O capitalismo? Uma religião. O homem? um animal “sem propósito”. A lei? Demasiado presente.

Por Juliette Cerf, via Telerama.fr, traduzido por Daniel Fabre.

A filosofia do italiano Giorgio Agamben atravessa disciplinas, tradições e tópicos, para desenvolver questões políticas e filosóficas com base na crítica. Movendo-se da religião, lei e língua para capitalismo, trabalho, soberania e crise econômica, seu pensamento joga novas luzes sobre a condição humana contemporânea. Esta entrevista, sua mais recente, também não é exceção. Agamben conversa com Juliette Cerf, em Roma, para discutir e clarear muitas de suas posições.  

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Ao tocar dos sinos da igreja em Trastevere, onde combinamos nosso encontro, sua face veio à mente… Giorgio Agamben apareceu como o apostolo Felipe em O Evangelho segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini. Àquele tempo o jovem estudante de direito, nascido em Roma em 1942, circulava entre artistas e intelectuais reunidos em torno da autora Elsa Morante. La dolce vita? Um momento de intensas amizades, em todo caso. Pouco a pouco o jurista se virou em direção à filosofia, seguindo o seminário de Heideegger em Thor-en-Provence. Ele então se atirou na edição da obra de Walter Benjamin, um pensador que nunca esteve longe de seu pensamento, assim como Guy Debord e Michel Foucault. Giorgio Agamben então tornou-se familiarizado com um senso messiânico da História, uma crítica da sociedade do espetáculo e uma resistência ao biopoder, o controle que as autoridades exercem sobre a vida – sobre o próprio corpo dos cidadãos. Poético assim como político, seu pensamento escava a terra por evidências arqueológicas, fazendo seu caminho de volta através do redemoinho do tempo, até as origens das palavras. Autores de uma série de trabalhos reunidos sob o nome em latin Homo Sacer, Agamben viaja pela terra do direito, religião e literatura, mas agora se recusa a ir… aos EUA, para evitar ser sujeitado por controles biométricos  Contra qualquer redução de um homem a sua informação biológica, Agamben propõe uma exploração do campo das possibilidades.


JC. Berluconi caiu, como diversos outros líderes europeus. Tendo escrito sobre soberania, que pensamentos essa situação sem precedentes provoca em você?

GA. O poder público está perdendo legitimidade. Uma suspeição mútua se desenvolveu entre as autoridades e o cidadão. Esse montante de desconfiança derrubou alguns regimes. As democracias estão bastante alarmadas: como se pode explicar que elas têm uma política de segurança duas vezes pior que a do Fascismo Italiano tinha? Aos olhos do poder, todo cidadão é um terrorista em potencial. Nunca esqueça que o aparato biométrico, que logo será inserido na cédula de identidade de cada cidadão, foi primeiramente criado para controlar criminosos reincidentes.

JC. A crise está ligada ao fato de que o econômico roubou o caminho da política?

GA. Para usar o vocabulário da antiga medicina, a crise marca o momento decisivo da doença. Mas hoje, a crise não é mais temporária: ela é o próprio impulso do capitalismo, seu motor interno. A crise está continuamente acontecendo, uma vez que, como outros mecanismos excepcionais, ela permite que as autoridades imponham medidas que eles nunca seriam capazes de impor em um período normal. A crise corresponde perfeitamente – por mais engraçado que pareça – com o que as pessoas na União Soviética costumavam chamar de “revolução permanente”.

JC. A teologia joga um papel importante em sua reflexão atualmente. Porque isso?

GA. Os projetos de pesquisa que eu assumi recentemente me mostraram que nossas sociedades modernas, que se dizem seculares, são, pelo contrário, governadas por conceitos teológicos secularizados, que agem com muito poder porque nos não somos conscientes de sua existência. Nós nunca saberemos o que esta acontecendo hoje, a não ser que compreendamos que o capitalismo, na realidade, é uma religião. E, como Walter Benjamin disse, é a mais feroz das religiões porque ele não permite expiação… Pegue a palavra “fé”, usualmente reservada à esfera religiosa. O termo grego correspondente a isso nos evangelhos é pistis. Um historiador da religião tentando entender o sentido dessa palavra estava caminhando por Atenas um dia, quando subitamente viu um sinal nas palavras “Trapeza tes pisteos”. Ele foi até isso, e compreendeu que se tratava de um banco: trapeza tes pisteos significa: “banco de crédito”. Isso clarifica suficientemente as coisas.

JC. O que esta estória nos conta?

GA. Pistis, fé, é o crédito que temos em Deus e o que as palavras de Deus têm em nós. E há uma esfera maior em nossa sociedade que gira inteiramente em torno do crédito. Essa esfera é o dinheiro, e o banco é seu templo. Como você sabe, dinheiro não é nada além de um crédito: em notas de dólares e libras (mas não em euros: e isso deveria erguer nossas sobrancelhas…) você pode ainda ler que o banco central pagará ao portador o equivalente desse crédito. A crise foi desencadeada por uma série de operações de crédito que foram revendidas dúzias de vezes antes de serem finalizadas. Ao gerenciar o crédito o banco – que tomou o lugar da Igreja e de seus padres – manipula a fé e a confiança da humanidade. Se a política está hoje em retirada, isso é devido ao poder financeiro, que ao substituir a religião, sequestrou toda fé e toda esperança. Isso é porque estou pesquisando religião e direito: a arqueologia me parece a melhor maneira de acessar o presente. Os europeus não podem acessar seu presente sem mensurar eles mesmos pelo passado.

JC. O que é o método arqueológico?

GA. É uma busca pelo archè, que em grego significa “princípio” e “mandamento”. em nossa tradição, o princípio é tanto o que faz nascer algo como o que comanda sua história. Mas, esta origem não pode ser datada ou situada cronologicamente: é uma força que continua a agir no presente, assim como a infância, de acordo com a psicanalise, determina a atividade mental do adulto, ou como o big bang, que, de acordo com astrofísicos, fez nascer o Universo, continua se expandindo mesmo atualmente. O exemplo que tipifica esse método seria a transformação do animal em humano (antropogênese), que é, um evento que imaginamos como necessário que tenha ocorrido, mas, que não acabou de uma vez por todas: os homens estão sempre se tornando humanos, e então também permanecem inumanos, animais. A filosofia não é uma disciplina acadêmica, mas um modo de mensurar a si neste evento que nunca para de acontecer e que determina a humanidade e inumanidade do tipo humano: questões muito vitais, em minha visão.

JC. Essa visão de se tornar humano, em seus trabalhos, não é antes pessimista?

GA. Sinto-me feliz que tenha perguntado essa questão, já que corriqueiramente descubro que as pessoas me chamam de pessimista. Primeiro de tudo, a nível pessoal, esse não é o caso. Segundo, os conceitos de pessimismo e otimismo não tem nada a ver com pensamento. Debord costumava citar uma carta de Marx, dizendo que “as condições sem esperança da sociedade em que vivo me enchem de esperança”. Qualquer pensamento radical sempre adota a mais extrema posição de desespero. Simone Weil disse “eu não gosto daquelas pessoas que esquentam seus corações com esperanças vazias”. O pensamento, para mim, é justamente isso: a coragem da desesperança. E isso não é o auge do otimismo?

JC. De acordo com você, ser contemporâneo significa perceber a escuridão de sua época e não sua luz. Como devemos entender essa ideia?

GA. Ser contemporâneo é responder ao apelo que a escuridão da época faz em nós. No Universo em expansão, o espaço que nos separa das galáxias mais distantes está crescendo em uma tal velocidade que a luz de suas estrelas não poderiam nunca nos alcançar. Para perceber, por entre a escuridão, essa luz que tenta que nos alcançar mas que não pode – isto é o que é ser contemporâneo. O presente é a coisa mais difícil de nós vivermos. Porque uma origem, repito, não esta confinada no passado? Ela é um redemoinho, na boa imagem que fez Benjamin, um abismo no presente. E somos dragamos para dentro deste abismo. É por isso que o presente é, por excelência, a coisa que é deixada sem viver.

JC. Quem é o supremo da contemporaneidade – o poeta? Ou o filósofo?

GA. Minha tendência não é opôr poesia a filosofia, no sentido de que essas duas experiências, ambas ocorrem na linguagem. A casa da verdade é a linguagem, e eu não acreditaria em nenhum filósofo que deixasse isso para os outros – filólogos ou poetas – zelar por essa casa. Precisamos cuidar da linguagem, e acredito que um dos problemas essenciais com a mídia é que eles não demonstram nenhuma preocupação. O jornalista, também, é responsável pela linguagem, e será julgado por isso.

JC. Como seu último trabalho sobre liturgia nos dá uma chave para o presente?

GA. Analisar a liturgia é colocar seu dedo em uma imensa mudança em nosso modo de representar a existência. No mundo antigo, a existência estava logo ali – algo presente. Na liturgia cristã, o homem é o que ele deve ser e deve ser o que ele é. Atualmente, não temos outra representação de realidade que o operacional, o efetivo. Nós não mais concebemos uma existência sem efeitos. O que não é efetivo – trabalhável, governável – não é real. A próxima tarefa da filosofia é pensar uma política e uma ética que estejam livres dos conceitos de tarefas e efetividade.

JC. Pensando sobre inoperatividade, por exemplo?

GA. A insistência no trabalho e na produção é maligna. A Esquerda foi pelo caminho errado quando adotou essas categorias, que estão no centro do capitalismo. Mas deveríamos especificar que inoperatividade, como eu concebo isso, não é inércia, nem inatividade. Precisamos nos livrar do trabalho, em um sentido ativo – eu gosto muito dessa palavra em francês désoeuvrer (em tradução livre “sem propósito”). Isto é uma atividade que faz todas as tarefas sociais da economia, do direito e da religião inoperativas, então, os libertando para outros usos. Pois isso é precisamente próprio à espécie humana: escrever um poema que escape da função comunicativa da linguagem; ou falar ou dar um beijo, assim mudando a função da boca, que antes e acima de tudo serve para comer. Em sua Ética a Nicomaco, Aristóteles perguntou a si mesmo quando a humanidade tinha uma tarefa. O trabalho do flautista é tocar a flauta, e do sapateiro fazer sapatos, mas, há um trabalho da humanidade enquanto tal? Ele então avança com sua hipótese de que os homens talvez nascem sem nenhuma tarefa; mas logo ele abandonou isso. Entretanto, essa hipótese nos leva ao coração do que é ser humano. O humano é o animal que não tem trabalho: ele não tem uma tarefa biológica dada, nenhuma função prescrita claramente. Apenas um ser poderoso tem a capacidade de não ser poderoso. A humanidade pode fazer tudo, mas não tem de fazê-lo.

JC. Você estudou direito, mas toda sua filosofia busca, em um certo sentido, se libertar do direito.

GA. Quando estava saindo do ensino médio, eu tinha apenas um desejo – escrever. Mas o que isso significa? Escrever – o que? Isso era, acredito, um desejo de possibilidade em minha vida. O que eu queria não era ‘escrever’, mas ‘ser capaz’ de escrever. É um gesto filosófico inconsciente: a busca por possibilidade em nossa vida, que é uma boa definição de filosofia. O direito é, aparentemente, o contrário: ele é uma questão de necessidade, não de possibilidade. Mas quando eu estudava direito, foi porque, é claro, eu não fui capaz de acessar o possível sem passar pelo teste do necessário. Em todo caso, meus estudos de direito vieram a ser úteis para mim. O Poder derrubou conceitos políticos em favor dos jurídicos. A esfera jurídica nunca para de se expandir: eles fazem leis sobre tudo, em domínios onde antes isso teria sido inconcebível. Essa proliferação de leis é perigosa: em nossas sociedades democráticas, não há nada que não seja regulado. Juristas árabes me ensinaram algo que gostei muito. Eles representam a lei como uma espécie de árvore, que em uma extremidade esta o proibido, e em outra, o que é obrigatório. Para eles, o papel do jurista esta situado entre esses dois extremos: que é, localizando tudo que se pode fazer sem sanção jurisdicional. Essa zona de liberdade nunca para de se estreitar, enquanto que deveria ser expandida.

JC. Em 1997, no primeiro volume de sua série Homo Sacer, você disse que o campo é a norma de nosso espaço político. De Atenas à Auschwitz…

GA. Eu fui muito criticado por esta ideia, de que o campo substituiu a cidade como o nomos (norma, lei) da modernidade. Eu não estava olhando para o campo como um fato histórico, mas como uma matrix escondida de nossa sociedade. O que é um campo? É uma parte do território que existe fora da ordem jurídico-política, uma materialização do estado de exceção. Atualmente, o estado de exceção e a despolitização penetraram a tudo. O espaço está sob vigilância da CCTV nas cidades de hoje, público e privado, interior ou exterior? Novos espaços estão sendo criados: o modelo israelense no território ocupado, composto de todas essas barreiras que excluem os palestinos, foi transposto para Dubai para criar ilhas hiper-seguros para o turismo…

JC. Em que estágio está o Homo sacer?

GA. Quando comecei essa série, o que me interessou foi a relação entre lei e vida. Em nossa cultura, a noção de vida nunca é definida, mas ela é incessantemente dividida: há vida caracterizada politicamente (bios), a vida natural comum a todos animais (zoé), vida vegetativa, vida social, etc. Poderíamos, talvez, alcançar uma forma de vida que resista a tais divisões? Atualmente estou escrevendo o ultimo volume de Homo sacer. Giacometti disse algo que eu realmente gostei: você nunca termina uma pintura, você a abandona. Suas pinturas não são acabadas; seu potencial nunca é exaurido. Eu gostaria que o mesmo fosse verdade para o Homo sacer, para ele ser abandonado, mas nunca acabado. Penso, mais ou menos, que a filosofia não deveria consistir muito de afirmações teoréticas – a teoria precisa algumas vezes demonstrar sua insuficiência.

JC. Essa é a razão porque, assim como em seus ensaios teóricos, você sempre escreveu pequenos textos, mais poéticos?

GA. Sim, exatamente. Esses dois registros de escrita não estão em contradição, e, espero, eles usualmente até mesmo cruzam caminhos. Foi começando de um grande livro, O Poder e a Glória, uma genealogia do governo e da economia, que eu fui forçosamente atingido por essa noção de inoperatividade, que tentei desenvolver de um modo mais concreto em outros textos. Esses caminhos cruzados são todo o prazer de escrever e pensar.

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