeu a esse problema de modo claro: através das vanguardas, ou seja, através do destacamento mais avançado dos revolucionários, os denominados por Lênin de “revolucionários profissionais”.

Vejam. Para Lênin as lutas “economistas” dos trabalhadores só alcançam uma consciência e propósito revolucionário e socialista se houver a atuação de um(s) destacamento(s) que as orientem com um conjunto de táticas e estratégias pautadas por teorias também revolucionárias. Isto é, se houver “revolucionários profissionais” capazes de dirigirem conscientemente as atividades e insurreições espontâneas das massas para além das suas demandas e necessidades imediatas e individualistas, orientando-as para consolidação de uma “hegemonia socialista” e, ao fim e a cabo, a construção de um duplo poder capaz de fazer frente ao Estado burguês. Por essa razão, ainda segundo Lenin, a organização de um partido revolucionário deve ser de um “gênero diferente” da organização de luta econômica. Se a organização dos trabalhadores contra o patrão se dá nos sindicatos por “categorias” rumo a uma unidade solidária entre tais; a organização (partidária) socialista rumo ao comunismo deve englobar, antes de tudo, pessoas cuja profissão seja, justamente, a atividade revolucionária – por isso falamos de uma organização de revolucionários. A luta de classes, portanto, não se reduz esquematicamente ao antagonismo entre o trabalhador e o patrão; ela faz confrontar a classe do proletariado à classe dos capitalistas, alça a consciência e a luta ao nível da reprodução do conjunto dos capitais e do Estado burguês enquanto força política organizada, daí a função do partido.

Aqui vale um destaque antes de avançarmos. Os métodos de organização não podem ser considerados abstratamente, eles são ferramentas que devem se adequar de modo mais qualificado à realidade concreta que pretendem operar. A realidade russa, segundo o bolchevique, impunha necessidades de um partido clandestino e centralizado, o que em certa medida dificultava a realização de um amplo debate interno. Cabe a nós, contudo, cada qual no seu território, realidade nacional, etc. analisar e responder à dialética entre a forma organizacional do partido e as necessidades das lutas concretas – algo que, infelizmente, também não será debatido aqui. O que devemos reter disto é que a luta política do socialismo é muito mais ampla e mais complexa do que a luta econômica dos operários contra os patrões – por salários, horas de trabalho e demais direitos –, isto é, a luta “economista” dos sindicatos. 

São dessas avaliações então que surge a famosa (e longamente debatida) passagem de leniniana em o “Que fazer?” sobre as vanguardas: “A consciência política de classe pode ser levada ao operário somente a partir de fora, ou seja, de fora da luta econômica, de fora da esfera das relações entre operários e patrões.” Podemos dizer que essa passagem de algum modo resume sintomaticamente a contradição que atravessa a luta de classes desde pelo menos 1848, quando o proletariado entrou na cena política e sendo ela para o pensamento leniniano e leninista totalmente decisiva. Podemos analisá-la dizendo: se estamos certos de que para destruirmos o capitalismo e as classes dominantes que o sustentam é central que os diretamente explorados pelo capital, o proletariado, assumam conscientemente a sua tarefa política rumo ao socialismo; como então levar isso a cabo se esta mesma classe se encontra subsumida em relações de alienação, fetichistas e são interpeladas diuturnamente pela ideologia dominante?

A pergunta retórica, contudo, como sabemos, não se resume ao que está explícito. Há mais contido nela e algo decisivo. Ao afirmar que Marx, ou melhor, que toda Ciência e Filosofia de Hegel, Marx, Engels, Rosa, Lukács, Gramsci, Mariategui, Davis, Beauvoir, Fanon e cia só poderiam ter nascido pelo acaso do “trabalho intelectual” também seria afirmar uma hierarquia moral e cognitiva, uma superioridade de individualidades “iluminadas”? A resposta é um materialista “Não!”. Ao contrário, o destacamento desses “intelectuais” é fruto de uma realidade da divisão hierárquica do trabalho imposta pelo capital – algo que não dá para ser abolido por decreto – e é dela que partimos materialmente para sermos capazes de dialeticamente operar na realidade concreta – aquela que é aqui e agora, e não como gostaríamos que fosse – rumo a abolição efetiva dessa mesma hierarquia.

Nesse sentido, Lênin continua atual e certeiro: é necessário profissionalizarmos os quadros militantes para que os membros das classes subalternas tenham condições materiais de se formarem, não apenas nas lutas economistas dos sindicatos, mas sobretudo na e para as Ciências e Filosofias revolucionárias – por essa razão o partido deve plasmar hoje a possibilidade material que só será universalizada com o fim da propriedade privada dos meios de produção.

Cabe destacar, ademais, que as vanguardas não devem ser encaradas de modo estanque e estático, ou seja, não devem ser vistas de modo essencialista. Se se entende que a luta de classes se processa por relações de forças dinâmicas, constituída em circunstâncias concretas e atravessadas por inúmeras contingências, as vanguardas devem ser encaradas como um devir, jamais como algo ou alguém que se apresenta a priori e se julga permanentemente como tal. A diversidade das lutas em um extenso campo de forças desiguais envolve demandas e habilidades que não se determinam a partir de suas próprias equivalências e pressupostos “essenciais”. Dito de outro modo, vanguarda é um atributo, um predicado, não um substantivo ou um verbo. De modo que o mais acertado é dizer que um destacamento em uma dada situação concreta está vanguarda e não é vanguarda, logo, muitos destacamentos estarão vanguardas numa ocasião de lutas e em outras não. Retendo lições antigas podemos dizer: devemos operar numa dinâmica dialética que caminha do “para” as classes subalternas, “com” as classes subalternas e, no esforço e objetivo maior do horizonte revolucionária, “das” classes subalternas — quando o conjunto dos saberes revolucionários se condensam e tornam-se efetivamente a Filosofia dos sujeitos e sujeitas empenhados em transformarem o atual estado de coisas.

Dito isso, outra questão se coloca: alçar os saberes produzidos por “intelectuais” como Marx, Rosa e cia. à condição de Verdade – que dirigirá luta(s) situadas visando um projeto nacional e internacionalista – é invisibilizar e subjugar outros saberes? Não, ou pelo menos, não é devido que assim seja. As vanguardas devem valorizar com todas as suas forças os saberes de todas as classes subalternas. Bastaria dizer que não há “doutor engenheiro” que saiba mais como funciona o chão da fábrica do que o saber comum criado entre os trabalhadores e trabalhadoras que diariamente, 10 horas por dia, se dedicam às suas tarefas; não há “doutor advogado” que saiba mais como agem as forças repressoras do Estado burguês nos territórios periféricos como os muitos negros e negras que vivem historicamente o genocídio perpetrados contra eles; não há “doutora médica” que saiba mais como funciona as experiências abortivas do que as mulheres periféricas que não têm assistência alguma para o acolhimento antes, durante e depois da intervenção clínica.

Como diria Gramsci, todos somos intelectuais, mesmo que nem todos tenhamos como ofício a intelectualidade. Se colocar contrário a visibilidade, a voz, a legitimidade e a potência dos saberes subalternos, portanto, é ir contra uma das principais tarefas dos socialistas: extinguir a divisão hierárquica do trabalho e seus corolários sobre a produção dos saberes. Desse modo, é um imperativo que as vanguardas se constituam também a partir e pelos saberes até então subalternizados.

Em verdade, o contrário a essa práxis deve ser compreendido como uma das características centrais do que estamos chamando aqui de “vanguardismo”, um desvio do propósito ético-político das vanguardas revolucionárias. Considerando que “informações”, “conhecimentos”, “saberes” e cia. são fontes importantes de poder e, consequentemente, podem ser meios de dominação; as vanguardas socialistas não devem se desviar de sua tarefa política e ética que é justamente socializar o poder e abolir todas as formas de dominação e exploração. Logo, se ela se apresentar como “superior” e “iluminada” em todas as dimensões das lutas sociais, inclusive individualmente frente aos demais camaradas através de vícios como a arrogância, o sarcasmo, a ironia, o autoritarismo etc, estaremos reproduzindo aquilo que dizemos lutar contra. Tal postura individual ou coletiva deve ser sempre repreendida pelos demais camaradas, fazendo valer a camaradagem como uma relação respeitosa de crítica e autocrítica permanente.

Nos esforços de não cairmos no vanguardismo, todavia, pode aparecer outro desvio, agora em sentido de extremo oposto: o obreirismo. O debate sobre o obreirismo, não raro, é encarado como ultrapassado, mas ao avaliarmos que atualmente ele pode estar presente com roupas novas e que também expressa um desvio das vanguardas em suas tarefas, devemos olhá-lo com um pouco de atenção.

O obreirismo afetou o “movimento comunista” ao longo do mundo todo, incluindo o Brasil. De modo rápido, o obreirismo é aquele posicionamento moral e político de que somente os diretamente explorados estão habilitados a conduzir as suas lutas, de que somente tais têm lugar de fala para defenderem e deliberarem sobre as suas próprias lutas. Quase como um fetiche (aqui no sentido psicanalítico) pelo “operário”, chegou-se a considerar que o modo como os mais explorados vivem, se vestem, comem e pensam eram as formas mais elogiáveis moral e politicamente de se comportar. E qualquer postura crítica “de fora” era tachada como elitista, intelectualista, arrogante e autoritária. Nesse sentido, estudantes, artistas e intelectuais (acadêmicos) socialistas oriundos de classes mais abastadas eram estimulados a vestirem macacão azul do velho operário como um exercício de humildade moral e horizontalidade política – em alguns casos eles podiam ser banidos das instâncias de deliberação. No fim, para o obreirismo bastava o empoderamento “de dentro” dos “operários propriamente ditos” para alcançarmos a libertação – podemos dizer que o obreirismo novecentista era algo tipo o “identitarismo liberal” do nosso século.

Para os que defendem a necessidade das vanguardas, ignorar a existência da alienação e da dominação ideológica sobre todos os explorados e dominados é abandonar toda crítica marxiana ao fetichismo da mercadoria e à alienação que incide no proletariado – incidência, vale registrar,  que ocorre desigualmente pelas razões da divisão social do trabalho. Seguindo Lenin, tomar as nossas ignorâncias fruto da subsunção do trabalho ao capital como uma virtude, como a “genuína consciência operária” é cair na demagogia. E contra os demagogos ele dizia: “nunca me cansarei de repetir que os demagogos são os piores inimigos da classe operária”, mesmo não tendo dúvidas “quanto à pureza de suas intenções; já disse que a ingenuidade política por si só também pode converter uma pessoa em demagogo.”

A posição obreirista, nessa esteira, seria “o cúmulo da falta de lógica”, porque ela confunde o problema filosófico e histórico-social das “profundas raízes”, do enraizamento nas bases dos trabalhadores, com uma questão técnica de organização para empreender a luta de modo mais eficaz possível contra os nossos inimigos. E, também, “o cúmulo da falta de tato político”, porque em vez de apelar para os bons dirigentes contra os maus dirigentes, apela demagogicamente para a “multidão” contra os dirigentes em geral – sobretudo se estes não estiverem com as mãos calejadas e de macacão azul, isto é, se não forem eles oriundos de classes “puramente” exploradas. Talvez Lenin estivesse, mais uma vez, implicitamente levantando uma pergunta retórica: Engels por ser de origem burguesa não foi um grande revolucionário? Ou, com a licença para um anacronismo: Guevara, Zetkin, Allende, Saffioti, Caio Prado Jr., Beauvoir etc não teriam “lugar de fala” como revolucionários por não serem de origem proletária “raiz”?

É certo que passado o século XX não seria um exercício dialético dos comunistas se nós jogássemos no ralo as acertadas críticas feitas às Ciências modernas pelas epistemologias subalternizadas (seja as feministas, as indígenas, as negras etc.). Mas, tão pouco, devemos jogar o bebê com a água do banho. As verdades decantadas na histórica luta teórica e prática das classes subalternizadas, isto é, na suas Ciências revolucionárias com enunciados que pretendem os lugares de Verdades, são ferramentas imprescindíveis para a revolução socialista rumo ao comunismo. E delas não podemos prescindir.

Trocando em miúdos: enunciarmos que a mais-valia é uma verdade universal do modo produção capitalista e a defendermos como tal é uma ferramenta insubstituível na luta contra a exploração burguesa; enunciarmos e defendermos que o racismo estrutural é uma verdade universal da forma de vida capitalista é uma ferramenta insubstituível na luta contra a opressão e dominação branca; enunciar que o patriarcado é uma uma verdade universal da forma de vida capitalista é uma arma decisiva contra a opressão e dominação do homem; enunciar que a mudança climática é uma verdade universal da forma de vida capitalista e evocá-la como tal é insubstituível na luta contra ecocídio… Agora, é preciso ficar ratificado inúmeras vezes, não são somente os saberes produzidos nas academias, nos laboratórios e nos livros que tem o que nos dizer e ensinar sobre tudo isso. Em verdade, decantar essa diversidade de saberes é um dos nossos grandes desafios no século XXI. Do mesmo modo que ter como imperativo que o valor da isonomia dos saberes não deve obscurecer ou anular a necessária decantação coletiva dessa diversidade em Ciências e Filosofias revolucionárias, também é uma tarefa histórica, epistêmica, política e ética.

Dito tudo isso, sem perder de vista que um país como o Brasil é recortado por abissais desigualdades econômicas, levando, portanto, em conta a brutal hierarquização da divisão do trabalho que atravessa todas as nossas classes subalternas, para nos despedir fiquemos com o velho Lênin:

Um comitê de estudantes não serve, é instável.” Absolutamente correto! Mas aqui a conclusão é de que é necessário um comitê de revolucionários profissionais, tanto fazendo se será um estudante ou um operário que se desenvolverá como um revolucionário profissional. A conclusão de vocês é de que não é necessário estimular do exterior o movimento operário! Em sua ingenuidade política, nem sequer se dão conta de que estão fazendo o jogo dos nossos “economistas” e do nosso caráter artesanal. Como é que nossos estudantes, permitam-me perguntar, “estimularam” nossos operários? Unicamente com os estudantes levando aos operários os fragmentos de conhecimentos políticos que eles próprios tinham, os fragmentos de ideias socialistas que eles adquiriram (porque o principal alimento espiritual do estudante de nossos dias, o marxismo legal, não lhes pode oferecer mais do que as primeiras letras, mais do que fragmentos). E esse “estímulo de fora” não foi muito considerável, mas, pelo contrário, foi insignificante, escandalosamente insignificante em nosso movimento, pois nós nos cozinhamos com demasiada diligência em nosso próprio molho, nos prostramos com demasiado servilismo diante da elementar “luta econômica dos operários contra os patrões e contra o governo”. Nós, revolucionários de profissão, devemos dedicar-nos cem vezes mais a esses “estímulos”, e nos dedicaremos. Mas justamente porque escolheram essa odiosa expressão “estímulo de fora”, que inevitavelmente provoca no operário (pelo menos no operário tão pouco desenvolvido quanto vocês) a desconfiança em relação a todos os que lhe trazem de fora conhecimentos políticos e experiência revolucionária, e que desperta nele o desejo instintivo de repelir todas as pessoas assim; vocês agem como demagogos, e os demagogos são os piores inimigos da classe operária.”

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