Sobre a carta não entregue a Trotsky

Por Eduardo Henrique Nascimento Silva

Talvez sem Joffé saber, a angústia e tristeza de um revolucionário, que teve a pior das condenações aos que lutam, “ser impedido de lutar”, serve às futuras gerações para continuar lutando, e sabendo que, mesmo com toda a tristeza e depressão promovida por esse sistema, sempre a luta será a luz do farol que conduzirá a todos jovens revolucionários.


No dia 16 de novembro de 1927, em Moscou, um revolucionário em sua quarta década de vida, escreveu uma carta mais do que comovente ao seu grande camarada, e também amigo íntimo, Leon Trotsky, que há poucos dias havia sido expulso do Partido Comunista Soviético, a mando de Stalin. Na carta, Adolf Joffé lamenta o caminho que o partido estava tomando; deixando à margem de suas fileiras todos aqueles que se mostravam opostos às decisões da camarilha stalinista. Mesmo com sua saúde fragilizada, Joffé jamais deixou de dedicar sua vida à construção de uma revolução socialista e proletária internacional. Segundo Adolf, a vida era se dedicar totalmente à causa do socialismo, que varreria o planeta de toda a miséria e guerra. Sua única crença era a da esperança de um novo amanhã, construído pelos explorados e oprimidos contra a velha sociedade.

“(…) se tem como eu, fé no progresso, pode-se muito bem conceber que, mesmo em caso de perdição de nosso planeta, a humanidade encontre os meios de habitar outros mais jovens e prolongue por conseguinte sua existência; e então, tudo que for feito em seu bem em nosso tempo se refletirá também nos séculos longínquos, quer dizer dará a nossa existência a única significação possível”.

A esperança no futuro de uma sociedade onde a humanidade possa desenvolver e explorar todos seus limites para ultrapassa-lo, só seria possível em um mundo socialista.

“É nisto, e nisto somente, que sempre vi o sentido da vida; e agora, abarcando com o olhar a minha vida passada, dos quais 27 anos nas fileiras do nosso Partido, parece que tenho o direito de dizer que durante toda a minha vida consciente, permaneci fiel a esta filosofia, isto é, vivi segundo este sentido da vida; o trabalho e a luta pelo bem da humanidade”.

Adolf Joffé se manteve firme à Oposição de Esquerda, grupo liderado por Trotsky que enfrentou e denunciou a burocracia da camarilha contrarrevolucionária de Stálin. Diante disso, o Comitê Central já burocratizado, utiliza sua fragilidade na saúde para o jogar fora das fileiras do Partido. Joffé, recomendado pelos médicos do Partido a se tratar, não vê alternativas dentro da Rússia Soviética (como no caso remédios que antes eram facilmente disponibilizados para ele). Então, condenado silenciosamente por se colocar contra o caminho que o Partido tomava, e com todos seus atos públicos abafados, vê que nada mais resta fazer do que um grande e único protesto, que chocaria toda a direção nacional do partido soviético, mas que também denunciaria as atrocidades cometidas contra Trotsky e outros membros da Oposição de Esquerda. Seu protesto seria o suicídio, o mesmo que dois anos antes o poeta Serguei Iessienin fez, e poucos anos mais tarde, Vladimir Maiakóvski, o poeta da revolução, faria. Um suicídio contra a censura, a burocracia, a perseguição política e, não menos importante, a violência que Stálin e seus cúmplices faziam ao futuro da revolução socialista.

Em um dos trechos da carta, Joffé aflito com o rumo da revolução que já estava sendo traída, como último suspiro escreve:

“Neste sentido, minha morte é um protesto contra aqueles que levaram o Partido a uma situação tal que ele não possa de nenhum modo reagir contra este opróbrio.(…) Mas não tenho dúvidas de que o dia não está longe em que você há de retomar o lugar que lhe é devido. Então, não se esqueça dos meus. Eu lhe desejo energia uma valentia iguais às de que tem dado provas até o presente, e a mais rápida vitória. Eu o abraço fortemente. Adeus”.

Infelizmente a carta nunca chegou às mãos de seu destinatário, que treze anos mais tarde seria covardemente assassinado por um agente de Stálin. Mas, talvez sem Joffé saber, a angústia e tristeza de um revolucionário, que teve a pior das condenações aos que lutam, “ser impedido de lutar”, serve às futuras gerações para continuar lutando, e sabendo que, mesmo com toda a tristeza e depressão promovida por esse sistema, sempre a luta será a luz do farol que conduzirá a todos jovens revolucionários.

 


Bibliografia:

 

 

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