Eleições na Grécia: fascismo à vista?

por Gabriel Landi Fazzio

Dois anos e dois dias após o assassinato político do rapper grego anti-fascista Killah P (Pavlos Fyssas), a população grega comparece às urnas timidamente: 56,6% dos eleitores aptos votaram, conta 63,6% nas eleições de janeiro – uma queda de 764.133 de votantes.

Essa massiva abstenção tem sido negligenciada pelos noticiários não porque seja complexa demais de se explicar, mas pelo contrário: é tão simples de entender que chega a ser perigoso pô-la em evidência. Ora, como esperar qualquer resultado diferente, depois da absoluta traição ao plebiscito grego de julho, onde a democracia escancarou-se como farsa diante do poder das finanças? De uma população de quase 10 milhões de votantes, mais de 7% se abstiveram: uma quantidade maior de pessoas do que os votantes do Partido Comunista e da Unidade Popular somados; uma quantia que representa metade do que o segundo colocado direitista Nova Democracia teve de votos (diga-se de passagem, 200 mil a menos que no pleito de janeiro).

É necessário frisar, sem dúvida, como alguns camaradas o fazem: o prolongamento da social-democracia no poder, conjugado com a degradação da situação econômica e a crise da imigração massiva é a fórmula perfeita para permitir a ascensão dos grupelhos fascistas. Mas antes devemos ir aos dados: com 388 mil votos em janeiro, os fascistas do Alvorada Dourada obtiveram agora 379 mil votos. Não é algo que se possa desprezar, fazendo deles a terceira maior força política no parlamento. Contudo, é importantíssimo ter em conta que no auge da crise da imigração, a extrema-direita não foi capaz de vocalizar (ainda) as angústias populares sob a bandeira da xenofobia e crescer eleitoralmente. E isso não pode ser menosprezado – evidentemente, também prova que há ao menos um grande espaço para o fascismo na Grécia, cujo desenvolvimento ainda não se pode certificar – e que, no fundo, depende da capacidade da esquerda de organizar a radicalização.

Por outro lado, refluiu também a esquerda eleitoralmente: o transigente Syriza teve 320.100 votos a menos que em janeiro; o intransigente KKE perdeu 36.559 eleitores; e a nascente Unidade Popular teve 155.240, pouco menos dos 3% necessários para eleger parlamentares. Poderia parecer que as massas se afastaram da luta contra a austeridade – mas é precisamente o contrário. A queda dos partidos abertamente liberais e do Syriza aponta o oposto, e apenas os comunistas e os fascistas conseguiram sofrer com menos intensidade os efeitos da evasão eleitoral generalizada – o que aponta para uma radicalização crescente das massas.

Ou seja: se equivoca quem acredita que a revolução grega morreu antes mesmo de nascer. Na terra onde se diz ter surgido a democracia (o que ao menos é verdade quanto à palavra), as ilusões na democracia burguesa diminuem dia após dia. E a saída só poderá vir pela força – seja ela a força democrática e revolucionária das massas à esquerda contra a ditadura das finanças, ou a força autoritária e reacionária dos grupelhos fascistas contra os imigrantes, os sindicatos e os movimentos populares. Tsipras retorna ao poder bastante legitimado, principalmente para governar com o apoio da direita – mas dificilmente toda esta legitimação lhe permitirá evitar o aumento crescente das tensões sociais, conforme ele implementar o Memorando de Bruxelas.

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