Como socializar o Uber

Por Seth Ackerman, via Jacobin Magazine, traduzido por Gabriel Landi Fazzio.

Tornar o Uber uma cooperativa de trabalhadores seria surpreendentemente simples.


Recentemente, Mike Konczal causou impacto com um artigo no Nation intitulado “Socializar o Uber.” Seu argumento era simples: a maior parte do capital usado pelo Uber – os carros e seus seguros – é pago pelos trabalhadores. No entanto, os trabalhadores não têm acesso aos lucros (na verdade, provavelmente o Uber ainda não obtém nenhum lucro, mas coleta algo em torno de $2 bilhões de dólares por ano dos taxistas; e então torra a maior parte disso em publicidade e lobby).

Então a resposta óbvia está bem ali no título: socializar o Uber. A companhia deveria ser gerida como uma cooperativa de trabalhadores. Mas uma questão ainda permanece: de que forma, como Joe Weisenthal da Business Insider  questionou no Facebook de Konczal, se poderia transformar o Uber em um coletivo?

O caminho mais simples, como apontei em resposta à pergunta de Weisenthal, seria as cidades adotarem legislações que apenas permita “transporte solidário” [ride-sharing] às firmas de propriedade dos trabalhadores. O Uber então se tornaria meramente um fornecedor de software.

Esse tipo de restrição não é sem precedentes. Muitos estados proíbem corporações de se dedicarem a certos tipos de cultivo; muitos excluem companhias com fins lucrativos de certos tipos de jogatina e consultorias de crédito; e as restrições federais acerca da propriedade estrangeira existem em um amplo leque de indústrias.

Agora suponha que você apresentasse esse conceito – leis municipais que exijam que as companhias de “transporte solidário” sejam cooperativas de motoristas – para Travis Kalanick, o encantador CEO do Uber. Eu imagino que ele se oporia a isso. Mas é difícil ver em que âmbito ele poderia objetar. O Uber sempre alegou que na verdade não emprega seus motoristas. Ao contrário, os motoristas são apenas valentes empreendedores – o Uber apenas vende um serviço que conecta esses empreendedores aos consumidores por meio de um sofisticado sistema de software proprietário.

O Uber promete aos investidores que estará em breve fazendo mega-lucros, mas também alega que esses lucros apenas representam o retorno por sua tecnologia e pelos riscos assumidos. Certamente o dinheiro não vem da exploração dos trabalhadores do Uber. Que trabalhadores? Não, não – veja, os taxistas são apenas parceiros de negócios do Uber, e você não pode explorar seus parceiros de negócios.

Bom, neste caso Kalanick não deveria ter qualquer objeção ao que estou propondo. Uma vez que essas leis sejam aprovadas, o Uber continua a vender seu inovador serviço de software a qualquer preço se estabeleça no mercado, um preço que irá obviamente cobrado pelo Uber a fim de garantir a plena compensação pela tecnologia e pelo risco assumido. (Ou, ao menos, o Uber esperará que o mercado estabeleça tal preço.)

Exceto que agora, o Uber estará transacionando com parceiros de negócios genuínos – cooperativas de trabalhadores que são livres para adquirir software e serviços da companhia (ou um de seus muitos competidores) em transações de negócio no livre mercado. Agora serão os trabalhadores que estabelecem democraticamente suas próprias tarifas, determinam suas próprias regras de trabalho e, é claro, embolsam qualquer lucro. E uma vez que o Uber alega que já estabelece as tarifas com o melhor interesse dos taxistas em mente, não deve haver qualquer razão para se preocupar com a perda de tal controle de tarifas para eles.

É notório que Marx escreveu que sob o capitalismo, “o possuidor de dinheiro tem de encontrar o trabalhador livre no mercado das mercadorias, livre no duplo sentido de que ele, como pessoa livre, dispõe da sua força de trabalho como mercadoria sua e de que, por outro lado, não tem outras mercadorias para vender, está isento e disponível, livre de todas as coisas precisas para a realização da sua força de trabalho.”

Talvez em breve, o Uber, o possuidor do dinheiro, terá uma amostra do que é se empenhar neste tipo de “livre” transação: neste caso, se encontrar no mercado com um ator que possuiu toda a força de trabalho necessária para a realização do dinheiro.

Ou, para citar o Velho Homem novamente, desta vez se dirigindo a uma reunião de trabalhadores, em 1864, acerca do assunto das cooperativas de trabalho:

“O valor desses grandes experimentos sociais não pode ser superestimado. Por exemplos ao invés de por argumentos, eles demonstraram que a produção em larga escala e de acordo com os ensinamentos da ciência moderna pode ser levado a cabo sem a existência de uma classe de mestres, empregando uma classe de mãos; que para dar frutos, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como um meio de domínio e extorsão contra o próprio trabalhador; e que como o trabalho escravo e servil, o trabalho contratado não é senão uma transitória e inferior forma, destinada a desaparecer ante o trabalho associado exercendo sua labuta com mão desejosa, menta preparada e coração alegre.”


*Na foto, George, 35, protesta com outros motoristas do Uber sobre suas condições de trabalho do lado de fora do escritório da companhia em Santa Monica, Califórnia, em junho de 2015. Foto por Lucy Nicholson / Reuters.
**Nota do tradutor: os marcos legais mencionados no texto, sobre limitação ao exercício do direito comercial, e em especial as tarifas, se referem exclusivamente ao cenário estadunidenses. O contexto brasileiro é significativamente diferente, tanto quanto aos marcos jurídicos, quanto ao atual cenário da luta de classes, onde os taxistas resistem ao Uber enquanto, nos EUA, já é possível ver mobilizações dos próprios trabalhadores da Uber. No entanto, o texto mantém seu valor programático quanto ao tema das “novas tecnologias“. Uma análise mais efetiva do cabimento de tal debate no Brasil será desenvolvidas nas próximas semanas.
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