Entrevista-montagem com Jeannete Ehrman, Florian Kappeler e Maud Meyzaud

Por Jeannete Ehrman, Florian Kappeler e Maud Meyzaud, via Undercurrents, traduzido por Bernardo Pereira

“O texto de Fanon é, assim, a antecipação literária da revolução anticolonial, a superação imaginativa da história, e uma narrativa de luta emancipatória, que implode o colonialismo como único script possível para uma história futura e liberta os “nativos” de seu papel de figurante, colocando-o como condutor principal da história. Das experiências da independência jamaicana e do desmantelamento dos modelos de sociedade marxistas no Caribe, a estudiosa Sylvia Wynter chega até ao ponto de colocar a eficácia de produções literárias e artísticas acima daquelas da política quando se tem em vista uma futura sociedade emancipada. A Revolução não é assim uma ruptura pontual com o antigo, mas uma reconfiguração continuada do epistema ocidental, da gramática colonial e de sua linguagem. Uma política do poético.”


Os nossos três entrevistados receberam as mesmas perguntas, dentre as quais puderam responder as que lhes pareceram mais interessantes. Suas respostas foram, então, montadas pela redação.

1) O que é Literatura Revolucionária?

Undercurrents: 1) a) Que exemplos você daria de literatura revolucionária?  E o que é, de fato, literatura revolucionária? Uma literatura que é tão formalmente revolucionária a ponto que se possa referir-se a ela como revolução literária? Ou a literatura revolucionária é melhor definida a partir de um contexto social, de uma práxis literária ligada a algum movimento social?

Maud: “Literatura revolucionária” é um bom sintagma, cuja ambivalência tem certa força expressiva sobre o próprio fenômeno da revolução: como se relacionam adjetivo e substantivo, o que acontece aqui com o quê ou com quem? Eu aceitaria a distinção proposta, mas diferenciaria ainda mais: falamos de uma literatura que surge ao lado de uma revolução social, política etc? Se assim for, no que toca à Revolução Francesa, por exemplo, teremos de esbarrar em um estudo clássico da produção dramática de Marvin Carlson, que hoje tem um valor puramente documental. Sua produção se coloca bem cedo à serviço da revolução e seu calculado impacto se restringe mais ou menos ao nível da propaganda. Pouco acontece na França nos anos da Revolução além disso – com exceção dos irmãos Chénier e de Olympe – enquanto a vida intelectual nos anos anteriores haviam sido incontestavelmente intensa (pensemos só, por exemplo, em Diderot e nos enciclopedistas, Rousseau, Voltaire, Chordelos de Laclos etc).

Ou falamos então das forças revolucionárias que a própria literatura pode engendrar e, então, de como graças e através da literatura se pode fazer revoluções? Nesse último caso, falamos da força de impacto de uma literatura que precede uma revolução? O impacto causado pelo famoso panfleto de Abbès Sieyès (O que é o Terceiro Estado), por exemplo, é difícil de ser exagerado: aqui a burguesia se distingue pela primeira vez como força política, a qual de agora em diante terá que ser levada em consideração. Isso significa também que o escrito tem a finalidade de que seus destinatários se constituam simultaneamente a ele, falando, assim, a um destinatário que está em surgimento: é dizer, constitui essa burguesia que, como mostra o clássico estudo de Kosellek, Crítica e Crise, cria uma forma até então inédita de público, uma vez que ela já havia conquistado tudo, menos uma voz política. O que é o Terceiro Estado deve/quer contribuir para a reconfiguração das relações de forças políticas. Por outro lado, O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels será, pouco menos de 60 anos depois, o escrito que vai se tornar a bíblia de todo revolucionário. Isto é em si interessante, sobretudo quando se recorda que os autores decidiram-se conscientemente pelo (então amado) gênero do catecismo para o manifesto (lembrança que devo à Emilie Délivré, que fez pesquisa sobre o catecismo como gênero político nos 1800). E, não menos importante, o Manifesto Comunistadeve sua força colossal ao fato de que ele se emancipou, diferentemente de outros produtos do Socialismo incipiente, do registro, da semântica e do tom bíblicos. Ele se liga a outras formas, como ao gênero autoritário do manifesto, como também ao do romance de formação. Eu dou o exemplo desses escritos, e mais especificamente doManifesto Comunista, pois não se pode dissociar seu caráter de época da sua qualidade literária. Apesar disso, sua inserção no gênero de escritos literários em sentido estrito não seria feita sem contestações.

Em relação à literatura revolucionária como práxis literária ligada a um movimento na sociedade, esse parece-me ser o caso da produção artística (e portanto, literária em sentido estrito) de manifestos, como no caso das vanguardas. Nesta outra variante de literatura, cuja força também se pode dizer revolucionária, tem-se um gênero literário que se situa já em uma história pregressa revolucionária, sobretudo quando se pensa na revolução dos sentidos e da moral, que, em geral, para parafrasear Peter Bürger, quer ser um “revolucionamento” da vida através da arte.

Florian: O adjetivo “revolucionário” sugere um pouco que seja a própria literatura que pode efetuar os – no sentido moderno do conceito de revolução – progressivos e talvez irreversíveis cataclismos sociais. Eu ponho em dúvida que este seja o caso, e penso, ao contrário, que revoluções políticas, como também sociais e científicas, podem vir a condensar na literatura, e que a própria literatura poder ter, assim, parte nos grandes cataclismos políticos, mas nem sempre de uma maneira direta ou clara.  As revoluções do fim do século XVIII tiveram conhecidamente profundos efeitos na literatura – e também naquilo que se entendia por literatura. O filósofo Jacques Rancière (em seu livro, por exemplo, A Palavra Muda) parte do princípio de que somente com as revoluções tornou-se possível uma literatura que podia ser escrita sobre quaisquer pessoas, sobre quaisquer temas, de uma maneira qualquer (assim, por exemplo, na literatura proletária de meados do século XIX, que ele pesquisou), chamando a isso de revolução literária. Apesar de essa tese me parecer insuficiente quando se leva em consideração as relações de dominação colonial – a Revolução Haitiana funcionou de maneira completamente diferente – ela descreve muito bem o que eu quero dizer quando falo da ligação complexa e indireta entre revolução e literatura. Rancière afirma também que a influência da literatura na sociedade e na política não está fundada primariamente nas intenções dos literatos, mas em uma relação incalculável entre a forma literária e sua recepção. Na melhor das hipóteses, a forma “revolucionária” estaria fundada então em uma recepção revolucionária. A literatura não precisa, portanto, estar necessariamente ancorada em movimentos sociais (embora não seja falso que possa estar), mas tem que penetrá-los e processá-los em sua própria prática, qual seja, a formatação linguística. Nós chegamos aqui ao terreno precário de poder, por um lado, chamar a muita coisa de revolucionário, mas, por outro, de ter que julgar o que exatamente se quer dizer com isso. Essa tensão entre utilização ubíqua e delimitação normativa é, na minha opinião, constitutivo da narrativa moderna sobre revolução.

Jeannete: Se as revoluções são a locomotiva da história, então Os Condenados da Terra de Frantz Fanon é um exemplo particularmente impressionante de representação de revolução em texto, em acordo com uma concepção histórica materialista. Fanon consegue trazer em uma obra híbrida, em que passagens ensaísticas sucedem narrativas, e análises filosóficas sucedem a descrição de casos psiquiátricos, o grito de um apologeta da violência, não apenas pelo conteúdo da obra, mas também por seu estilo agressivo. Sob os trajes de uma linguagem militante esconde-se, porém, uma precisa e estruturada construção formal, na qual toda a dramaturgia da libertação já está posta. No primeiro ato a constelação dos personagens é introduzida: em um mundo colonial e bipartido os senhores coloniais e os colonizados surgem como forças antagonistas inconciliáveis. O jogo recíproco de violência e contra-violência desenvolve por fim uma dinâmica que coloca a história em movimento até que os adversários se encontrem em uma luta de vida ou morte, e a eclosão da revolução anticolonial se realize como ponto alto da ação. Jean Améry reconhece Os condenados justamente por essa forma expositiva, como “concebido racionalmente na forma de uma estratégia de ataque que se apresenta como ação textual”. Como o tom violento reproduz a violência da linguagem colonial e o trauma que a segue, é tecido aqui não apenas uma literatura de catarse, mas uma reconquista de força criativa que impulsiona a capacidade de representação do colonizado: ela convoca estes a dar um fim à escrita da história por parte dos senhores coloniais e a se tornarem autores(as) e protagonistas da própria história. O texto de Fanon é, assim, a antecipação literária da revolução anticolonial, a superação imaginativa da história, e uma narrativa de luta emancipatória, que implode o colonialismo como único script possível para uma história futura e liberta os “nativos” de seu papel de figurante, colocando-o como condutor principal da história. Das experiências da independência jamaicana e do desmantelamento dos modelos de sociedade marxistas no Caribe, a estudiosa Sylvia Wynter chega até ao ponto de colocar a eficácia de produções literárias e artísticas acima daquelas da política quando se tem em vista uma futura sociedade emancipada. A Revolução não é assim uma ruptura pontual com o antigo, mas uma reconfiguração continuada do epistema ocidental, da gramática colonial e de sua linguagem. Uma política do poético.


Jeannete Ehrman é Professora-Associada à cátedra de Teoria Política e História das Ideias Universidade Goethe, em Frankfurt e doutorou-se com tese acerca da Revolução Haitiana como crítica e acontecimento da modernidade europeia.

Florian Kappeler é coordenador do Centro de História do Conhecimento da Universidade de Zurique. Seu atual projeto de pesquisa traz o seguinte título: “O Acontecimento Revolucionário. História do Conhecimento de uma Narrativa, 1770-1850”.

Maud Meyzaud é Professora-Assistente de Literatura Alemã Contemporânea e História da Cultura de Mídias na FernUniversität de Hagen. Seu doutorado foi sobre “A Soberania Muda: Povo e Revolução em Georg Büchner e Jules Michelet.

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