Será nosso futuro o socialismo capitalista chinês?

Por Slavoj Žižek, via RT, traduzido por Bernardo Pereira

Apesar de algumas eventuais exceções, já foi considerado como verdade absoluta que democracia e capitalismo andam juntos. A ascensão bem-sucedida da China é um tapa na cara de tal ideia.


Sociólogos oficiais da China pintam um quadro do mundo contemporâneo que permanece basicamente o mesmo da Guerra Fria.

Assim, a luta mundial entre o socialismo e o capitalismo continua inalterada, o fiasco de 1990 foi apenas um revés temporário e os dois grandes adversários não são mais os EUA e a URSS, mas, sim, os Estados Unidos e a China, que continua sendo um país socialista.

Aqui, a explosão do capitalismo na China é interpretado como um gigantesco caso do que, no início da União Soviética, era chamado de Nova Política Econômica. Dessa maneira, o que se tem na China hoje é um novo “socialismo com características chinesas”, mas ainda socialismo. O Partido Comunista continua no poder e, firmemente, controla e direciona as forças de mercado.

De fato, Domenico Losurdo, o marxista italiano que faleceu em Junho desse ano, elaborou esse argumento em detalhes, argumentando contra o “puro” marxismo que deseja implantar uma nova sociedade comunista imediatamente após a revolução, em favor de uma visão mais “realista”, que advoga uma abordagem gradual, com reviravoltas e fracassos.

Racionalizando a Realidade

Roland Boer, professor universitário em Pequim, evoca a memorável imagem de Losurdo bebendo uma xícara de chá em uma movimentada rua de Xangai, em Setembro de 2016: “Em meio ao alvoroço, ao tráfego, às propagandas, às lojas e ao ímpeto claramente econômico do lugar, Domenico disse: ‘Estou feliz com isso. Isso é o que o socialismo pode fazer’! Ele respondeu, em seguida, o meu olhar trocista com um sorriso: ‘Eu sou profundamente a favor da reforma e da abertura’”.

Boer prossegue, então, apresentando o argumento em favor dessa abertura: “A maioria dos esforços havia sido direcionada para relações de produção, com foco na igualdade socialista e na iniciativa coletiva. Isto tudo é muito bom, mas se todos forem iguais simplesmente por todos serem pobres, poucos veriam o benefício. Então Deng [Xiaoping], e aqueles trabalhando com ele, começaram a enfatizar uma outra dimensão do marxismo: a necessidade de libertar as forças de produção”.

Para o marxismo, contudo, “libertar as forças de produção” não é “uma outra dimensão” sua, mas o próprio objetivo da transformação das relações de produção.

Esta é a clássica formulação de Marx: “Em um certo estágio de desenvolvimento, as forças materiais produtivas da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes ou – e isto apenas expressa a mesma coisa em termos legais – com as relações de propriedade dentro da moldura na qual elas têm operado até agora. De formas de desenvolvimento das forças de produção, estas relações se transformam em seus grilhões. Então se inicia uma era de revolução social”.

A ironia é que, para Marx, o comunismo emerge quando aspectos capitalistas da produção se tornam um obstáculo para o maior desenvolvimento dos meios de produção. Isso significa que este desenvolvimento só pode ser assegurado por um progresso (súbito ou gradual) de uma economia de mercado capitalista para uma economia socializada.

Mas as “reformas” de Deng Xiaoping invertem Marx. Em um determinado ponto, tem-se que voltar ao capitalismo para tornar possível o desenvolvimento econômico do socialismo.

Mudança Completa

Existe aqui, claro, uma ironia mais profunda e de difícil superação. A esquerda do século XX foi definida por sua oposição a duas tendências da modernidade: o reino do capital com seu agressivo individualismo e sua dinâmica alienante; e o poder estatal autoritário-burocrático.

O que se tem na China de hoje é exatamente uma combinação dessas duas características: um Estado fortemente autoritário e uma selvagem dinâmica capitalista.

Marxistas ortodoxos gostavam de empregar o termo “síntese dialética dos opostos”, sugerindo que o verdadeiro progresso ocorre quando se junta o melhor de ambas as tendências opostas. Mas parece que a China foi bem-sucedida por juntar o que nós considerávamos o pior de ambas as tendências opostas (capitalismo liberal e autoritarismo comunista).

Anos atrás, um cientista social chinês, que possuía ligações com a filha de Deng Xiaoping, me contou uma interessante anedota. Quando Deng estava morrendo, um de seus acólitos lhe prestou uma visita e perguntou qual teria sido seu maior ato, esperando a resposta mais comum, isto é, que ele mencionaria sua abertura econômica que trouxe tanto desenvolvimento para a China.

Para a sua surpresa, ele respondeu: “Não, meu grande ato foi que, quando a liderança decidiu abrir a economia, eu resisti à tentação de fazer o serviço completo, e abrir também a vida política à democracia multipartidária”. (De acordo com algumas fontes, esta tendência de fazer o serviço completo era bastante forte em alguns círculos do Partido e a decisão de manter o controle partidário não foi, de forma alguma, preestabelecida).

Caso Teste

Nós devemos aqui resistir à tentação liberal de sonhar acerca de como o progresso econômico teria sido ainda mais rápido, caso a China realizasse uma abertura também para a democracia política: e se a democracia política gerasse novas instabilidades e tensões que dificultassem o progresso econômico, como se testemunhou na maior parte da União Soviética?

E se este progresso (capitalista) fosse exequível apenas em uma sociedade dominada por forte poder autoritário? Lembremos da clássica tese marxista acerca da Inglaterra no início dos tempos modernos: era do interesse da própria burguesia deixar o poder político nas mãos da aristocracia e manter para si o poder econômico. Talvez algo análogo esteja acontecendo hoje na China: era do interesse dos novos capitalistas deixar o poder político nas mãos do Partido Comunista.

O filósofo alemão Peter Sloterjidk observou que, se há uma pessoa para quem se construirá monumentos daqui a cem anos, esta pessoa é Lee Kuan Yew, o líder singapuriano que inventou e implementou o chamado “capitalismo com valores asiáticos” (que não tem nada a ver, é claro, com a Ásia, mas tem tudo a ver com o capitalismo autoritário).  Entretanto, o vírus deste capitalismo autoritário está lenta, mas seguramente, se espalhando ao redor do mundo. Antes de por em marcha suas reformas, Deng Xiaoping visitou Singapura e elogiou expressamente o país como modelo de tudo o que a China deveria seguir.

Esta mudança tem um significado histórico-mundial. Pois, até agora, o capitalismo pareceu inextricavelmente ligado à democracia. Houve, é claro, de tempos em tempos, momentos em que se recorreu a ditaduras diretas, mas, depois de uma ou duas décadas, a democracia se impôs novamente (basta lembrar dos casos da Coreia do Sul e do Chile).

Agora, no entanto, a ligação entre democracia e capitalismo foi quebrada. É, então, bem possível que nosso futuro seja moldado pelo “socialismo capitalista” chinês – que, definitivamente, não é o socialismo com que sonhávamos.

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