Síndrome de Estocolmo 2022: a barganha faustiana do militarismo de esquerda na Ucrânia

Por Jonathan Michael Feldman, via GlobalTeachin, traduzido por André Depa

Este texto analisa alguns dos argumentos do militarismo de esquerda que pedem por carregamentos de armas para a Ucrânia. Baseado no caso sueco, eu levanto a hipótese de que estes argumentos advém de uma falta de compreensão da lógica do militarismo. A prioridade número 1 é acabar com a guerra o mais cedo possível. Os campeões do socialismo franceses e alemães, opostos pelo lado de seus Estados na Primeira Guerra Mundial, ensinam uma valiosa lição: Juramentos pela esquerda em defesa de um lado ou de outro de uma guerra se provará pouco convincente depois que a guerra acabar se não durante a guerra mesmo. No presente momento, o único partidarismo relevante é o partidarismo anti-guerra. A correta posição moral aparenta ser enviar armas para um Estado sob cerco. Na verdade, vemos que a correta posição moral difere — pare de alimentar as máquinas de guerra de ambas as partes. Somente a mais superficial leitura da abaixo argumenta que o conflito na Ucrânia é “simplesmente” culpa da OTAN. Ao invés disso, é o resultado do militarismo/imperialismo russo e do militarismo/imperialismo da OTAN/EUA. Pessoas iludidas acreditarão que culpar a OTAN é propaganda russa. De forma similar, outras pessoas iludidas acreditarão que culpar a Rússia é propaganda da OTAN. A Guerra prospera em tais ilusões.

A síndrome de Estocolmo: de 1973 a 2022

A “Síndrome de Estocolmo” foi sucintamente explicada pela Wikipedia: “Este termo foi usado pela primeira vez pela mídia in 1973 quando quatro pessoas foram feitas reféns durante um assalto a banco1 em Estocolmo2, Suécia. Os reféns defenderam seus sequestradores3 depois de serem liberados e não concordaram em testemunhar contra eles na corte. Foi notado que neste caso, contudo, foi tido que a polícia agiu com pouco interesse na segurança dos reféns, providenciando uma razão alternativa pela relutância em testemunhar. A Síndrome de Estocolmo é paradoxal porque os sentimentos simpáticos que os cativos sentem com seus sequestradores são o oposto de medo e desdém que um observador de fora pode sentir dos sequestradores”.

A Síndrome de Estocolmo teve um renascimento dramático. Onde? Em Estocolmo, Suíça, mesmo, onde o Partido da Esquerda agora abraça envio de armas para Ucrânia. Quem são os sequestradores? Não o criminoso cotidiano, mas o complexo industrial militar sueco composto por empreiteiros de defesa, líderes das forças armadas, o parlamento, várias partes da mídia e um pequeno exército de “especialistas em segurança”. Quem é a polícia que foi percebida como não tendo se importado com a segurança dos reféns? A analogia aqui apenas parcialmente serve, mas se relaciona com a suposta visão indiferente do movimento pela paz, intelectuais anti-militaristas e outros opostos aos sequestradores militaristas. Então, você diz, “é óbvio que a polícia opõem-se aos criminosos!” e eu digo “é óbvio que os anti-militaristas opõem-se ao militarismo”. Poderíamos acabar a história aqui, mas o diabo mora nos detalhes.

O Circuito de Transferência Militarismo-Guerra-Armas

A transferência de armas é simplesmente o fim de um sistema de troca mais amplo. Do lado ucraniano, o começo do circuito é o aprofundamento da cooperação militar com a OTAN, o que pode por si talvez refletir incursões militares apoiadas pela Rússia na Ucrânia, incursões associadas a várias queixas russas, como o maltrato de russo-ucranianos e uma contra-manobra para a expansão à leste da OTAN.

No outono, Andrew Murray da Stop the War reporta4 que os governos dos EUA e da Ucrânia assinaram um acordo para aprofundar a “cooperação defensiva estratégica”. Este tratado, direcionado à Rússia, buscou aperfeiçoar a “defesa estratégica e cooperação de segurança EUA-Ucrânia e avançar prioridades compartilhadas, aprofundando cooperação em áreas como a segurança do Mar Negro, ciberdefesa, compartilhamento de inteligência e combate de agressão russa”. Não é apenas a OTAN que pode ter ajudado a causar as agressões da Rússia, Murray reporta, mas “outra coisa — a relação militar bilateral EUA-Ucrânia…que poderia parecer tão ameaçadora quanto, visto da Rússia como uma integração ucraniana completa na aliança OTAN”. Este tratado proveu “a Ucrânia com armas de ponta e apoio militar”.

Murray escreve: “O acordo incluiu ‘um modelo para perseguir cooperação bilateral de armamentos e técnico-militar”, um juramento de continuação de um ‘robusto treinamento e programa de exercícios em manter o status da Ucrânia como um Parceiro de Oportunidades Aprimoradas da OTAN, assim como cooperação em ciberdefesa e segurança de espaço”. Murray aponta para os observadores que argumentam que esse acordo ajudou a desencadear o acordo de Putin: “ A elevação militar russa nas fronteiras com a Ucrânia começou imediatamente após a conclusão do acordo”. O acordo não apenas deixou as portas de entrada na OTAN abertas para a Ucrânia, “mas os militares dos EUA estavam se movendo na vizinhança imediata”. Dada a falta de qualquer “imediata racionalidade para a invasão russa em Fevereiro — nenhuma provocação direta”, Murray argumentou que “é…plausível” conectar essa expansão militar à invasão russa.

Um prelúdio à invasão russa, Murray reporta, foi março de 2018, quando “os EUA providenciaram armas anti-tanque para Ucrânia, começando o suprimento de armamentos letais, e em outubro de 2018 a Ucrânia juntou-se aos EUA e sete outros países da OTAN numa série de grandes exercícios aéreos no leste da Ucrânia”. Em adição, membros da OTAN engajaram em “missões de treinamento militar”. Em suma, a escalada da movimentação da Ucrânia em direção à OTAN aconteceu por vários anos, mesmo que a Ucrânia nunca tenha se juntado à OTAN. Murray não pode ser chamado de um “idiota útil” para agressão russa. O ponto subjacente é o que poderia provocar uma agressiva, militarista Rússia/Putin? A imoralidade de Putin explica todas suas motivações? Estados deixam de ter interesses estratégicos ou militares mesmo se pensamos eles como irracionais, injustos e injustificáveis? Eu argumento que a resposta é não; eles não deixam de ter esses interesses. A probabilidade de militarismo e expansionismo russo aumentou como resposta ao expansionismo da OTAN5? Eu argumento que a resposta é sim; a probabilidade de uma de gerencialismo ou paranóia6 aumenta em resposta à outra forma de gerencialismo ou paranóia.

As origens do circuito de transferência militarismo-guerra-armas estão relacionadas em partes à interferência dos EUA na Ucrânia, não simplesmente ao imperialismo russo. Yuliy Dubovyk, um Ucrâniano-Estadunidense ativista pela paz, argumenta que “o governo dos EUA interferiu na Ucrânia por décadas” o que levou o povo ucraniano a sofrer. Dubovyk argumenta que os EUA ajudaram a desestabilizar o governo ucraniano “duas vezes em uma década, impuseram políticas econômicas neoliberais que fizeram nosso país ser o mais pobre na Europa e alimentou uma devastadora guerra civil que nos últimos oito anos tomou as vidas de 14,000 ucranianos e feriu e prejudicou muitos mais”. Enquanto alguns podem achar a análise de Dubovyk problemática, o argumento subjacente feito aqui é que a história ucraniana é muito mais complicada do que a mídia de massa e grandes partidos (mesmo de “esquerda”) comunicam. Então eu apresento a análise de Dubovyk para mostrar que mesmo que a Rússia engajou em um imperialismo militarista, a história é bem mais complicada que isso. A habilidade de explorar tais nuances é frequentemente veementemente oposta, reduzindo-as à propaganda russa. Em qualquer caso, nós procedemos à análise de Dubovyk para explorar outras formas de interpretar a tragédia ucraniana.

Dubovyk escreve7: “Em um chocante honesto relatório de 2004 intitulado ‘a campanha dos EUA por trás do tumulto de Kiev’8, o jornal do establishment britânico, The Guardian, admitiu9 que a ‘Revolução Laranja’ foi uma ‘criação Norte-Americana, um sofisticado e brilhantemente concebido exercício de branding ocidental e marketing em massa’, bancado com pelo menos 14 milhões de dólares”.

Enquanto alguns apontam que as incursões russas no leste da Ucrânia como uma potencial razão para a Ucrânia movimentar-se em direção à OTAN, Dubovyk explica que “de 2014 a 2019, em cinco anos da guerra civil de Donbass, a região geográfica que abrange as repúblicas de Donetsk e Luhansk, mais de 13,000 pessoas foram mortas10, e pelo menos 28,000 foram feridas, de acordo com estatísticas oficiais do governo ucraniano. Isso foi anos antes da Rússia invadir” (com ênfase). A vasta maioria dos civis foram mortos pelo “exército ucraniano e seus aliados paramilitares de extrema direita”. Em janeiro de 2022, Dubovyk explica que a ONU reportou11 que “entre 2018 e 2021, 81,4% de todas as baixas civis causadas por atividades hostis foram em Donetsk e Luhansk”. Essas vítimas eram “ucranianos falantes de russo sendo mortos por seu próprio governo” e “não forças secretas russas”. Na verdade, “a vasta maioria de forças rebeldes consistem de pessoas locais—não soldados regulares do exército russo”, de acordo com um artigo12 (publicado em 21 de janeiro de 2022) de Samuel Charap e Scott Boston (da Rand Corporation) na Foreign Policy, citado por Dubovyk.

Charap e Boston então argumentaram que (previamente à invasão russa) “assistência militar agora será no melhor dos casos marginal em afetar o desenrolar da crise. Pode ser moralmente justificado ajudar um parceiro dos EUA correndo risco de agressão. Mas dada a escala da potencial ameaça à Ucrânia e suas forças, a forma mais efetiva que Washington pode ajudar é trabalhando para encontrar uma solução diplomática”.

O Partido das Armas Transfere como Solidariedade e Democracia Originalmente o Partido da Esquerda sueco votou contra a transferência de armas para a Ucrânia. Então, em 1° de março, a líder do partido, Nooshi Dadgostar, anunciou: “Com apoio da lei internacional e com o charter da ONU, o princípio do direito de Estados atacados se defenderem tem sido uma parte importante da política exterior e de segurança da Suíça também.Quando a realidade muda, é importante estar disposto a reconsiderar decisões. A Suíça precisa se unir no apoio à Ucrânia”. Ela também disse13: “existem muitas objeções à exportação de armas, que não deveríamos enviar armas para uma zona de guerra, eu entendo isso, mesmo que eu ache que estava errado”. Dadgostar explicou que a decisão de enviar armas para a Ucrânia envolve riscos e ameaças para a Suíça e cidadãos suecos, mas argumentou que “é um momento em que você deve apoiar a lei internacional e o direito de cada país de se defender”. A decisão de transferir armas revelou uma profunda cisão dentro do partido14, com alguns argumentando contra o envio de armas para a Ucrânia.

Um precedente para este voto do partido foi que o “partido recebeu e recebe duras críticas de outros partidos do parlamento pela sua decisão de votar não no Riksdag”, de acordo com uma análise de Lars Larsson publicada15 no Svenska Dagbladet. Larsson explicou que “o partido é parte do movimento pela paz e sua oposição à exportação de armas e soluções militares para conflitos”. O artigo de Larsson cita Tommy Möller, um cientista político, que argumenta que a “política externa foi a razão decisiva” do porquê os Sociais Democratas “rejeitaram qualquer ideia de cooperação íntima” com o Partido da Esquerda. A política externa é provavelmente ainda um grande obstáculo para a cooperação íntima, especialmente no governo, ele diz.

Um editorial16 recente de Expressen feito por um grupo de pessoa do Partido da Esquerda criticou a decisão inicial do Partido da Esquerda de não apoiar o envio de armas para a Ucrânia. Parte do argumento se desenrola da seguinte forma: “O Partido da Esquerda geralmente é crítico da exportação de armas, mas isso não é sobre exportações mas sobre mostrar solidariedade com apoio de armas para um país vizinho que foi atingido por uma ilegal e violenta agressão militar. É importante que não existam dúvidas de que o Partido da Esquerda está na vanguarda da saída da Rússia da Ucrânia. Portanto, a decisão da cúpula do partido é infeliz”.

O editorial argumentou que armas podem promover a democracia: É importante que não existam dúvidas de que o Partido da Esquerda está na vanguarda da saída da Rússia da Ucrânia. Nós acreditamos que está alinhando com a política do nosso partido defender o direito do povo ucraniano de serem soberanos de seu país. O expansionismo de Putin precisa ser parado rapidamente, efetivamente e resolutamente. Nós acreditamos que é certo que a Suíça, como uma amigável democracia na Europa, também deveria ajudar o exército ucraniano com armas”.

Como várias pessoas no sueco Partido da Esquerda, o ex-presidente do Partido Democrático Italiano, Gianni Cuperlo, também conecta a transferência de armas à autodefesa, solidariedade e soberania. Numa entrevista17 no jornal de esquerda Il Manifesto Cuperlo disse: “um pedido de ajuda militar veio do governo de Kiev e, frente a isso, havia dois caminhos que poderíamos seguir. Ou recusar o apoio em nome de princípios que rejeitam a lógica de armas porque sempre levam à uma espiral ou mais intenso conflito, ou aceitar o pedido do país atacado e ajudá-lo a se defender. Eu não tenho nenhuma autoridade política ou moral para proferir verdades, mas eu posso dizer que, como estamos lidando com vítimas inocentes, eu considero o segundo caminho como o legítimo, porque é parte do direito de um povo de proteger-se e preservar sua independência e soberania. Ele adicionou: “Oferecer todo apoio à Ucrânia com uma ampla gama de ações é também o caminho para pressionar Moscou a desistir da estratégia que seguiram até aqui”.

Desconstruindo o Partido da Esquerda sueco

Vamos analisar a declaração do Partido da Esquerda e a análise de Larsson (com implicações para a visão de Cuperlo também).

As Nações Unidas

Primeiro, é baseado no falso pressuposto de que a estrutura das Nações Unidas é de alguma forma suficiente para legitimar intervir em uma guerra. Na resolução da ONU 197318, de 2011, direcionada à Líbia, uma “Zona de Exclusão Aérea” foi estabelecida, proibindo todos os voos no espaço aéreo da Jamahiriya Árabe Líbia para ajudar a proteger civis. A resolução foi associada com a intervenção da OTAN19 na Líbia para reforçar a “Zona de Exclusão Aérea”. A intervenção na Líbia da OTAN foi seguida de um vácuo político, que foi preenchido em partes pelo ISIS por um certo intervalo de tempo20. No livro de Horace G. Campbell, Global NATO and the Catastrophic Failure in Libya, nós aprendemos que “a campanha da OTAN causou muitas baixas civis e destruiu a infraestrutura da nação”. Essa campanha também “desencadeou…instabilidade” tomando “a forma de milícias e grupos terroristas”, cujas ações incluíram um ataque à embaixada dos EUA e seus funcionários, levando à morte do embaixador John Christopher Stephens. No jornal International Security (Vol. 38, n° 1, verão de 2013), Alan J. Kuperman argumentou que a intervenção da OTAN na Líbia “sextuplicou a extensão da duração da guerra; aumentou o total de mortos em aproximadamente seis a dez vezes; e exacerbou o abuso dos direitos humanos, sofrimento humanitário, radicalismo islâmico e a proliferação de armas na Líbia e nos seus vizinhos”. Um ano depois, Fredrik Doeser, um analista de segurança sueco, publicaria um artigo intitulado “A decisão da Suíça na Líbia: um caso de intervenção humanitária”, no jornal International Politics (Vol. 51, n° 2). Em suma, as sanções das Nações Unidas eram um prelúdio para um desastre, não simplesmente um trampolim para o benefício universal.

Expansionismo da OTAN

Segundo, enquanto o Partido da Esquerda opõem-se à OTAN, seu apoio à transferência de armas para a Ucrânia não pode ser separado de uma trajetória política do expansionismo da OTAN em direção à Ucrânia. Durante o infeliz episódio da Líbia, o secretário-geral da OTAN era Anders Fogh Rasmussen. Numa entrevista21 de março de 2012, Rasmussen explicou que a lógica militarista, gerencialista, que motivou a OTAN: “O que nós fizemos em 2008 foi para garantir que a Ucrânia e a Geórgia se tornassem membros da OTAN…E então nós estabelecemos a comissão OTAN-Ucrânia e a comissão OTAN-Geórgia. Então ao invés de um Plano de Ação de Filiação nós trilhamos outros caminhos. Mas ainda assim, agora em retrospectiva, eu acho que foi um erro não conceder à Ucrânia e à Geórgia Planos de Ação de Filiação em 2008. Porque mandou o sinal errado para Putin. Ele calculou que havia uma falta de unidade na OTAN, ele considerou isso uma fraqueza e ele explorou essa fraqueza atacando a Geórgia”. Nesta entrevista nós podemos ver como o expansionismo da OTAN estava atrelado a um potencial expansionismo russo: “Em 2008, nós tínhamos um comitê OTAN-Rússia [e] Putin deixou aquele comitê furioso porque havíamos decidido que a Ucrânia e a Geórgia se tornarão membros da OTAN. E durante aquela reunião, ele argumentou que a Ucrânia, em geral, e a Criméia, em particular, não eram realmente independentes, elas eram historicamente partes integradas da Rússia. Ele chamou Kiev de mãe de todas as cidades russas. Se tivéssemos escutado naquele momento, se nós tivéssemos o levado a sério naquele momento, nós estaríamos melhor preparados para o que vimos nos últimos 10 ou 20 anos”.

Expansionismo militar

Terceiro, as transferências de armas não são simplesmente “medidas defensivas” para países se defendendo contra um ataque externo. Elas também são parte da lógica e da realidade do expansionismo militar. Cuperlo reconhece este ponto, mas nem ele nem o Partido da Esquerda sueco dão explicações suficientes do que esse expansionismo significa. Por exemplo, transferências de armas sustentam o conflito, mas quando o lado ucraniano enfrentou contratempos houve pedidos de uma “Zona de Exclusão Aérea”, exatamente como houve na Líbia. Em contraste, Putin alertou que qualquer país promovendo tal zona na Ucrânia será considerado como um participante no conflito da Ucrânia22. Mesmo se o Partido da Esquerda não apoie uma Zona de Exclusão Aérea, eles podem ter endossado uma política de usar meios militares que são insuficientes para proteger a Ucrânia, mas sim em prolongar um conflito militar. A noção de que meios militares sempre alcançam os resultados desejados é contradita por teorias23 sobre “o limite do poder militar”. Os riscos de escalamento valem o preço de “solidariedade”? Na Suíça, carregamentos de armas foram seguidos por incursões de combatentes militares russos até território russo24. Líderes suecos argumentam que se não pararmos os militares russos na Ucrânia, eles irão escalar. Contudo, carregamentos de armas são parte do que desencadeia a escalada russa.

Uma prévia da escalada foi vista quando jatos russos entraram em espaço aéreo sueco. No dia 12 março, o diretor do Segundo Departamento Europeu do Ministério Exterior, Sergei Belyayev, disse à rede de notícias russa Interfax25 que “a possível adesão da Finlândia e Suíça à OTAN teria sérias consequências militares e políticas e iria requerer que a Rússia tomasse medidas retaliatórias”. Ele adicionou: “Mas nós não podemos ignorar a crescente intensidade da interação prática de Helsinque e Estocolmo com a OTAN, incluindo participação em exercícios militares da aliança, a provisão da Finlândia e da Suíça de seus territórios para tais manobras conduzidas em proximidade a fronteiras russas, incluindo as imitações de ataques com armas nucleares dos EUA contra um assim chamado ‘inimigo comparável’”.

Há várias formas que a escalada pode ocorrer, mesmo sem o bombardeamento russo de cidades, listadas abaixo.

– Os russos podem trazer novas tropas, de nações aliadas. Um relatório26 no The Guardian de 11 de março descreveu um compromisso sírio à guerra imperial da Rússia na Ucrânia que poderia envolver até 16,000 voluntários que seriam pagos cinquenta vezes o salário mensal de um soldado sírio.

– Em 12 de março, outra reportagem27 publicada no The Financial Times explicou que “a Rússia alertou que irá disparar contra transportes de armamentos ocidentais para Kiev, aumentando o risco de um confronto militar direto entre Moscou e OTAN durante a guerra na Ucrânia. O Vice-ministro das Relações Exteriores Sergei Ryabkov disse no sábado que ‘encher [a Ucrânia] de armas de vários países’ era ‘não só um movimento perigoso — é algo que transforma esses comboios em legítimos alvos militares”.

– Em março, Pavlos Roufos da Jacobin escreveu28 que “o Ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares,…sugeriu29 de forma indiferente a necessidade de uma ‘séria discussão’ sobre uma Zona de Exclusão Aérea em um comitê ocidental próximo. Menos direto, mas igualmente perturbador, o líder da União Cristã Democrática, da Alemanha, Friedrich Merz, publicamente cogitou30 se nós deveríamos considerar a possibilidade da OTAN em si ser “forçada a tomar decisões para impedir Putin”.

– Em 21 de março, William J. Broad explicou a possibilidade de várias trocas de armas nucleares em um artigo31, “As Bombas Menores Que Poderiam Tornar a Ucrânia em uma Zona de Guerra Nuclear”, publicado no The New York Times. Ele citou James R. Clapper Jr., “um general aposentado da Força Aérea que serviu como diretor de inteligência nacional de Barack Obama”, que “disse estar incerto de como ele iria aconselhar o sr. Biden se o sr. Putin usasse suas armas nucleares. ‘Quando você para?’ ele perguntou acerca da retaliação nuclear. ‘Você não pode apenas ficar dando a outra face. Em algum ponto nós teríamos que fazer algo’. Uma resposta dos EUA a uma pequena explosão russa, especialistas dizem, poderia ser lançar uma das novas ogivas disparáveis por submarinos nas florestas da Sibéria ou numa base militar dentro da Rússia. O sr. [Franklin C.} Miller, o ex-oficial nuclear governamental e ex-presidente de Políticas Nucleares da OTAN, disse que tal explosão seria uma forma de sinalizar para Moscou que ‘isso é sério, que as coisas estão ficando de mão’”.

– O amplamente citado32 Ulrich Kühn33, da Universidade de Hamburgo, argumentou que “Putin pode disparar uma arma numa área inabitada ao invés de em tropas” e em “um estudo de 2018”34 Kühn “especulou um cenário de crise em que Moscou detonasse uma bomba numa parte remota do Mar do Norte como uma forma de sinalizar ataques mais mortais a vir”. Kühn disse: “é horrível falar sobre essas coisas…mas precisamos considerar que isso é uma possibilidade”. Outros argumentam35 que nós não podemos descartar a possibilidade de Putin tornar a guerra da Ucrânia em uma crise nuclear.

– Alguns especialistas em relações internacionais podem argumentar que Putin “não irá” invadir a OTAN ou usar armas nucleares de forma a causar uma resposta da OTAN. O problema, contudo, é que mesmo antes da invasão na Ucrânia, houveram múltiplos momentos36 que um conflito nuclear acidental era possível, com acadêmicos explicando como tais acidentes ocorrem37. Mais importante, há várias formas em que erros humanos e outros problemas de supervisão38 podem acelerar resultados perigosos, particularmente em tempos de guerra.

Sinalização política

Quarto, transferências de armas são sobre sinalizações políticas tanto quanto são sobre obter a vantagem moral. Um problema central com argumentos de esquerda que apoiam carregamentos de armas é que eles parecem estar baseados num conceitos de “nossas armas morais” irão parar “as armas do mal deles”. Enquanto não há dúvidas de que a Rússia é a parte mais próxima do “mal”, nós não podemos reduzir política à moralidade. Por exemplo, alguns dirão que o ocidente ou país X não deveriam curvar-se às vontades de Putin. Se alguém sequer considerar tomar uma posição baseada no que Putin pensa, então você está “cedendo ao mal”. Nas mídias sociais esse tipo de argumento aparece. Quando você pergunta para tais pessoas: “então por que nós não deveríamos enviar tropas para enfrentar Putin?” e “se não mandarmos, isso não é ceder às considerações de Putin?”, nesse ponto, a pessoa que você contradiz desaparece. Ou eles argumentam que não deveríamos correr tais “riscos”. No entanto, a ideia de que as transferências de armas não são suficientemente arriscadas (em contraste com o envio de tropas, que é muito arriscado) simplesmente ignora os riscos de escalada previamente enumerados. Estes riscos estão parcialmente ligados a como o movimento a favor de carregamentos de armas e sanções militares são partes de um clima político histérico que possibilita declarações perigosas tais como a de José Manuel Albares e Friedrich Merz citadas acima. Há vários comentários egoístas e contraditórios sobre o que é arriscado ou não.

O que é sinalização política? Basicamente, apoiadores suecos das transferências de armas estão dizendo: “nós iremos ajudar a Ucrânia até o ponto onde os riscos para a Suíça não são muito altos”, i.e. nós não iremos mandar o exército sueco para lutar na Ucrânia. Contudo, se defender a Ucrânia é o teste moral decisivo, por que não enviar tropas suecas? A resposta é: acontece que essas transferências de armas são—pela admissão e lógica de seus proponentes—sobre uma moralidade que deve ser balanceada por preocupações de segurança realistas. Ainda assim, mesmo a líder do Partido da Esquerda admite que as transferências de armas representam uma ameaça potencial para a Suíça. Resumindo, o debate sobre transferências de armas parcialmente se relaciona com a forma que vários indivíduos e organizações ponderam esse balanço entre moralidade e ameaças. Em outras palavras, enviar armas para a Ucrânia nunca é simplesmente sobre moralidade, mas é também sobre um cálculo político e militar. Portanto, poderia ser que enviar armas para a Ucrânia é menos sobre solidariedade, soberania e moralidade e mais sobre um cálculo militar e político errôneo? O absurdo da sinalização política sueca é mais aparente quando consideramos que Putin é apenas “moderadamente” perigoso.

Argumentos contra a diplomacia por vezes recaem na ideia de que Putin é louco. Há várias espécies de argumentos feitos por aqueles que apoiam as transferências de armas que não se sustentam. Um diz que a Rússia é liderada por um louco ou por um líder imperialista teimoso que não faz ou não fará concessões. O outro diz que a Rússia irá (racionalmente) fazer concessões na mesa de negociações, particularmente enquanto enfrenta resistência militar. Um diz que Putin é muito perigoso, carregamentos de armas para Ucrânia irão pará-lo. Mas esta posição normalmente está associada com outra: Putin não é tão perigoso a ponto de realmente nos atacar ou que nosso envio de armas iria levar a alguma retaliação. Aparentemente, Putin é racional e perigoso o suficiente para que seja seguro enviar armas para opor-se a ele. Em sueco, Putin é lagom racional e perigoso, i.e. não muito racional e não muito perigoso mas também não pouco racional e não pouco perigoso. Putin é tão racional e perigoso quanto aqueles que apoiam as transferências de armas querem que ele seja; assume-se que ele é racional e não perigoso na medida em que as transferências de armas sejam sábias. Esse ponto de vista parece ser resultado de desejo e outro exemplo de como a moralidade é alienada da política. Ou como diz o ditado: “o inferno está pavimentado de boas intenções”.

Por que, então, o Partido da Esquerda se envolve em tal sinalização? Por que o Partido da Esquerda não apoia um maior papel diplomático para a Suíça, ao invés de desvalorizar o poder diplomático sueco apoiando transferências de armas? Não se pode descartar a crença de que transferências de armas irão ajudar uma nação sobre um brutal cerco. Ainda assim, dado que tais transferências também envolvem cálculos políticos, deve-se investigar mais a fundo. Algumas dessas considerações podem ser domésticas. Leitura essencial aqui é o artigo39 de David Stavrou de 2010, “O Debate Sobre Tropas Suecas no Afeganistão”, publicado no The Local. Sua análise destaca os pontos de Möller citados anteriormente sobre como o antimilitarismo ajuda a marginalizar o Partido da Esquerda politicamente. Stavrou demonstra como o criticismo do Partido da Esquerda aos compromissos suecos ajudou o partido a ser rotulado como extremista. Tal rótulo dificilmente ajuda esse partido a ganhar votos. Stavrou cita Robert Egnell, da Escola Superior de Defesa sueca, que comparou o Partido da Esquerda (VP) aos Democratas Suecos (SD), um partido fundado por simpatizantes nazistas. Egnell então pronunciou: “É comum que partidos extremistas se espelhem uns nos outros”. Egnell argumentou que embora esses dois partidos políticos rivais, VP e SD, chegaram nas mesmas conclusões, eles diferiram nas razões para isso: “Os Democratas Suecos querem mais foco na defesa nacional e o Partido da Esquerda é antimilitarista”. Hoje ambas as partes estão alinhadas com todos os outros partidos do parlamento sueco em tomar o caminho de curto prazo para o militarismo, que providencia dividendos políticos domésticos.

Dado o caráter superficial de boa parte do debate sobre militarismo, exportação e transferências de armas, o melhor movimento político é aproveitar dessa superficialidade para ganhar votos. No entanto, se alguém não está ciente das trocas associadas às transferências de armas, então pode-se surgir com uma posição política útil (em termos de angariar votos) , sem ser conscientemente oportunista. Sem dúvidas muitos têm motivos “altruístas”. O menor denominador comum na política é levado pelo assassinato da nuance. Algum debate político sobre transferências de armas para a Ucrânia foi organizado na Suécia? Aos meus conhecimentos, esses debates estão restritos às mídias sociais, com algumas críticas vagarosamente ou periodicamente emergindo na grande mídia.

Transferências de Armas como a Ponte para o Bombardeamento Urbano

Quinto, mesmo se as armas suecas forem efetivas em repelir a Rússia (ou em limitar seu poderio militar), os custos excedem muito as preocupações de segurança a curto prazo para a Suíça, i.e. essas armas são uma ponte para o bombardeamento de cidades ucranianas. Uma arma importante que foi muito efetiva em explodir tanques russos e matar oficiais russos são as chamadas Armas Anti-Tanque Leves de Próxima Geração (NLAWs). Essas armas “são o resultado de décadas de pesquisa de armas dedicadas a construir mísseis guiados pequenos e leves que podem ter igualado a balança do poder em combates entre temíveis tanques e o soldado”. Uma análise40 no The New York Times explica: o Saab (fornecedor de armas primário da Suíça) desenvolveu a NLAW e as vendeu “para alguns países da OTAN—incluindo o Reino Unido, que monta os mísseis em uma fábrica em Belfast, Irlanda do Norte, para o exército britânico”. O exército britânico “começou comprando NLAWs há dez anos e está enviando-as para Ucrânia em números ainda maiores”. Uma fonte “diz que o Reino Unido enviou mais de 4,200 NLAWs para Ucrânia”.

A Suíça enviou 5,000 armas anti-tanque Pansarskott (Tiro em Armadura) 86 diretamente para a Ucrânia. O analista de segurança Joakim Paasikivi descreveu essa arma “como uma granada e um tubo de fibra de carbono reforçado”. Essa armas pode “atingir através de veículos blindados armados e veículos leves…pela frente, por trás e pelos lados”. Também pode destruir “tanques, pelos lados,s e você tiver sorte, e por trás, sobretudo”. Um limite é que “tanques…tem proteção muito forte na frente para a Tiro em Armadura 86 penetrar”. Enquanto a Robô 57 é uma arma muito mais eficaz em destruir tanques, Paasikivi explica que “cada arma anti-tanque significa que os russos devem agir e ser mais cautelosos”. Em outras palavras, “um número limitado de Robôs 57 talvez poderia derrubar um número maior de tanques, mas a ameaça de 5,000 Tiros em Armadura 86 pode ser tão boa quanto”. Uma análise separada41 concluiu: “o poder explosivo não é completamente suficiente para derrubar tanques modernos, mas pode destruir ou desativar veículos blindados e fortificações”. Em teoria, portanto, se uma coluna de tanques está ligada por tais veículos blindados, então derrubá-los facilitaria destruir os tanques com outras armas, e.g. as NLAWs.

Anders Holmner, em um artigo42 no Hallandsposten, fornece mais detalhes úteis sobre as armas que a Suíça enviou para Ucrânia. Ele citou o Major Jan Thorsson, das forças armadas suecas, que explicou que enquanto Pansarskott 86 “é uma armas menos sofisticada que os robôs que a Ucrânia estava almejando…é de forma alguma uma arma obsoleta”. Essas armas “vem a calhar contra transportes de tropas levemente blindados”, o que compromete “a maioria dos veículos de avanço russos”. Em outras palavras, as armas suecas provavelmente foram úteis para resistir ao avanço russo. A arma não é necessariamente inferior a armas anti-tanque mais avançadas, de acordo com o Sargento-mor Karl Danielsson, que declarou que ele “preferia ter escolhido muitas Pansarskotts do que poucos robôs”, com soldados estadunidenses usando a armas extensivamente no Iraque e no Afeganistão sob o nome de exportação AT-4.

As Políticas de Bombardeamento Aéreo: Transferências de Armas ≠ Solidariedade?

As armas suecas enviadas para a Ucrânia são parte do que contribuiu para parar os avanços russos em solo, mas tais contratempos russos podem ter acelerado o bombardeamento russo de cidades:

– Uma análise43 na Al Jazeera de 2 de março explicou: “Os ataques em áreas urbanas sinalizam uma mudança nas táticas russas entre avaliações ocidentais de que a invasão de seis dias de Moscou havia parado. Eles trouxeram medo de que as tropas invasoras podem agora recorrer a táticas que pedem por um bombardeamento devastador de áreas fortificadas antes de tentar entrar nelas”. O artigo continuou: “Os russos foram pegos de surpresa não apenas pela escala da resistência ucraniana, mas também pela baixa moral entre suas próprias forças, algumas das quais desertaram sem lutar, o oficial disse, sem mostrar evidências. Muitos analistas militares ocidentais temem que a Rússia pode começar a mudar de tática e a usar artilharia e bombardeamentos aéreos para pulverizar cidades e esmagar a determinação dos combatentes”.

– Um artigo44 na USA today de 10 de março, por Alexandra Vacroux, da Universidade de Harvard: “Enquanto nós buscamos evitar a Terceira Guerra Mundial, nós precisamos lembrar que Putin usará suas próprias definições do que constitui escalada e intervenção direta da OTAN na guerra. Putin citou ‘pronunciamentos agressivos’ de países da OTAN e sanções financeiras quando aumentou os níveis de preparação militares russos. Ele pode decidir que suprir mais armas para a Ucrânia constituí escalada da OTAN e responder mais agressivamente”.

A report on March 20th in The New York Times by Marc Santor and Steven Erlanger based on assessments by analysts and U.S. officials stated that the war had “reached a stalemate after more than three weeks of fighting, with Russia making only marginal gains and increasingly targeting civilians.” This dispatch quoted the Institute for the Study of War which stated that “Ukrainian forces have defeated the initial Russian campaign of this war.” Santor and Erlanger cited the Institute’s findings that the “Russians do not have the manpower or the equipment to seize Kyiv, the capital, or other major cities like Kharkiv and Odessa.”

– Um relatório45 de 20 de março no The New York Times, por Marc Santo e Steven Erlanger, baseado em avaliações de especialistas e oficiais dos EUA, declarou que a guerra havia “alcançado um impasse depois de mais de três semanas de luta, com a Rússia apenas realizando ganhos marginais e crescentemente atingindo civis”. Este despacho citou o Instituto para o Estudo da Guerra, que declarou que “As forças ucranianas derrotaram a campanha russa inicial desta guerra”. Santor e Erlanger citaram as descobertas do Instituto de que “os russos não têm homens ou equipamentos para capturar Kiev, a capital, ou as maiores cidades como Kharkiv ou Odessa”.

Se transferências de armas atrasarem o avanço russo, mas isso levar os militares russos a bombardearem cidades, isso sugere uma diminuição do valor dessas armas.

Armas que empoderam ucranianos não apenas ajudam a atrasar o avanço russo e fornecer resistência à invasão, mas indiretamente provocam táticas russas que crescentemente parecem com os prévios ataques russos na Chechênia. Aqui está o alcance do dano daquele conflito fornecido por uma entrada da Wikipédia46: “Na segunda guerra da Chechênia, mais de 60,000 combatentes e não combatentes foram mortos. A estimativa de baixas civis varia amplamente. De acordo com o governo da Chechênia pró-Moscou, 160,000 combatentes e não combatentes morreram ou desapareceram em dois anos, incluindo 30,000-40,000 chechenos e cerca de 100,000 russos; enquanto o líder separatista Aslan Maskhadov (falecido) repetidamente alegou que 200,000 chechenos étnicos morreram como consequência dos dois conflitos”.

Michael Clarke do think thank militar RUSI explica a estratégia47 dos russos: “É uma tentativa de criar terror na população e quebrar a moral dos civis. Em Mariupol eles apenas querem que a cidade desista. Geralmente eles oferecem para as pessoas uma forma de escapar, mas eles não estão oferecendo nenhuma rota de fuga genuína em Mariupol – eles apenas querem que eles se rendam. Essencialmente, é um cerco medieval…Carne e sangue não podem fazer muito sem comida, água, eletricidade e hospitais. Eles querem quebrar a cidade para que eles possam entrar com seus tanques e suas armaduras e clamar ela para si. Os russos usam a miséria de uma população como uma arma de guerra”. Essa é uma “deliberada política de desalojamento – para que eles possam esvaziar partes da cidades que queiram ocupar”.

Max Fisher escreve48 no The New York Times que essas táticas “emergiram das experiências da Rússia em uma sequência de guerras que levou seus líderes a concluírem, por razões ideológicas e estratégicas, que bombardear populações inteiras não é apenas aceitável mas militarmente acertado”. Portanto, contra Cuperlo, mesmo se as transferências de armas são parte de um sistema para fazer pressão na Rússia, ou apressar as negociações, muita morte e destruição acontece ao longo desse caminho.

As táticas militares de bombardeamento de cidades não podem ser separadas do ambiente político de isolação criado por Estados como a Suécia enviando armas para a Ucrânia, unindo-se à OTAN ou mesmo sancionando a Rússia. Fisher escreve: “eles também refletem as circunstâncias de um Estado autoritário com poucos aliados, permitindo ao Kremlin ignorar ou mesmo abraçar a revolta à sua conduta militar — ou assim parece que os líderes russos acreditam”. Fisher cita o estrategista militar russo Alexei Arbatov de 2000: “Devastação massiva e baixas colaterais entre a população civil são aceitáveis em função de prever baixar próprias…o uso da força é o mais eficiente solucionador de problemas, se aplicado decisivamente e massivamente”. Arbatov acrescentou que o choque internacional causado pelas ações da Rússia deveria ser “descartado”.

Fisher argumenta que as táticas da Rússia alimentam sanções que potencialmente limitam a Rússia, no entanto: “Ultraje global não fizeram recuar os avanços russos na Chechênia ou Síria. Mas está agora levando as sanções e apoio militar que estão devastando a economia da Rússia e atolando sua invasão — sublinhando que a forma de guerra de Moscou pode não ser absurdamente pragmática quando ela acredita”. Ainda assim, mesmo se a Rússia fracassar na Ucrânia, parece haver poucas dúvidas de que o bombardeamento de cidades e alvos civis ocorrem apesar ou por conta do limite do avançar em campo das tropas. O “apesar” sugere os limites do poder militar e carregamentos de armas como dissuasivos à agressão russa. O “por conta” simplesmente ilustra como as transferências de armas aceleram atrocidades. Em nenhum caso podemos concluir que a fórmula mágica “solidariedade=transferência de armas” é uma noção livre de problemas, i.e. o oposto pode muito bem ser verdade.

Transferências de Armas como Vantagem Diplomática para a Ucrânia?

Os contratempos enfrentados pelos militares russos podem sugerir as transferências de armas como ferramentas diplomáticas. Uma imagem contrastante surge quando é feita uma conexão entre as observações essenciais de James M. Acton, do Fundo Carnegie para Paz Internacional, e Stephen Kinzer, pesquisador visitante no Instituto Watson para Estudos Internacionais, na Universidade Brown.

Acton escreveu49 que “o plano da Ucrânia para acabar com essa guerra provavelmente não é aniquilar as forças invasoras. Ao invés disso, seu objetivo parece ser tornar a perspectiva de continuar a guerra, e a ocupação que a segue, excepcionalmente doloroso para a Rússia—tão doloroso que Putin venha a perceber um acordo que preserve a independência da Ucrânia como o menor dos males”.

A lógica aqui é que quanto mais poderes os ucranianos tiverem, mais vantagem eles podem obter da diplomacia ou controle da situação. A virada russa para o bombardeamento urbano contrapõe em parte contra o crescimento do controle ucraniano em um sentido. E sobre a diplomacia?

No dia 17 de março, Kinzer escreveu um artigo de opinião50 para o Boston Globe entitulado “assistência militar dos EUA para Ucrânia garante mais sofrimento e morte”. Kinzer explicou o impacto “na Niágara de armamento…fluindo para Ucrânia” ao escrever: “se o presidente russo Vladimir Putin precisava de mais evidências para sua convicção de que o Ocidente quer usar a Ucrânia como um aríete contra a Rússia, nós estamos fornecendo elas”. Ao invés da utilidade diplomática, Kinzer viu as transferências de armas dos EUA como aceleradores da violência: “Elas não serão usadas apenas para matar russos, mas também provocar a Rússia a responder matando mais ucrânianos. Dado o número de mercenários que ambos os lados estão recrutando51 de todo o mundo, algumas dessas armas quase certamente irão vazar no mercado negro global. Espere que elas apareçam em arsenais de terroristas ao redor do mundo”.

Kinzer argumentou que transferências de armas na verdade frustram a diplomacia: “É ruim o suficiente que os Estados Unidos e OTAN tenham se juntado a Putin numa escalada louca, alimentando a guerra de forma imprudente e não fazendo nenhum esforço sério para alcançar a paz. Ainda pior é que a fórmula da paz está à vista de todos. É entorpecedor o quanto é simples: uma Ucrânia não alinhada sem tropas ou armas estrangeiras”.

Acton sugere que o que é bom para a Ucrânia pode não ser o que os EUA e Estados Europeus agindo em concerto com os EUA, acreditam ser uma coisa boa: “Se Zelensky quer negociar um acordo, ele provavelmente terá de fazer concessões significativas para a Rússia—como ele reconheceu52. Quais concessões provavelmente serão opostas amargamente53 por muitos nos Estados Unidos e Europa.

Um problema importante emerge. Um Estado como a Suíça pode pensar que envia armas para promover a diplomacia ou atrasar a Rússia, mas não é a Suíça que decide o resultado do jogo aqui. Acton de novo explica o porquê: “É virtualmente inconcebível que a Rússia concordaria com um acordo sem o alívio das sanções”. Portanto, “Os Estados Unidos e seus aliados devem estar preparados para suspender as sanções—incluindo ao Banco Central da Rússia—se a Rússia e a Ucrânia negociarem e implementarem um acordo”. Portanto, mesmo se o Partido da Esquerda teve as melhores intenções do mundo apoiando as transferências de armas, não é a versão deles do mundo que irá determinar a trajetória do para que suas armas contribuem. Os supostos ou reais “ganhos” para Ucrânia de receber armas podem facilmente ser diminuídos, senão frustrados, pelas estratégias e movimentos diplomáticos do governo dos EUA.

Alguém pode então argumentar: “então porque a Suíça não deveria tentar fazer o bem não apesar do que os EUA fazem?” Essa análise falha em reconhecer que a Ucrânia está presa entre dois grandes blocos militaristas, OTAN e EUA de um lado e Rússia e seus aliados (Bielorrússia e possivelmente a China) de outro. Em tal situação, ambos os blocos de poder podem ajudar a frustrar a diplomacia, que representa o melhor acordo que a Ucrânia pode conseguir. Sendo assim, ajudaria ter um bloco não-alinhado que ajudasse a pressionar os outros dois. No entanto, a Suíça sacrificou esse papel, apoiado e encorajado pela mudança de orientação do Partido da Esquerda.

Acton mostra que o sistema de pressão na Rússia (e por implicação quaisquer forças que contribuam com ela) pode facilmente frustrar a diplomacia: “Até o momento, os Estados Unidos e seus aliados enviaram mensagem mistas sobre o alívio de sanções. A Subsecretária de Estado Victoria Nuland indicou54 uma abertura para isso. Em contraste, o Ministro da Finanças francês, Bruno Le Maire, declarou55 “guerra econômica e financeira contra a Rússia” com o objetivo de “causar o colapso da economia russa”. De modo similar, a Secretária do Exterior britânica, Elizabeth Truss, declarou56 que “o propósito das sanções é debilitar a economia russa”. Essa ambiguidade é perigosa porque arrisca obscurecer a existência de uma saída para Putin e pode assim prolongar o conflito e aumentar a pequena, mas real, chance de uma escalada nuclear”57.

Aqueles que argumentam favoravelmente às armas e contra a diplomacia argumentam que Putin é um louco militarista que não se engaja na diplomacia. Em contraste, Acton explica: “Como qualquer pessoa que já negociou algo sabe, você acaba pagando um preço maior se você deixar claro no início que você está desesperado para comprar”. De forma similar, “Putin pode estar tentando extrair maiores concessões da mesa de negociações ao clamar que ele não tem interesse nenhum em conversar. No final, é impossível saber se há um acordo a se fazer a menos que nós tentemos conseguí-lo”.

O que restringe a diplomacia na Ucrânia? Dubovyk fornece parte de uma resposta58: “Todas as forças que normalmente se opõem ao fascismo ou que se oporiam à guerra civil não existem em massa há oito anos na Ucrânia: seguindo o golpe de 2014, muitos partidos de esquerda e socialistas foram banidos pelo governo ucraniano e foram atacados nas ruas por fascistas”. Enquanto “Zelensky concorreu” e foi eleito numa “plataforma de paz”, ele rapidamente “mudou o tom” após ser eleito: “Zelensky foi avisado de que corria o risco de perder o apoio ocidental e a lealdade da extrema-direita, que poderia ameaçar matá-lo”. Então Zelensky deu uma volta de 180° na sua retórica pacífica e continuou a apoiar a guerra civil. Em resumo, “Kiev está sendo ativamente empurrada a um conflito com a Rússia por todas as administrações dos EUA, contra o desejo da maioria do povo ucrâniano”. Dubovyk argumenta59 que “a razão que os veículos de mídia dos EUA e políticos estão todos apoiando a Ucrânia agora é porque eles querem usar os militares e civis ucranianos como bucha de canhão numa guerra de proximidade com um adversário político”. A narrativa do golpe, contudo, é contestada por outros, como Timothy Snyder, o historiador de Yale e especialista na Ucrânia60. Portanto, nós podemos pelo menos especular que divisões internas na Ucrânia podem restringir a diplomacia de formas incertas.

O Dr. Gregory Simons, Pesquisador Visitante Sênior em Diplomacia Pública na Fundação Tilotoma, oferece outra forma de se aproximar das restrições na diplomacia ucraniana. Simons escreve61 (em 23 março de 2022): “Certamente, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tem um dilema difícil, ele depende do apoio dos EUA e do Ocidente e no papel dos ucranianos linhas-duras, ambos que não querem ver uma capitulação à Rússia. Os EUA e seus aliados têm falado de criar uma longa insurgência para gastar e enfraquecer o poder da Rússia na Ucrânia, onde a Ucrânia se torna um novo Afeganistão para a Rússia. Isso deixa a Ucrânia numa posição inviável, estando presa entre grandes poderes em conflito como um objeto, ao invés de um sujeito. Isso significa uma longa, arrastada e custosa guerra para a Ucrânia e Rússia”. Portanto, “com golpe” ou “sem golpe”, há profundas divisões na Ucrânia que podem restringir a vontade da liderança de abraçar certas propostas diplomáticas.

Pressão na OTAN, não só na Rússia, é Necessária, mas Transferências de Armas Apoiam o Complexo Industrial Militar Europeu e Sueco

Acton e Kinzer ilustram o porquê nós precisamos pressionar não só a Rússia, mas também a OTAN. Em contraste com as facções agora dominantes no Partido da Esquerda, os Socialistas Democráticos da América tem uma linha completamente diferente. Um artigo recente no The New York Times62 demonstrou a posição deles. Esse grupo argumentou “que a OTAN promove uma resposta militarizada para o conflito, às custas da diplomacia, e que sanções econômicas frequentemente vitimizam pessoas da classe trabalhadora”. Ashik Siddique, membro do Comitê Político Nacional do S.D.A.explicou: “Há uma longeva tradição com a esquerda nos EUA, e também na Europa, de que a OTAN desempenhou um papel, especialmente desde o colapso da União Soviética, em enfatizar soluções militares, quando diplomacia poderia levar a estabilidade maior”.

Ao apoiar transferências de armas que provocam movimentos agressivos russos contra a Suíça, o Partido da Esquerda indiretamente apoiou o movimento político para fazer a Suíça entrar na OTAN. Mais diretamente, o Partido da Esquerda abraçou aumentos no orçamento militar para lidar com o que é classificado como uma ameaça russa à Suíça. A proximidade da Suíça à Rússia faz do Partido da Esquerda sueco mais militarista do que seus equivalentes nos EUA, e.g. S.D.A. (Socialistas Democráticos da América)? O legado deste partido é que já foi um Partido Comunista alinhado com a União Soviética. Aqui, “proximidade” anteriormente alinhou o partido com o militarismo comunista (ou sua legitimação através de culpa por associação). Em qualquer caso, a proximidade pode argumentar contra o militarismo e pela diplomacia, dado às vulnerabilidades militares da Suíça vis-à-vis com a Rússia. Interessantemente, o Partido da Esquerda quer provocar a Rússia (através da transferência de armas), mas se manter fora da OTAN. Isso sugere que a posição deles não tem nada a ver com proximidade.

O ataque russo à Ucrânia e a escalada russa na Suíça empoderaram em ambos os países as forças pro-OTAN, com pesquisas mostrando apoio crescente à OTAN, e um movimento para aumentar o gasto militar para que seja 2% do Produto Interno Bruto63. Enquanto 30% a 35% dos suecos apoiaram a OTAN desde 2014, uma pesquisa feita em março mostrou que essa proporção aumentou para 46%64. A marca de 2% é o que a OTAN requer de seus membros. Esse gasto militar é um custo para bem-estar social, inclusão social e objetivos ecológicos suecos, e altera o balanço entre os estados de bem-estar social e de guerra suecos65.

Portanto, enquanto alguns na esquerda são atraídos por um militarismo humanista, eles caíram na armadilha para apoiar o que no final das contas será os objetivos da política de escassez dos partidos de direita. Essa política de escassez envolve retirar financiamento nacional de objetivos progressistas, concentração dos gastos na polícia, armas e um orçamento ecológico reduzido. É verdade que os assim chamados “partidos burgueses” também advogaram por investimento em objetivos ecológicos. O problema é que os horizontes de todos os partidos são baseados em concepções rapidamente em erosão sobre o quanto deveria ser gasto e quão rápido esse dinheiro deveria ser gasto para evitar uma catástrofe ecológica.

Considere uma recente entrevista66 com John Bellamy Foster na Monthly Review. Foster explica:

O problema é que se formos para um aumento além de 1.5°C, e especialmente um aumento além de 2°C, mais e mais mecanismos de resposta, como a perda do gelo ártico e o consequente enfraquecimento do efeito albedo (a refletividade da Terra), a liberação de metano e dióxido de carbono da tundra em derretimento, a queimada da Amazônia e a degradação do oceano como dissipador climático irão compor o problema climático e criar uma situação irreversível, aumentando a possibilidade de uma mudança climática descontrolada que alimentaria a si mesma, ao ponto da própria existência humana estar em risco…Ainda há uma possibilidade de evitar uma mudança climática absolutamente catastrófica ao nível de ameaçar a existência humana como um todo. Mas para conseguir isso seriam necessárias mudanças revolucionárias nas relações sociais, assim como na tecnologia e formas de viver”.

As defesas de esquerda para transferências militares querem engajar numa barganha faustiana. Elas querem legitimar o complexo industrial militar sueco, os emaranhados que sustentam orçamentos militares, a resultante política de escassez, a escolha das armas sobre os moinhos. Elas podem pensar que elas podem fazer avançar dois objetivos em competição, armas e manteiga, mas historicamente isso é impossível. Partes da esquerda foram seduzidas por uma visão de muito curto prazo do que é moral ao custo de uma visão de longo termo do que acaba por ser menos do que moral. A Suíça está correndo para alcançar o recém despertado militarismo alemão67, um país cujo falha em planejar apropriadamente levou-o ao suicídio por monóxido de carbono. Alguém poderia reformular o velho slogan: “Moralidade de curto prazo = morte”.

1 https://en.wikipedia.org/wiki/Norrmalmstorg_robbery

2 https://en.wikipedia.org/wiki/Stockholm

3 https://en.wikipedia.org/wiki/Jan-Erik_Olsson

4 https://www.globalteachin.com/uncategorized/stockholm-syndrome-2022the-faustian-bargain-of-left-militarism-in-ukraine

5 https://portside.org/2022-02-26/prelude-ukraine-crisis-military-managerialism-and-limits-institutional-discourse

6 https://www.counterpunch.org/2022/02/25/mutually-assured-paranoia-in-the-ukraine-crisis-the-failures-of-elite-planning/

7 https://multipolarista.substack.com/p/ukrainian-leftist-criticizes-western?s=r

8 https://www.theguardian.com/world/2004/nov/26/ukraine.usa

9 https://www.theguardian.com/world/2004/nov/26/ukraine.usa

10 https://www.un.org/press/en/2019/ga12122.doc.htm

11 https://ukraine.un.org/sites/default/files/2022-02/Conflict-related%20civilian%20casualties%20as%20of%2031%20December%202021%20%28rev%2027%20January%202022%29%20corr%20EN_0.pdf?fbclid=IwAR01nKfLWuXCl6Oj5Y3BPzSkmyglMpU5uGQa-lvN1TdFOGMTdD_zXZxj1gk

12 https://archive.ph/q9xBs

13 https://www.aftonbladet.se/nyheter/a/L5gj2P/dadgostar-vi-hade-fel-om-vapen-till-ukraina

14 https://sverigesradio.se/artikel/spricka-i-v-om-att-skicka-pansarskott-till-ukraina-nooshi-dadgostar-overkord

15 https://www.svd.se/a/Jxgbdj/nytt-v-mote-efter-nej-till-ukrainavapen?metering=offer-abroad

16 https://www.expressen.se/debatt/v-protesten-sag-ja-till-pansarskott-till-ukraina/?fbclid=IwAR0YIvyQWEoKOyCTB2i0i5ZNIipoNxdGh7uUZJ1yXheRXg71eE0u72ZOim8

17 https://global.ilmanifesto.it/gianni-cuperlo-sending-weapons-to-ukraine-is-a-legitimate-path/

18 https://www.undocs.org/Home/Mobile?FinalSymbol=S%2FRES%2F1973%2520(2011)&Language=E&DeviceType=Desktop&LangRequested=False

19 https://www.nato.int/cps/en/natolive/news_71763.htm

20 https://press.armywarcollege.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1912&context=monographs

21 https://www.rferl.org/a/putin-ukraine-nato-rasmussen-russia-interview/31749844.html

22 https://irshadgul.com/the-country-that-created-the-no-fly-zone-over-ukraine-will-be-considered-a-participant-in-the-war-putin-said/

23 https://www.jstor.org/stable/2538876?seq=1

24 https://www.counterpunch.org/2022/03/08/236324/

25 https://interfax.com/newsroom/op-stories/76534/?sphrase_id=76352

26 https://www.theguardian.com/world/2022/mar/11/putin-approves-russian-use-of-middle-east-fighters-against-ukraine?fbclid=IwAR0SdL0_gbtOeokbgjZJXxrJ7zJRhZwDOqWV-VmS4FRDzKWgvBvSLu9kj_Q

27 https://www.ft.com/content/b6bf5494-7381-4de9-9df7-0d4489ad5f5d

28 https://jacobin.com/2022/03/solidarity-ukraine-eu-us-warmongering-sanctions-putin-invasion

29 https://www.ft.com/content/fe80e279-aad8-442a-b4d5-0a4f5e44e7df#post-8229952a-9621-4d67-973a-a55a1079e841

30 https://www.spiegel.de/politik/deutschland/ukraine-krieg-friedrich-merz-haelt-eingreifen-der-nato-fuer-moeglich-a-65458db8-7f8e-43d7-9976-b88a1b51303a

31 https://www.nytimes.com/2022/03/21/science/russia-nuclear-ukraine.html

32 https://www.nytimes.com/2022/03/21/science/russia-nuclear-ukraine.html

33 https://carnegieendowment.org/experts/1265

34 https://carnegieendowment.org/files/Kuhn_Baltics_INT_final_WEB.pdf

35 https://daviscenter.fas.harvard.edu/insights/will-putin-turn-war-ukraine-nuclear-crisis-we-cant-rule-it-out

36 https://www.wagingpeace.org/20-mishaps-that-might-have-started-accidental-nuclear-war/

37 https://www.jstor.org/stable/40725082?seq=1

38 https://slmk.org/wp-content/uploads/2004/11/Human_Factor.pdf

39 https://www.thelocal.se/20101215/30858/

40 https://indianexpress.com/article/world/ukraine-anti-tank-missiles-nlaw-russia-britain-7826841/

41 https://www.forsvarsmakten.se/sv/

42 https://www.hallandsposten.se/nyheter/halmstad/v%C3%A4rnpliktiga-i-halmstad-har-utbildats-p%C3%A5-p-skotten-som-skickas-till-ukraina-1.66871452

43 https://www.aljazeera.com/news/2022/3/2/more-deaths-as-russia-intensifies-bombing-of-ukraine-cities

44 https://daviscenter.fas.harvard.edu/insights/will-putin-turn-war-ukraine-nuclear-crisis-we-cant-rule-it-out

45 https://www.nytimes.com/live/2022/03/19/world/ukraine-russia-war

46 https://en.wikipedia.org/wiki/Second_Chechen_War#Civilian_losses

47 https://news.sky.com/story/ukraine-war-why-russia-is-bombing-hospitals-in-ukraine-and-how-putin-has-done-it-before-12562152

48 https://www.nytimes.com/2022/03/18/world/europe/russia-military-strategy-bombing-cities.html

49 https://carnegieendowment.org/2022/03/10/to-support-zelensky-united-states-needs-to-negotiate-with-putin-pub-86612

50 https://www.bostonglobe.com/2022/03/17/opinion/us-military-aid-ukraine-guarantees-more-suffering-death/

51 https://www.bbc.com/news/world-europe-60711211

52 https://www.president.gov.ua/en/news/ukrayina-povinna-mati-kolektivnij-dogovir-bezpeki-zi-vsima-s-73433

53 https://carnegieendowment.org/2022/03/03/how-does-this-end-pub-86570

54 https://tass.com/world/1416445?utm_source=google.com&utm_medium=organic&utm_campaign=google.com&utm_referrer=google.com

55 https://www.reuters.com/world/france-declares-economic-war-against-russia-2022-03-01/

56 https://www.state.gov/secretary-antony-j-blinken-and-uk-foreign-secretary-elizabeth-truss-at-a-joint-press-availability/

57 https://www.washingtonpost.com/outlook/2022/03/01/putin-russia-nuclear-alert/

58 https://multipolarista.substack.com/p/ukrainian-leftist-criticizes-western?s=r

59 https://multipolarista.substack.com/p/ukrainian-leftist-criticizes-western?s=r

60 https://www.nybooks.com/daily/2014/03/01/ukraine-haze-propaganda/

61 https://tillotomafoundation.org/articles-%26-publications/f/russia-ukraine-war-background-context-and-possible-directions

62 https://www.nytimes.com/2022/03/08/nyregion/dsa-nato-ukraine-russia.html

63 https://www.aljazeera.com/news/2022/3/10/sweden-announces-plan-for-significant-boost-in-military-spending

64 https://www.dn.se/sverige/dn-ipsos-kraftigt-okat-stod-for-svenskt-natomedlemskap/

65 https://books.google.se/books/about/The_Fiscal_Crisis_of_the_State.html?id=onvnIE4WF0wC&redir_esc=y

66 https://monthlyreview.org/2021/12/01/against-doomsday-scenarios/

67 https://www.nytimes.com/2022/03/11/opinion/germany-ukraine-invasion.html

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