Resenha por Engels: “Karl Marx e a Crítica da Economia Política”

Por Friedrich Engels, via marxists.org, traduzido por Gabriel Landi Fazzio

No presente artigo, publicado em 1895, Friedrich Engels faz alguns apontamentos sobre a crítica materialista dialética da economia política. O autor apresenta algumas valiosas reflexões metodológicas acerca da importância de Hegel para a empreitada de Marx.


I

Os alemães há muito demonstraram que, em todas as esferas da ciência, são iguais e, na maioria delas, superiores às outras nações civilizadas. Apenas um ramo da ciência, a economia política, não tinha um nome alemão sequer entre seus principais estudiosos. O motivo é óbvio. A economia política é a análise teórica da sociedade burguesa moderna e, portanto, pressupõe condições burguesas desenvolvidas, condições que durante séculos, após as guerras da Reforma e as guerras camponesas e, especialmente, a Guerra dos Trinta Anos, não puderam se estabelecer na Alemanha. A separação dos Países Baixos do Império removeu a Alemanha das rotas comerciais internacionais e restringiu seu desenvolvimento industrial desde o início à menor das escalas. Enquanto os alemães se recuperavam penosa e lentamente das devastações das guerras civis; enquanto gastavam sua reserva de energia cívica, que nunca fora muito grande, em fútil luta contra as barreiras alfandegárias e absurdas regulamentações comerciais que todo principezinho e barão imperial infligia à indústria de seus súditos; enquanto as cidades imperiais, com suas práticas de corporações artesanais e espírito patrício foram à ruína – Holanda, Inglaterra e França, enquanto isso, conquistaram as posições de liderança no comércio internacional, estabeleceram uma colônia após a outra e levaram a produção manufatureira às alturas do seu desenvolvimento, até finalmente a Inglaterra, com a ajuda da energia a vapor, que fez valer seus depósitos de carvão e ferro, encabeçar o desenvolvimento burguês moderno. Mas a economia política não poderia surgir na Alemanha enquanto ainda tivesse que ser travada uma luta contra resquícios tão absurdamente antiquados da Idade Média como aqueles que dificultavam o desenvolvimento burguês de suas forças materiais até 1830. Somente o estabelecimento da União Aduaneira permitiu aos alemães sequer compreender a economia política. Foi de fato nessa época que os trabalhos econômicos ingleses e franceses começaram a ser importados para o benefício da classe média alemã. Homens de estudo e burocratas logo se apossaram do material importado e o trataram de uma forma que pouco crédito confere ao “intelecto alemão”. Os esforços literários de uma mixórdia de cavaleiros da indústria [chevaliers d’industrie], comerciantes, professores e burocratas produziram diversas publicações econômicas alemãs que, no que diz respeito à vulgaridade, à banalidade, à frivolidade, à verbosidade e ao plágio, são igualadas apenas pelas novelas alemãs. Entre as pessoas que perseguiam objetivos práticos, ergue-se primeiro a escola protecionista dos industriais, cujo principal porta-voz, List, ainda é o melhor que a economia política burguesa alemã produziu, embora sua célebre obra seja inteiramente copiada do francês Ferrier, o teórico criador do Sistema Continental. Em oposição a essa tendência, a escola de livre comércio foi formada nos anos 40 por mercadores das províncias bálticas, que repetiam os argumentos dos mercadores liberais ingleses com uma fé infantil, mas não desinteressada. Finalmente, entre os professores e burocratas que tinham de lidar com os aspectos teóricos, havia colecionadores de herbários acríticos e dessecados, como Herr Rau, especuladores pseudo-inteligentes que traduziram proposições estrangeiras para a língua hegeliana não digerida, como Herr Stein, ou compiladores com pretensões literárias no campo da chamada história da civilização, como Herr Riehl. O resultado de tudo isso foi a cameralística, um molho econômico eclético que cobria uma emrbulhada de trivialidades miúdas, do tipo que um funcionário público júnior poderia achar útil lembrar durante seu exame final.

Assim, enquanto na Alemanha a burguesia, os professores e os burocratas ainda faziam grandes esforços para decorar e mesmo compreender os primeiros elementos da economia política anglo-francesa, que consideravam dogmas incontestáveis, o partido proletário alemão apareceu em cena. Seu aspecto teórico se baseava totalmente em um estudo da economia política, e a economia política alemã como uma ciência independente data também da emergência desse partido. O fundamento essencial dessa economia política alemã é a concepção materialista da história, cujas principais características são brevemente delineadas no “Prefácio” da obra acima mencionada. Uma vez que o “Prefácio” já foi publicado no “Das Volk”, nós nos referimos a ele. A proposição de que “o processo de vida social, política e intelectual é totalmente condicionado pelo modo de produção da vida material”; que todas as relações sociais e políticas, todos os sistemas religiosos e legais, todas as concepções teóricas que surgem no curso da história só podem ser compreendidas se as condições materiais de obtenção da vida durante a época em relevo foram compreendidas e as primeiras foram remontadas a essas condições materiais; foi uma descoberta revolucionária não só para a economia, mas também para todas as ciências históricas – e todos os ramos da ciência que não são ciências naturais são históricos. “Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social que determina sua consciência.” Essa proposição é tão simples que deveria ser autoevidente para qualquer um que não se atolasse em embustes idealistas. Mas conduz a consequências altamente revolucionárias não apenas na esfera teórica, mas também na esfera prática. “Em um certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou – isso apenas expressa a mesma coisa em termos jurídicos – com as relações de propriedade no quadro das quais estas forças têm operado até então. De formas do desenvolvimento das forças produtivas, essas relações se transformam em seus grilhões. Então começa uma era de revolução social. As mudanças na base econômica levam, mais cedo ou mais tarde, à transformação de toda a imensa superestrutura… O modo de produção burguês é a última forma antagônica do processo social de produção, – antagônico não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que emana das condições sociais de existência dos indivíduos – mas as forças produtivas que se desenvolvem dentro da sociedade burguesa criam também as condições materiais para uma solução desse antagonismo”. A perspectiva de uma revolução gigantesca, a maior revolução que já ocorreu, consequentemente apresentou-se a nós assim que buscamos nossa tese materialista e a aplicamos ao tempo presente.

Uma consideração mais atenta mostra imediatamente que já as primeiras consequências da proposição aparentemente simples, de que a consciência dos homens é determinada por sua existência e não o contrário, rechaça todas as formas de idealismo, mesmo as mais ocultas, rejeitando todas as visões convencionais e costumeiras dos temas históricos. Toda a maneira tradicional de raciocínio político fica em polvorosa; a magnanimidade patriótica se opõe indignada a uma tal interpretação tão sem princípios! Era, portanto, inevitável que o novo ponto de vista chocasse não apenas os expoentes da burguesia, mas também a massa de socialistas franceses que pretendiam revolucionar o mundo através da virtude das palavras mágicas, liberté, égalité, fraternite. Enfureceu completamente os vociferantes democratas vulgares alemães. Eles, no entanto, são parciais, uma vez que tentam plagiar as novas ideias em seu próprio interesse, embora com uma excepcional falta de compreensão.

A demonstração da concepção materialista, mesmo que sobre um único exemplo histórico, foi uma tarefa científica que requereu anos de pesquisa silenciosa, pois é evidente que a mera conversa vazia não pode conseguir nada neste contexto e que apenas uma abundância de material histórico examinado criticamente e dominado completamente tornou possível resolver esse problema. Nosso partido foi impelido para o palco político pela Revolução de Fevereiro e, assim, impedido de perseguir objetivos puramente científicos. A concepção fundamental, contudo, corre como um fio ininterrupto através de todas as produções literárias do partido. Cada uma delas mostra que as ações em cada caso particular foram invariavelmente iniciadas por causas materiais e não pelas frases que as acompanham; que, ao contrário, as frases políticas e legais, como as ações políticas e seus resultados, se originaram em causas materiais.

Após a derrota da Revolução de 1848-49, numa época em que se tornou cada vez mais impossível exercer influência sobre a Alemanha a partir do exterior, nosso partido renunciou ao campo das disputas de emigrantes – pois essa foi a única ação viável à esquerda – em favor dos democratas vulgares. Enquanto estes perseguiam o conteúdo de seus corações, brigando hoje, confraternizando amanhã e no dia seguinte lavando sua roupa suja em público; enquanto medigavam através da América e imediatamente após começavam outra briga pela divisão das poucas moedas que haviam coletado – nosso grupo ficou feliz em encontrar mais uma vez algum tempo tranquilo para o trabalho de pesquisa. Teve a grande vantagem de que sua fundamentação teórica era uma nova concepção científica cuja elaboração propiciava um trabalho adequado; até mesmo por essa razão, nunca poderia se tornar tão desmoralizado quanto os “grandes homens” da emigração.

O livro em consideração é o primeiro resultado desses estudos.

II

O propósito de um trabalho como o que está sendo resenhado não pode ser simplesmente uma crítica desconexa a seções separadas da economia política ou a discussão de uma ou outra questão econômica isoladamente. Pelo contrário, é desde o início concebido para fornecer um resumo sistemático de todo o complexo da economia política e uma elaboração coerente das leis que governam a produção burguesa e o intercâmbio burguês. Essa elaboração é, ao mesmo tempo, uma crítica abrangente da literatura econômica, pois os economistas nada mais são do que intérpretes e apologistas dessas leis.

Quase não se tentou, desde a morte de Hegel, estabelecer qualquer ramo da ciência em sua coerência interna específica. A escola hegeliana oficial havia assimilado apenas os dispositivos mais simples da dialética do mestre e aplicado-os a tudo e a qualquer coisa; muitas vezes, além do mais, com uma incompetência ridícula. Toda a herança de Hegel era, no que dizia respeito a eles, confinada exclusivamente a um modelo, por meio do qual qualquer assunto podia ser moldado, e a um conjunto de palavras e frases cujo único propósito restante era o de aparecer, convenientemente, sempre que sofresse com qualquer falta de ideias e de conhecimento concreto. Assim foi, como disse um professor em Bonn, que esses hegelianos não sabiam nada além de escrever sobre tudo. Os resultados foram, naturalmente, de acordo. Apesar de todos os seus conceitos, esses cavalheiros estavam, no entanto, suficientemente conscientes de suas falhas para que evitassem maiores problemas, tanto quanto fosse possível. O obsoleto tipo de aprendizado fossilizado manteve-se firme por causa de seu conhecimento factual superior e, após a renúncia de Feuerbach ao método especulativo, o hegelianismo gradualmente desapareceu, e parecia que a ciência era mais uma vez dominada pela metafísica antiquada, com suas categorias rígidas.

Para isso havia razões bastante naturais. Ao domínio do Diádoco Hegeliano [seus sucessores especulativos], que terminou em frases vazias, seguiu-se naturalmente um período em que o conteúdo concreto da ciência predominou mais uma vez sobre o aspecto formal. Além disso, a Alemanha, ao mesmo tempo, aplicou-se com energia extraordinária às ciências naturais, de acordo com o imenso desenvolvimento burguês de 1848; com a chegada à moda dessas ciências, na qual a tendência especulativa nunca alcançou qualquer importância real, o velho modo de pensar metafísico, até mesmo a trivialidade extrema de Wolff, ganhou terreno rapidamente. Hegel foi esquecido e um novo materialismo surgiu nas ciências naturais; diferia em princípio muito pouco do materialismo do século XVIII e sua principal vantagem era apenas um estoque maior de dados relativos às ciências naturais, especialmente a química e a fisiologia. O estreito modo de pensar do período pré-kantiano em sua forma mais banal é reproduzido por Büchner e Vogt, e até mesmo Moleschott, (que jura por Feuerbach) e frequentemente tropeça de maneira tortuosa através das categorias mais simples. A estafada carroça do lugar-comum mental burguês esmorece, é claro, em confusão diante do fosso que separa a substância da aparência e a causa do efeito; mas não deve cavalgar em carroças aquele que pretende percorrer o terreno acidentado do raciocínio abstrato.

Neste contexto, portanto, havia de ser resolvida uma questão que não estava ligada à economia política como tal. Qual método científico deveria ser usado? Havia, por um lado, a dialética hegeliana, na forma bastante “especulativa” na qual Hegel a deixara e, por outro lado, o método metafísico comum, principalmente wolffiano, que havia entrado novamente em voga, e que era também empregado pelos economistas burgueses para escrever seus grossos volumes divagadores. O segundo método fora teoricamente demolido por Kant e particularmente por Hegel, de modo que seu uso continuado na prática só era possível pela inércia e pela ausência de um método simples alternativo. O método hegeliano, por outro lado, estava bastante inaplicável em sua forma existente. Era essencialmente idealista e o ponto principal, nesse caso, era a elaboração de uma visão de mundo mais materialista do que qualquer outra anterior. O método de Hegel tomou como ponto de partida o pensamento puro, enquanto aqui o ponto de partida deveriam ser os fatos inexoráveis. Um método que, de acordo com a sua própria declaração, “veio do nada, através do nada, rumo ao nada”, não tinha, nessa forma, qualquer adequação. Era, contudo, o único elemento em todo o material lógico disponível que poderia, pelo menos, servir como ponto de origem. Não fora submetido a críticas, não fora derrubado; nenhum dos oponentes do grande dialectista conseguira rachar o orgulhoso edifício. Fora esquecido porque a escola hegeliana não sabia como aplicá-lo. Por isso, foi antes de tudo essencial realizar uma crítica completa do método hegeliano.

Foi o excepcional sentido histórico subjacente ao modo de Hegel raciocinar que o distinguiu de todos os outros filósofos. Por mais abstrata e idealista que tenha sido a forma empregada, sua evolução de ideias segue sempre em paralelo com a evolução da história universal, e a última deveria ser apenas a prova da primeira. Embora isso revertesse a relação real e a mantivesse de ponta-cabeça, o conteúdo real era invariavelmente incorporado à sua filosofia, especialmente porque Hegel – ao contrário de seus seguidores – não se fiava na ignorância, mas era um dos pensadores mais eruditos de todos os tempos. Ele foi o primeiro a tentar demonstrar que há uma evolução, uma coerência intrínseca na história, e por mais estranhas que algumas coisas em sua filosofia da história possam parecer para nós agora, a grandeza da concepção básica é admirável ainda hoje, comparada tanto a seus antecessores e quanto àqueles que, o seguindo, se aventuraram a fazer observações históricas gerais. Essa concepção monumental da história permeia as “Fenomenologias”, a “Estética” e a “História da Filosofia”, e o material está em toda parte exposto historicamente, em um contexto histórico definido, ainda que de maneira abstrata e distorcida.

Essa concepção pioneira da história foi uma pré-condição teórica direta da nova perspectiva materialista, e já isso constituiu um elo com o método lógico. Visto que, mesmo do ponto de vista da “razão pura”, essa dialética esquecida tivesse levado a tais resultados e, além disso, tivesse com grande facilidade batido toda a lógica e metafísica anteriores; ela deveria, em todo caso, ser algo mais do que mero sofisma e pedantismo. Mas a crítica desse método, ao que toda a filosofia oficial havia escapado e ainda evita, não era uma questão pequena.

Marx foi e é o único que pôde empreender o trabalho de extrair da lógica hegeliana o núcleo que contém as verdadeiras descobertas de Hegel nesse campo e de estabelecer o método dialético, despojado de seus invólucros idealistas, na forma simples em que ele se torna o único modo correto de evolução conceitual. A elaboração do método subjacente à crítica de Marx à economia política é, acreditamos, um resultado não menos significativo do que a concepção materialista básica.

Mesmo após a determinação do método, a crítica da economia ainda poderia ser organizada de duas maneiras – histórica ou logicamente. Como, no curso da história, tanto quanto em seu reflexo literário, a evolução procede em geral das relações mais simples para as mais complexas; o desenvolvimento histórico da economia política constituiu uma pista natural, que a crítica poderia tomar como ponto de partida, e então as categorias econômicas apareceriam no todo na mesma ordem que na exposição lógica. Essa forma parece ter a vantagem de uma lucidez maior, pois ela traçaria o desenvolvimento real; mas, na verdade, ela se tornaria, no máximo, mais popular. A história move-se frequentemente em trancos e barrancos e numa linha em ziguezague, e como ela teria de ser seguida em sua totalidade, significaria não apenas que uma quantidade considerável de material de pequena importância teria de ser incluído, mas também que a linha de pensamento frequentemente teria que ser interrompida; seria, além disso, impossível escrever a história da economia sem a da sociedade burguesa, e a tarefa se tornaria assim imensa, devido à ausência de todos os estudos preliminares. O método lógico de abordagem foi, portanto, o único adequado. Este, no entanto, não é mais do que o método histórico, apenas despojado da forma histórica e dos desvios das ocorrências aleatórias. [1] O ponto onde essa história começa também deve ser o ponto de partida da linha de pensamento, e seu progresso ulterior será simplesmente o reflexo, em forma abstrata e teoricamente consistente, do curso histórico. Embora o reflexo seja corrigido, ele é corrigido de acordo com as leis fornecidas pelo curso histórico real, uma vez que cada fator pode ser examinado no estágio de desenvolvimento em que atinge sua plena maturidade, sua forma clássica.

Com este método, começamos com a primeira e mais simples relação que está historicamente disponível neste contexto, portanto, com a primeira relação econômica a ser encontrada. Nós analisamos essa relação. O fato de ser uma relação já implica que ela tem dois aspectos relacionados entre si. Cada um desses aspectos é examinado separadamente; isso revela a natureza de seu comportamento mútuo, sua ação recíproca. Contradições surgirão exigindo uma solução. Mas como não estamos examinando um processo mental abstrato que ocorre apenas em nossa mente, mas um evento real que realmente ocorreu em algum momento ou outro, ou que ainda está ocorrendo, essas contradições terão surgido na prática e provavelmente já foram resolvidas. Nós devemos rastrear o modo dessa solução e descobrir que ela foi efetuada estabelecendo-se uma nova relação, cujos dois aspectos contraditórios deveremos então estabelecer, e assim por diante.

A economia política começa com mercadorias, com o momento em que os produtos são trocados, seja por indivíduos ou por comunidades primitivas. O produto que está sendo trocado é uma mercadoria. Mas é uma mercadoria meramente em virtude da coisa, estando o produto ligado a uma relação entre duas pessoas ou comunidades, a relação entre produtor e consumidor, que nesse estágio não estão mais unidos na mesma pessoa. Eis aqui, ao mesmo tempo, um exemplo de um fato peculiar que permeia toda a economia e produziu sérias confusões nas mentes dos economistas burgueses – a economia não está preocupada com as coisas, mas com as relações entre as pessoas e, em última análise, entre as classes; essas relações, no entanto, estão sempre ligadas às coisas e aparecem como coisas. Embora alguns economistas tivessem uma ideia dessa conexão em casos isolados, Marx foi o primeiro a revelar seu significado para toda a economia, tornando os problemas mais difíceis tão simples e claros que até mesmo os economistas burgueses conseguirão compreendê-los.

Se examinarmos os vários aspectos da mercadoria, isto é, da mercadoria totalmente evoluída e não como a princípio surge lentamente na troca espontânea de duas comunidades primitivas, ela se apresenta a nós a partir de dois ângulos, o do valor de uso e do valor de troca, e assim chegamos imediatamente à província do debate econômico. Qualquer um que deseje encontrar um exemplo marcante do fato de que o método dialético alemão em seu atual estágio de desenvolvimento é, ao menos, tão superior ao velho método metafísico, superficialmente simplista, quanto as ferrovias os são em relação aos meios de transporte medievais, deve procurar Adam Smith ou qualquer outro economista autorizado de renome para ver o quanto de aflição o valor de troca o e valor de uso causou a estes cavalheiros, a dificuldade que tiveram em distinguir os dois apropriadamente e em expressar a forma determinada peculiar a cada – e então comparar a exposição clara e simples dada por Marx

Depois que o valor de uso e o valor de troca foram expostos, a mercadoria como uma unidade direta dos dois é descrita conforme ela entra em processo de troca. As contradições que surgem aqui podem ser encontradas nas páginas 20 e 21. Apenas notamos que essas contradições não são apenas de interesse por razões teóricas abstratas, mas que elas também refletem as dificuldades originadas da natureza do intercâmbio direto, ou seja, simples permuta, e as impossibilidades inevitavelmente confrontando esta primeira crua forma de troca. A solução dessas impossibilidades é alcançada uma vez que uma mercadoria específica – dinheiro – se investe com o atributo de representar o valor de troca de todas as outras mercadorias. O dinheiro ou a circulação simples são então analisados no segundo capítulo, a saber: (1) o dinheiro como uma medida de valor e, ao mesmo tempo, o valor medido em termos de dinheiro, isto é, o preço, é mais estreitamente definido; (2) dinheiro como meio de circulação e (3) a unidade dos dois aspectos, dinheiro real que representa a riqueza material burguesa como um todo. Isto conclui a primeira parte; a conversão de dinheiro em capital é deixada para a segunda parte.

Pode-se ver que, com esse método, a exposição lógica não precisa de modo algum ficar confinada à esfera puramente abstrata. Pelo contrário, requer ilustração histórica e contato contínuo com a realidade. Uma grande variedade de tais evidências é, portanto, inserida, compreendendo tanto referências a diferentes estágios no curso histórico real do desenvolvimento social quanto a obras econômicas, nas quais a elaboração de definições lúcidas de relações econômicas é traçada desde o início. A crítica de interpretações particulares, mais ou menos unilaterais ou confusas é, portanto, substancialmente dada já na exposição lógica e pode ser mantida bastante curta.

O conteúdo econômico do livro será discutido em um terceiro artigo.


Esta resenha foi publicada, originalmente, em Londres, no ano de 1895, no jornal alemão “Das Volk”. O terceiro e último artigo não veio à luz, no entanto, por conta do fechamento do jornal.

[1] Nota do tradutor: Frequentemente, tal passagem da resenha de Engels é utilizada (notadamente por Ingo Elbe, entre os demais membros da “Nova” Crítica do Valor) para acusar o autor de um “materialismo mecanicista”: segundo esses senhores, Engels estaria fazendo uma “interpretação historicista do método formal-genético” de Marx. Contudo, é o próprio Marx quem aponta para essa compreensão metodológica dialética (nem puramente lógico-formal e idealista; nem puramente histórico-concreta e empirista, a la materialismo metafísico), no capítulo “O Método da Economia Política”, na “Contribuição à Crítica da Economia Política” (grifamos, ao fim):

“Mas, acaso essas categorias simples não têm também uma existência independente, seja histórica, seja natural, anterior à existência das mais concretas? Ça dépend. Por exemplo, Hegel começa de modo correto a Filosofia do Direito pela posse, que é a relação juridicamente mais simples de um sujeito de direito, embora não haja posse antes da família e das relações de domínio e servidão, muito mais concretas do que ela. Seria, assim, correto dizer, pelo contrário, que existem famílias, grupos tribais que ainda só possuem e não têm propriedade. No que se refere à propriedade, a categoria mais simples aparece, então, como relação entre comunidades simples de famílias ou de tribos. Na sociedade superior, ela aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida. O substrato mais concreto, cuja relação é a posse, está, porém, sempre pressuposto. Podemos nos representar um indivíduo silvícola isolado que possui. Mas a posse, no caso, não seria uma relação jurídica. É incorreto dizer que a posse desenvolve-se historicamente até a família, quando, ao contrário, ela sempre pressupõe esta “categoria jurídica mais concreta”. Continua, no entanto, a ser sempre uma verdade que as categorias simples são uma expressão de relações sob as quais o concreto não desenvolvido pode realizar-se, sem ainda ter posto a relação mais multilateral, que é expressa espiritualmente na categoria mais concreta, ao passo que o concreto mais desenvolvido conserva a mesma categoria como uma relação subordinada. O dinheiro pode existir e existiu historicamente, antes de existirem o capital, os bancos, o trabalho assalariado etc. Por esse lado, é também lícito dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo não desenvolvido ou relações subordinadas de um todo mais desenvolvido que já existiam historicamente antes de esse todo se desenvolver por esse lado expresso numa categoria mais concreta. Em tal medida, a marcha do pensamento abstrato, ao se elevar do mais simples ao complexo, corresponderia ao processo histórico efetivamente real.

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2 comentários em “Resenha por Engels: “Karl Marx e a Crítica da Economia Política”

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  1. Este prefácio de F. Engels «Karl Marx, “Para a Crítica da Economia Política”» foi publicado em 1859 no jornal Das Volk, n. 14e 16, de 6 e 20 de Agosto, e não em 1895, como diz esta transcrição. Além deste reparo digo que a tradução é péssima, compare-se com a que vem nas Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo 1, Edições Avante!-Edições Progresso, Lisboa, Portugal, 1982,

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