As tarefas dos social-democratas russos

Por Vladimir Ilitch “Lenin” Ulyanov, via Marxists.org, traduzido por Gabriel V. Lazzari

Aqueles que acusam os social-democratas russos de terem uma visão estreita, de tentarem focar nos trabalhadores fabris em detrimento da massa da população trabalhadora, estão profundamente equivocados. Ao contrário, a agitação entre os setores avançados do proletariado é o mais certeiro e único jeito de insurgir (quando da expansão do movimento) o proletariado russo inteiro.


A segunda metade dos anos 90 [década de 1890] testemunhou um aumento notável no trabalho sendo feito em apresentar e solucionar os problemas da revolução russa. A aparição de um novo partido revolucionário, o Narodnoye Pravo [1], a influência e os sucessos crescentes dos Social-democratas, a evolução dentro do Narodnaya Volya [2] – tudo isso promoveu uma discussão viva sobre as questões de programa tanto em círculos de estudo de intelectuais e trabalhadores socialistas quanto na literatura ilegal. Nessa última esfera, devemos referenciar o “Uma questão urgente” e o “Manifesto” (1894) do Partido Narodnoye Pravo, o Panfleto do Grupo Narodnaya Volya, o Rabotnik publicado no exterior pela Liga dos Social-democratas Russos [3], à distribuição ascendente de panfletos revolucionários na Rússia, principalmente para trabalhadores, e a agitação conduzida pela Liga Social-Democrata de Luta para a Emancipação da Classe Trabalhadora em São Petersburgo durante as importantes greves feitas lá em 1896 etc.

Nos dias de hoje (final de 1897), a questão mais urgente, em nossa opinião, é a das atividades práticas dos Social-democratas. Nós enfatizamos o lado prático da Social-democracia, porque, no lado teórico, o período mais crítico – o período de uma recusa teimosa dos seus oponentes em entendê-la, dos esforços extenuantes em suprimir a nova tendência no momento em que ela emergia, por um lado, e de uma defesa leal dos fundamentos da Social-democracia, por outro – ficou aparentemente para trás. Agora as características principais e básicas das visões teóricas dos Social-democratas já foram suficientemente esclarecidas. O mesmo não se pode dizer do lado prático da Social-democracia, sobre seu programa político, seus métodos, suas táticas. Nessa esfera, pensamos, a apreensão equivocada e o desentendimento mútuo têm majoritariamente prevalecido, prevenindo uma reaproximação completa entre a Social-democracia e aqueles revolucionários que em teoria renunciaram completamente aos princípios do Narodnaya Volya e na prática são ou levados pela força das circunstâncias a continuar a propaganda e a agitação entre os trabalhadores – mais do que isso: a conduzir suas atividades entre os trabalhadores embasados pela luta de classes – ou se esforçam por basear seu programa todo e suas atividades revolucionárias em tarefas democráticas. Se não estivermos errados, a última descrição se encaixa em dois grupos revolucionários que operam hoje na Rússia, paralelamente aos Social-democratas, nomeadamente, o Narodnaya Volya e o Narodnoye Pravo.

Nós pensamos, portanto, que é particularmente oportuno tentar explicar as tarefas práticas dos Social-democratas e estabelecer a base sobre a qual nós consideramos seu programa [o dos Social-democratas] o mais racional dos três que hoje existem e também que os argumentos contra ele são baseados em grande medida em desentendimentos.

O objeto das atividades práticas dos Social-democratas é, como é bem conhecido, liderar a luta de classe do proletariado e organizar essa luta nas suas duas manifestações: a socialista (a luta contra a classe capitalista no rumo de destruir o sistema de classes e organizar a sociedade socialista) e a democrática (a luta contra o absolutismo rumo às liberdades políticas na Rússia e à democratização do sistema político e social da Rússia). Dissemos como é bem conhecido. E de fato, desde o momento em que apareceram como uma tendência social-revolucionária separada, os Social-democratas Russos sempre indicaram de forma suficiente definida o objeto de suas atividades, sempre enfatizaram a manifestação e o conteúdo duais da luta de classe do proletariado e sempre insistiram na inseparável conexão entre as tarefas socialistas e democráticas – uma conexão claramente expressa no nome que adotaram. Apesar disso, até hoje se encontram com frequência socialistas que têm as mais distorcidas noções sobre os Social-democratas e os acusam de ignorar a luta política etc. Alonguemo-nos, portanto, um pouquinho na descrição de ambos aspectos das atividades práticas da Social-democracia Russa.

Comecemos pela atividade socialista. Alguns poderiam pensar que o caráter da atividade social-democrata a esse respeito já ficou bastante claro desde a  Liga Social-Democrata de Luta para a Emancipação da Classe Trabalhadora em São Petersburgo começou suas atividades entre os trabalhadores petersburgueses. As atividades socialistas dos Social-democratas Russos consiste em espalhar por meio da propaganda os ensinamentos do socialismo científico, em espalhar entre os trabalhadores um entendimento apropriado do sistema social e econômico atual, suas bases e seu desenvolvimento, um entendimento das várias classes que há na sociedade russa, suas inter-relações, da luta entre essas classes, do papel da classe trabalhadora nessa luta, da sua atitude [da classe trabalhadora] frente às classes em declínio e em desenvolvimento, frente ao passado e ao futuro do capitalismo, um entendimento da tarefa histórica da social-democracia internacional e da classe trabalhadora russa. Inseparavelmente conectada com a propaganda está a agitação entre os trabalhadores, que naturalmente é a vanguarda nas condições políticas atuais da Rússia e no atual nível de desenvolvimento das massas de trabalhadores. A agitação entre os trabalhadores significa que os Social-democratas participam em todas as manifestações espontâneas de luta da classe trabalhadora, em todos os conflitos entre os trabalhadores e os capitalistas sobre a jornada de trabalho, salários, condições de trabalho etc. etc. Nossa tarefa é misturar nossas atividades com as questões práticas, cotidianas, da vida da classe trabalhadora, ajudar os trabalhadores a entenderem essas questões, levar a atenção dos trabalhadores aos abusos mais importantes, ajudá-los a formular suas demandas para os empregadores de forma mais precisa e prática, desenvolver entre os trabalhadores a consciência de sua solidariedade, de seus interesses comuns e da causa comum de todos os trabalhadores russos como uma classe trabalhadora unida que é parte de um exército internacional do proletariado. Organizar círculos de estudo entre os trabalhadores, estabelecer conexões secretas e apropriadas entre eles e o grupo central dos Social-democratas, publicar e distribuir literatura da classe trabalhadora, organizar o recebimento de correspondência de todos os centros do movimento da classe trabalhadora, publicar panfletos agitativos e manifestos e distribui-los e treinar um corpo de agitadores experientes – essas são, em linhas gerais, as manifestações das atividades socialistas da Social-democracia Russa.

Nosso trabalho é primeira e principalmente dirigido aos trabalhadores urbanos fabris. A Social-democracia Russa não pode dissipar suas forças; ela precisa concentrar suas atividades no proletariado industrial, que é mais suscetível às ideias social-democratas, mais desenvolvido intelectual e politicamente e mais importante em virtude de sua quantidade e de sua concentração nos grandes centros políticos do país. A criação de uma organização revolucionária durável entre os trabalhadores urbanos fabris é portanto a primeira e mais urgente tarefa a confrontar a Social-democracia, uma tarefa da qual não seria sábio nós nos afastarmos no momento atual. Mas, mesmo reconhecendo a necessidade de concentrar nossas forças nos trabalhadores fabris e nos opondo à dissipação de nossas forças, nós não queremos de maneira alguma sugerir que a Social-democracia Russa ignore outras camadas do proletariado e da classe trabalhadora russos. Nada desse tipo. As próprias condições de vida dos trabalhadores fabris russos muitas vezes os levam a entrar em relações mais próximas com os artesãos, o proletariado industrial disperso fora das fábricas em cidades e vilas, e cujas condições são infinitamente piores. O trabalhador fabril russo também entre em contato direto com a população rural (muitas vezes a família do trabalhador fabril mora no interior) e, consequentemente, ele não pode senão ter um contato próximo com o proletariado rural, com os muitos milhões de trabalhadores rurais regulares e trabalhadores diaristas, e também com os camponeses arruinados que, enquanto se agarram a seus miseráveis pedaços de terra, precisam quitar suas dívidas e aceitar todo tipo de “trabalho casual”, ou seja, também são trabalhadores assalariados. Os Social-democratas Russos pensam que é inoportuno enviar suas forças para o meio dos artesãos e trabalhadores rurais, mas de forma alguma pretendem ignorá-los; eles tentaram iluminar os trabalhadores avançados também nas questões que afetam as vidas dos artesãos e dos trabalhadores rurais, de modo que quando aqueles trabalhadores entrarem em contato com as camadas mais atrasadas do proletariado, eles vão imbui-los das ideias da luta de classes, do socialismo e das tarefas da democracia russa em geral e do proletariado russo em particular. É pouco prático enviar agitadores para o meio de artesãos e trabalhadores rurais quando há ainda tanto trabalho a ser feito entre os trabalhadores urbanos fabris, mas em muitos casos o trabalhador socialista entra, querendo ou não, em contato com essas pessoas e precisa saber tirar vantagem dessas oportunidades e entender as tarefas gerais da Social-democracia na Rússia. Dessa forma, aqueles que acusam os Social-democratas Russos de terem uma visão estreita, de tentarem focar nos trabalhadores fabris em detrimento da massa da população trabalhadora, estão profundamente equivocados. Ao contrário, a agitação entre os setores avançados do proletariado é o mais certeiro e único jeito de insurgir (quando da expansão do movimento) o proletariado russo inteiro. A disseminação do socialismo e da ideia da luta de classes entre os trabalhadores urbanos vai inevitavelmente fazer com que essas ideias circulem pelos canais menores e mais dispersos. Isso requer que essas ideias criem raízes profundas entre os elementos melhor preparados e se espalhem pela vanguarda do movimento da classe trabalhadora russa e da revolução russa. Mesmo concentrando todas as suas forças em atividades entre os trabalhadores fabris, a Social-democracia Russa está pronta para apoiar todos aqueles revolucionários russos que, na prática, baseiam suas atividades socialistas na luta de classe do proletariado; mas ela não esconde nem um pouco a questão de que nenhuma aliança prática com outros grupos de revolucionários pode, ou deve, levar a compromissos ou concessões em matéria de teoria, programa ou bandeira. Convencidos de que a doutrina do socialismo científico e a luta de classes é a única teoria revolucionária que pode hoje servir como bandeira do movimento revolucionário, os Social-democratas Russos se empenharão nos maiores esforços para espalhar essa doutrina, para resguardá-la ante qualquer falsa interpretação e para combater toda tentativa de impor doutrinas mais vagas no ainda jovem movimento da classe trabalhadora na Rússia. As razões teóricas provam e as atividades práticas dos Social-democratas mostram que todos os socialistas da Rússia deveriam se tornar Social-democratas.

Lidemos agora com as tarefas democráticas e com o trabalho democrático dos Social-democratas. Repitamos, mais uma vez, que esse trabalho é inseparavelmente conectado à atividade socialista. Ao conduzir a propaganda junto aos trabalhadores, os Social-democratas não podem evitar problemas políticos, e sequer devem desviar de qualquer tentativa de evitá-los, ou mesmo de empurrá-los para o lado, como um erro profundo e um desvio dos princípios básicos da Social-democracia internacional. Simultaneamente à disseminação do socialismo científico, os Social-democratas Russos se deram a tarefa de propagar ideias democráticas entre as massas da classe trabalhadora; eles se esforçam para espalhar um entendimento do absolutismo em todas as suas manifestações, de seu conteúdo de classe, da necessidade de derrubá-lo, da impossibilidade de levar a cabo uma luta bem-sucedida pela causa dos trabalhadores sem conquistarmos a liberdade política e a democratização do sistema político e social da Rússia. Ao conduzir agitação entre os trabalhadores sobre suas demandas econômicas imediatas, os Social-democratas inseparavelmente ligam isso com a agitação das necessidades políticas imediatas, com a angústia e com as demandas da classe trabalhadora, com a agitação contra a tirania policial, manifestada em cada greve, em cada conflito entre trabalhadores e capitalistas, com a agitação contra a restrição de direitos de trabalhadores como cidadãos russos em geral e como a classe que sofre a pior opressão e que tem os menores direitos em particular, com a agitação contra todo proeminente representante e lacaio do absolutismo que entre em contato direto com os trabalhadores e que claramente revela à classe trabalhadora sua condição de escravidão política. Assim como não há nenhum problema que afeta a vida dos trabalhadores no campo econômica que possa ser deixado sem uso para a agitação econômica, nenhum problema no campo político deixa de servir como matéria para agitação política. Esses dois tipos de agitação estão inseparavelmente conectados nas atividades dos Social-democratas como dois lados da mesma moeda. A agitação econômica e a política são igualmente necessárias para o desenvolvimento da consciência de classe do proletariado; ambas são igualmente necessárias para guiar a luta de classes dos trabalhadores russos, porque toda luta de classe é uma luta política. Ao despertar a consciência de classe dos trabalhadores, ao organizar, disciplinar e treiná-los para a ação unificada e para a luta pelos ideais da Social-democracia, ambos os tipos de agitação vão capacitar os trabalhadores para testar sua força em problemas imediatos e necessidades imediatas, para espremer concessões parciais dos seus inimigos e assim melhorar sua condição econômica, para obrigar os capitalistas a considerar a força dos trabalhadores organizados, para obrigar o governo a aumentar os direitos dos trabalhadores, prestar atenção em suas demandas e manter o governo em constante medo da hostilidade das massas de trabalhadores guiadas por uma forte organização social-democrata.

Apontamos para a íntima e inseparável conexão entre a propaganda e a agitação socialista e democrática, para o completo paralelismo da atividade revolucionária em ambas esferas. Mesmo assim, há uma grande diferença entre esses dois tipos de atividade e luta. A diferença é que na luta econômica o proletariado ergue-se absolutamente sozinho tanto contra a nobreza dona de terras, quanto contra a burguesia, excetuando, talvez, pela ajuda que recebe (e de jeito nenhum isso acontece sempre) daqueles elementos da pequena burguesia que gravitam na direção do proletariado. Na luta democrática, política, no entanto, a classe trabalhadora russa não está sozinha; ao seu lado estão todos os elementos, camadas e classes de oposição política, desde que sejam hostis ao absolutismo e estejam lutando contra ele de uma forma ou outra. Aqui ombro a ombro com o proletariado, estão os elementos opositores da burguesia, ou das classes educadas, ou da pequena burguesia, ou das nacionalidades, religiões e seitas etc. etc. perseguidas pelo governo autocrático. A questão naturalmente surge sobre qual deve ser a atitude da classe trabalhadora em relação a esses elementos. Além disso, ela deveria se combinar a eles na luta comum contra a autocracia? Afinal, todos os Social-democratas admitem que a revolução política na Rússia deve vir antes da revolução socialista; não deviam eles, assim, combinar-se com todos os elementos na oposição política para lutar contra a autocracia, deixando o socialismo de lado durante esse tempo? Isso não é essencial para fortalecer a luta contra a autocracia?

Examinemos essas duas questões.

A atitude da classe trabalhadora, como lutadora contra a autocracia, frente a todos os outros grupos e classes na oposição política é muito precisamente determinada pelos princípios básicos da Social-democracia expostos no famoso Manifesto Comunista. A Social-democracia apoia as classes sociais progressistas contra as classes reacionárias, a burguesia contra os representantes dos latifundiários privilegiados e contra a burocracia, a grande burguesia contra os esforços reacionários da pequena burguesia. Esse apoio não pressupõe, nem deve ser chamado a isso, nenhum compromisso com programas e princípios que não sejam Social-democratas – é um apoio dado a um aliado contra um inimigo particular. Além disso, os Social-democratas dão esse apoio para acelerar a queda do inimigo comum, mas não esperam nada para eles mesmos desses aliados temporários e não concedem nada a eles. Os Social-democratas apoiam todo movimento revolucionário contra o sistema social atual, eles apoiam todas as nacionalidades oprimidas, religiões perseguidas, propriedades sociais massacradas etc., em sua luta pelos direitos iguais.

O apoio a todos os elementos da oposição política será expresso na propaganda dos Social-democratas pelo fato de que, para mostrar que a autocracia é hostil à causa dos trabalhadores, eles também apontarão para a sua hostilidade [da autocracia] a vários outros grupos sociais; apontarão para a solidariedade da classe trabalhadora para com esses grupos em um problema particular, em uma tarefa particular etc. Na agitação, esse apoio será expresso pelos Social-democratas aproveitarem cada manifestação de tirania policial da autocracia para apontar aos trabalhadores como essa tirania afeta todos os cidadãos russos em geral, e os representantes excepcionalmente oprimidos das propriedades sociais, nacionalidades, religiões, seitas etc., em particular; e como a tirania afeta especialmente a classe trabalhadora. Finalmente, na prática, esse apoio é expresso pela prontidão da Social-democracia Russa para entrar em alianças com revolucionários de outras tendências com o propósito de conquistar certos objetivos particulares, e essa prontidão já foi mostrada na prática em mais de uma ocasião.

Isso nos leva à segunda questão. Enquanto apontam para a solidariedade de um ou outro dos vários grupos de oposição para com os trabalhadores, os Social-democratas vão sempre destacar os trabalhadores dos demais, vão sempre apontar que essa solidariedade é temporária e condicional, vão sempre enfatizar a identidade de classe independente do proletariado, que amanhã pode se encontrar em oposição aos aliados de hoje. A nós dirão que “tais ações vão enfraquecer todos os lutadores pela liberdade política de hoje”. Deveremos responder que tais ações vão fortalecer todos os lutadores pela liberdade política. Só são fortes aqueles lutadores que contam com os interesses reais de certas classes, conscientemente reconhecidos, e qualquer tentativa de obscurecer esses interesses de classe, que já tem um papel predominante da sociedade contemporânea, vai enfraquecer esses lutadores. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que, na luta contra a autocracia, a classe trabalhadora precisa destacar a si mesma, por ser o único inimigo completamente consistente e sem reservas da autocracia, somente entre a autocracia e a classe trabalhadora não pode haver nenhum compromisso, somente na classe trabalhadora pode democraticamente encontrar um defensor que não faça reservas, que não seja mal resolvido e que não olhe para trás. A hostilidade de todos os outros grupos, classes e camadas da população à autocracia não é desqualificada; sua democracia sempre olha para trás. A burguesia não pode senão perceber que o desenvolvimento social e industrial está sendo retardado pela autocracia, mas ela teme a democratização completa do sistema político e social e pode a qualquer momento se aliar à autocracia contra o proletariado. A pequena burguesia é duas-caras por sua própria natureza e enquanto ela orbita, por um lado, o proletariado e a democracia, por outro lado, orbita as classes revolucionárias, tenta segurar a marcha da história, está apta a ser seduzida pelos experimentos e lisonjas da autocracia (por exemplo, a “política do povo” [4] de Alexandre III), é capaz de se aliar com as classes dominantes contra o proletariado em prol do fortalecimento de sua própria posição de pequena proprietária. As pessoas educadas, e a intelligentsia em geral, não podem senão se revoltar contra a selvagem tirania policial da autocracia, que caça o pensamento e o conhecimento; mas os interesses materiais dessa intelligentsia prendem-na à autocracia e à burguesia, a obrigam a ser inconsistente, a se comprometer, a vender seu ardor oposicionista e revolucionário por um salário de oficial ou por uma parcela de lucros ou dividendos. Quanto aos elementos democráticos das nacionalidades oprimidas e das religiões perseguidas, todo mundo sabe e vê que os antagonismos de classe dentro dessas categorias da população vão muito mais fundo e mais forte que qualquer solidariedade que prenda todas as classes dentro de uma categoria contra a autocracia e a favor das instituições democráticas. Só o proletariado pode ser – e por causa de sua posição de classe, deve ser – um inimigo determinado do absolutismo, consistentemente democrático, incapaz de fazer concessões ou compromissos. Só o proletariado pode ser o lutador de vanguarda pela liberdade política e pelas instituições democráticas. Primeiramente, isso se dá porque a tirania política recai com mais peso sobre o proletariado, cuja posição não lhe dá oportunidade para assegurar uma mudança nessa tirania – ele não tem acesso a autoridades maiores, nem mesmo aos oficiais, e não tem influência na opinião pública. Segundo: só o proletariado é capaz de fazer acontecer a completa democratização do sistema político e social, uma vez que isso poria o sistema na mão dos trabalhadores. É por isso que fundir as atividades democráticas da classe trabalhadora com as aspirações democráticas de outros grupos e classes enfraqueceria o movimento democrático, enfraqueceria a luta política, faria a classe trabalhadora menos determinada, menos consistente, mais suscetível ao compromisso. Por outro lado, se a classe trabalhadora se posta como a lutadora de vanguarda pelas instituições democráticas, isso fortalecerá o movimento democrático, fortalecerá a luta pela liberdade política, porque a classe trabalhadora vai estimular todos os outros elementos democráticos e politicamente oposicionistas, vai empurrar os liberais na direção dos radicais, vai empurrar os radicais para uma irrevogável ruptura com toda a estrutura política e social da sociedade atual. Já dissemos que todos os socialistas da Rússia deveriam se tornar Social-democratas. Acrescentamos agora: todos os verdadeiros e consistentes democratas da Rússia deveriam se tornar Social-democratas.

Vamos ilustrar o que queremos dizer citando o seguinte exemplo. Pegue o serviço civil, a burocracia, como representante de uma categoria especial de pessoas que se especializam no trabalho de administração e ocupam uma posição privilegiada em comparação ao povo. Vemos essa instituição em todo lugar, da Rússia autocrática e semi-asiática até a Inglaterra culta, livre e civilizada, como um órgão essencial da sociedade burguesa. A completa falta de direitos do povo em relação aos oficiais do governo e a completa ausência de controle sobre a burocracia privilegiada corresponde ao atraso da Rússia e ao seu absolutismo. Na Inglaterra, um controle popular poderoso é exercido sobre a administração, mas mesmo lá esse controle está longe de ser completo, mesmo lá a burocracia retém não poucos privilégios e com frequência é mestra, e não serva, do povo. Mesmo na Inglaterra, vemos que os grupos sociais poderosos apoiam a posição privilegiada da burocracia e dificultam a democratização completa dessa instituição. Por quê? Porque é de interesse só do proletariado democratizá-la completamente; as camadas mais progressistas da burguesia defendem certas prerrogativas da burocracia e se opõem à eleição de todos os oficiais, se opõem à completa abolição de qualificações eleitorais, se opõem a fazer os oficiais terem que responder diretamente ao povo etc., porque essas camadas compreendem que o proletariado aproveitaria de tal democratização completa para usá-la contra a burguesia. Esse é o caso da Rússia, também. Muitas e as mais diversas camadas do povo russo se opõem à burocracia onipotente, irresponsável, corrupta, selvagem, ignorante e parasita da Rússia. Mas à exceção do proletariado, nenhuma dessas camadas concordaria com a completa democratização da burocracia, porque todas essas camadas (burguesia, pequena burguesia, a intelligentsia em geral) tem alguns laços com a burocracia, porque todas essas camadas têm parentes e amigos na burocracia russa. Quem não sabe o quão fácil é na Santa Rússia para um intelectual radical, ou intelectual socialista, virar um oficial do Governo Imperial, um oficial que se conforte com o pensamento de que faz “o bem” dentro dos limites da rotina de escritório, um oficial que alega esse “bem” para justificar sua indiferença política, sua servidão frente ao governo do chicote e da chibata? Só o proletariado é hostil sem reservas à autocracia e à burocracia russa, só o proletariado não tem laços com esses órgãos da sociedade burguesa aristocrática e só o proletariado é capaz de uma hostilidade inconciliável para com eles e de se engajar em uma luta determinada contra eles.

Quando mostramos que o proletariado, guiado em sua luta de classe pela Social-democracia, é o lutador de vanguarda da democracia russa, encontramos a opinião, muito disseminada e muito estranha, de que a Social-democracia Russa relega as tarefas políticas e a luta política para o plano de fundo. A nosso ver, essa opinião é o exato contrário da verdade. Como explicaremos esse surpreendente fracasso em entender os princípios da Social-democracia que foram frequentemente expostos e foram expostos desde as primeiras publicações social-democratas russas, nos panfletos e livros publicados no exterior pelo grupo Emancipação do Trabalho? [5] A nosso ver, a explicação desse fato assombroso está nas seguintes três circunstâncias.

Primeiro, está no fracasso geral dos representantes das velhas teorias revolucionárias em entender os princípios da Social-democracia, acostumados como são em basear seus programas e planos de atividade em ideias abstratas e não na avaliação exata das classes atualmente em ação no país, classes que foram colocadas em certas relações pela história. Essa falta da discussão realista dos interesses que apoiam a democracia russa só pode fazer surgir a opinião de que a Social-democracia Russa deixa as tarefas democráticas dos revolucionários russos só como plano de fundo.

Segundo, está no fracasso em entender que quando problemas econômicos e políticos, e as atividades socialistas e democráticas, estão unidas em um todo, unicamente na luta de classe do proletariado, isso não enfraquece, mas fortalece o movimento democrático e a luta política, aproximando-os dos reais interesses da massa do povo, arrastando os problemas políticos de dentro dos “estudos abafados da intelligentsia” e os levando às ruas, para o meio dos trabalhadores e das classes laboriosas, e substituindo ideias abstratas pelas manifestações reais da opressão política da qual os grandes sofredores são o proletariado e na base da qual os Social-democratas conduzem sua agitação. Parece frequentemente para o radical russo que, em vez de franca e diretamente convocar os trabalhadores avançados para se juntarem à luta política, a Social-democracia aponta para a tarefa de desenvolver o movimento da classe trabalhadora, de organizar a luta de classe do proletariado, e a partir daí recuar de sua democracia, relegar a luta política só ao plano de fundo. Mas se isso é recuar, é o tipo de recuo que está no provérbio francês: Il faut reculer pour mieux sauter! (Um passo atrás para saltar mais à frente!)

Terceiro, o desentendimento surge do fato de que o próprio termo “luta política” significa coisas diferentes para os Narodovoltsi e os Narodopravtsi, de um lado, e para os Social-democratas, de outro. Os Social-democratas entendem a luta política de uma maneira diferente, entendem-na de forma muito mais ampla do que o fazem os representantes das velhas teorias revolucionárias. Uma clara ilustração desse aparente paradoxo nos é dada pelo Panfleto do Grupo Narodnaya Volya, nº 4, de 9 de dezembro de 1895. Mesmo acolhendo de coração essa publicação, que testemunha o profundo e frutífero pensar que nos Narodovoltsi de hoje, não podemos nos furtar a mencionar o artigo de P.L. Lavrov, “Questões de programa” (p. 19-22), que vividamente revela a concepção diferente de luta política recebida pelos Narodovoltsi da velha guarda [6]. “Aqui”, escreve P.L. Lavrov, falando da relação do programa do Narodnaya Volya com o programa social-democrata, “só uma coisa é material, ou seja, é possível organizar um forte partido de trabalhadores sob a autocracia e fazê-lo em separado da organização de um partido revolucionário dirigido contra a autocracia?” (p. 21, col. 2); e também um pouco antes disso (na col. 1): “[…] organizar um partido de trabalhadores russos enquanto a autocracia reina sem ao mesmo tempo organizar um partido revolucionário contra essa autocracia”. Nós não conseguimos mesmo entender essas distinções que parecem ser de absoluta importância para P.L. Lavrov. Qual é o significado de “um partido de trabalhadores em separado de um partido revolucionário contra a autocracia”? Um partido de trabalhadores não é por si mesmo um partido revolucionário? Ele não é diretamente contra a autocracia? Essa ideia esquisita é explicada na seguinte passagem no artigo de P.L. Lavrov: “Um partido de trabalhadores russos terá que ser organizado sob o mando da autocracia com todos os seus sortilégios. Se os Social-democratas tiverem sucesso fazendo isso sem ao mesmo tempo organizar uma conspiração política contra a autocracia, com tudo que vai junto com essa conspiração, aí, é claro, o seu programa político seria um programa apropriado para os socialistas russos, uma vez que a emancipação dos trabalhadores pelos esforços dos trabalhadores eles mesmos estaria completa. Mas isso é muito duvidável, para não dizer impossível” (p. 21, col. 1) [grifos de Lênin]. Então aí está a questão! Para os Narodovoltsi, o termo luta política é sinônimo do termo conspiração política! Precisamos confessar que nessas palavras P.L. Lavrov conseguiu trazer um alívio ousado para a diferença fundamental entre as táticas para a luta política adotada pelos Narodovoltsi e pelos Social-democratas. Tradições blanquistas[7], conspiracionistas, são assustadoramente fortes entre aqueles [os Narodovoltsi], tanto que nem conseguem conceber a luta política a não ser na forma de conspiração política. Os Social-democratas, no entanto, não são culpados de uma visão tão estreita; eles não acreditam em conspirações; eles pensam que o período de conspirações já ficou muito para trás, que tentar reduzir a luta política às conspirações significa, de um lado, restringir imensamente seu escopo e, de outro lado, escolher os métodos de luta menos adequados. Todos vão entender que a observação de P.L. Lavrov de que “os Social-democratas Russos aceitam as atividades do Oeste como um modelo infalível” (p. 21, col. 1) não passa de uma manobra polêmica, e que na verdade os Social-democratas Russos nunca se esqueceram das condições políticas aqui, nunca sonharam serem capazes de formar um partido de trabalhadores na Rússia legalmente, nunca separaram a tarefa de lutar pelo socialismo da [tarefa] de lutar pela liberdade política. Mas eles sempre pensaram, e continuam a pensar, que essa luta precisa ser levada a cabo não por conspiradores, mas por um partido revolucionário baseado no movimento da classe trabalhadora. Eles pensam que a luta contra a autocracia precisa consistir não de conspirações organizadas, mas em educar, disciplinar e organizar o proletariado, em agitação política entre os trabalhadores que denuncie toda manifestação do absolutismo, que exponha todos os cavaleiros do governo policial e obrigue esse governo a fazer concessões. Não é precisamente esse tipo de atividade que está sendo conduzida pela Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora de São Petersburgo? Essa organização não representa o embrião de um partido revolucionário baseado no movimento da classe trabalhadora, que dirige a luta de classe do proletariado contra o capital e contra o governo autocrático sem gestar nenhuma conspiração, mas tirando suas forças da combinação da luta socialista e democrática, na única, indivisível, luta de classe do proletariado de São Petersburgo? Mesmo com sua brevidade, as atividades da Liga não já mostraram que o proletariado, liderado pela Social-democracia, é uma grande força política com quem o governo já foi obrigado a reconhecer, e com quem ele [o governo] se apressa em fazer concessões? Tanto a pressa com que a Lei de 2 de Junho de 1897 passou quanto o conteúdo da lei claramente revelam seu significado como uma concessão espremida pelo proletariado, como uma posição vencida contra o inimigo do povo russo. Essa concessão é bem diminuta, a posição ganha é bem pequena, mas a organização da classe trabalhadora que conseguiu forçar essa concessão também não se distingue por largura, estabilidade, duração ou riqueza de experiências ou recursos. Como se sabe, a Liga de Luta foi formada só em 1895-96 e seus apelos aos trabalhadores ficaram presos a panfletos hectografados ou litografados. Podemos negar que uma organização como essa, se unisse, pelo menos, os maiores centros do movimento da classe trabalhadora na Rússia (São Petersburgo, Moscou-Vladimir, e as áreas do sul, e também as cidades mais importantes como Odessa, Kiev, Saratov etc.), se tivesse um órgão revolucionário ao seu dispor e gozasse de tanto prestígio entre os trabalhadores russos em geral quanto a Liga de Luta no seio dos trabalhadores petersburgueses – podemos negar que tal organização seria um tremendo fator político na Rússia contemporânea, um fator que o governo teria que considerar em toda a sua política interna e exterior. Ao guiar a luta de classe do proletariado, desenvolvendo organização e disciplina entre os trabalhadores, ajudando-os a lutar por suas necessidades econômicas imediatas e a ganhar posição atrás de posição do capital, ao educar politicamente os trabalhadores, atacar sistemática e inabalavelmente a autocracia e fazer um tormento da vida de todo bashi-bazouk tsarista que faz o proletariado sentir a pesada pata do governo policial – uma organização como essa seria ao mesmo tempo um partido de trabalhadores adaptada às nossas condições e um partido revolucionário poderoso dirigido contra a autocracia. Discutir antecipadamente quais métodos essa organização vai usar para dar um golpe violento na autocracia, se, por exemplo, vai preferir a insurreição, uma greve política massiva, ou alguma outra forma de ataque, discutir essas coisas antecipadamente e decidir essa questão agora seria um doutrinarismo vazio. Seria como generais chamarem um conselho de guerra antes de terem reunidos as tropas, as mobilizado e feito uma campanha contra o inimigo. Quando o exército do proletariado luta inabalavelmente e sob a liderança de uma forte organização Social-democrata por sua emancipação econômica e política, esse exército vai por si mesmo indicar os métodos e meios de ação aos generais. Nesse momento, e só a partir daí, será possível decidir a questão de dar o golpe final na autocracia; porque a solução do problema depende do estado do movimento da classe trabalhadora, em sua amplitude, nos métodos de luta desenvolvidos pelo movimento, nas qualidades da organização revolucionária liderando o movimento, na atitude de outros elementos sociais para com o proletariado e a autocracia, nas condições que influenciam na política interna e externa – em uma palavra, depende de mil e uma coisas que não podem ser adivinhadas e que seria inútil tentar adivinhar antecipadamente.

É por isso que o seguinte argumento de P.L. Lavrov é extremamente injusto:

“Se, no entanto, eles” (os Social-democratas) “tem que, de um jeito ou de outro, não só agrupar as forças dos trabalhadores pela luta contra o capital, mas também reunir os indivíduos revolucionários e os grupos pela luta contra a autocracia, os Social-democratas Russos vão na verdade adotar o programa de seus adversários, o Narodnaya Volya, não importa como eles se chamem. As diferenças de opinião sobre a comunidade da vila, o destino do capitalismo na Rússia e o materialismo econômico são detalhes de pequena importância para a causa real, facilitando ou dificultando a solução de problemas particulares, métodos particulares de preparar os pontos principais, mas nada mais do que isso” (p. 21, col. 1).

É estranho ter que contestar essa última afirmação – que as diferenças de opinião sobre as questões fundamentais da vida russa e do desenvolvimento da sociedade russa, sobre os problemas fundamentais da concepção de história são apenas “detalhes”! Foi dito há muito tempo que sem uma teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário e quase não é necessário provar isso hoje em dia. A teoria da luta de classe, a concepção materialista da história da Rússia e a avaliação materialista da atual situação econômica e política na Rússia, o reconhecimento da necessidade de relacionar a luta revolucionária estritamente com os interesses definidos de uma classe definida e analisar a sua relação com outras classes – chamar essas grandes questões revolucionárias de “detalhes” é tão colossalmente errado e inesperado, vindo de um veterano da teoria revolucionária, que nós estamos inclinados a ver essa passagem como um lapso. Quanto à primeira parte da citação, sua injustiça é ainda mais desnorteadora. Se pôr a escrever que os Social-democratas Russos só agrupam as forças dos trabalhadores para a luta contra o capital (ou seja, só para a luta econômica!) e não reúnem indivíduos e grupos revolucionários para a luta contra a autocracia significa que o autor ou não sabe ou não quer saber fatos amplamente conhecidos sobre as atividades dos Social-democratas Russos. Ou, talvez, P.L. Lavrov não considere os Social-democratas que estão engajados no trabalho prático na Rússia como “indivíduos revolucionários” e “grupos revolucionários”?! Ou (e essa, talvez, seja a mais provável) por “luta” contra a autocracia, ele queira dizer só conspirações contra ela? (Cf. p. 21, col. 2: “[…] é uma questão de […] organizar uma conspiração revolucionária”; itálicos nossos). Talvez, na opinião de P.L. Lavrov, aqueles que não organizam conspirações políticas não estão engajados na luta política? Repetimos mais uma vez: opiniões como essa correspondem fielmente às velhas tradições do velho Narodnaya Volya, mas não correspondem em nada nem às concepções contemporâneas de luta política nem às condições contemporâneas.

Ainda temos umas poucas palavras sobre os Narodopravtsi. P.L. Lavrov está bastante certo, em nossa opinião, quando diz que os Social-democratas “recomendam aos Narodopravtsi ser mais francos, e estarem prontos a lhes darem apoio, sem, contudo, se fundir com eles” (p. 19, col. 2); ele deveria só ter acrescentado: como democratas mais francos e chegando ao grau de os Narodopravtsi agirem como democratas consistentes. Infelizmente, essa condição é mais uma questão de um futuro desejado do que do presente. Os Narodopravtsi expressaram um desejo de livrar as tarefas democráticas do Narodismo e das formas obsoletas de “socialismo russo” em geral; mas eles mesmos estavam tão distantes de ficarem livres de velhos preconceitos, e estavam longe de serem consistentes quando eles descreveram seu partido, exclusivamente um partido para reformas políticas, como um partido “social (??!)-revolucionário” (vejam seu “Manifesto” de 19 de fevereiro de 1894) e declararam em seu “Manifesto” que “o termo direitos do povo inclui a organização da indústria do povo” (somos obrigados a citar de memória) e assim introduziram preconceitos Narodnik sub rosa. Dessa forma, P.L. Lavrov não estava, talvez, de todo errado quando os descreveu como “políticos mascarados” (p. 20, col. 2). Mas talvez fosse mais justo considerar a doutrina do Narodnoye Pravo como transicional, ao que devemos o crédito de dizer que que ela [a doutrina] estava envergonhada do caráter original das doutrinas Narodnik e abertamente começaram uma batalha contra aqueles abomináveis reacionários Narodnik, que, apesar da existência de um mando absoluto da polícia e das classes superiores, têm a audácia de falar do quão desejáveis são as reformas econômicas e não as políticas (vejam “Uma questão urgente”, publicada pelo Partido Narodnoye Pravo). Se o Partido Narodnoye Pravo realmente não tem ninguém que não seja ex-socialistas escondendo suas bandeiras socialistas por considerações práticas e que meramente vestem a máscara de políticos não socialistas (como P.L. Lavrov assume, p. 20, col. 2), então, é claro, o partido não tem nenhum futuro. Se, no entanto, o partido contém políticos não mascarados, mas realmente não socialistas, democratas não socialistas, então esse partido pode fazer não pouca coisa ao esforçar-se para puxar para perto a oposição política no seio da burguesia, ao esforçar-se para despertar a consciência política da pequena burguesia, pequenos lojistas, pequenos artesãos etc. – a classe que, em todo lugar na Europa Ocidental, teve um papel no movimento democrático e, na Rússia, teve um progresso excepcionalmente rápido em questões culturais e outras também no período pós-Reforma, e que não pode evitar sentir a opressão do governo policial que dá seu apoio cínico aos grandes donos de fábricas, aos magnatas das finanças e ao monopólio industrial. Para isso acontecer, tudo o que é preciso é que os Narodopravtsi devem tomar como sua tarefa se aproximar de várias camadas da população e não se confinarem eles mesmos à mesma “intelligentsia” cuja impotência, devida ao seu isolamento dos reais interesses das massas, é admitida até mesmo no “Uma questão urgente”. É preciso que os Narodopravtsi abandonem qualquer ideia de se fundir diferentes elementos sociais e de empurrar o socialismo para o lado em prol de tarefas políticas, [é preciso que] abandonem a falsa vergonha que os previne de se aproximar às camadas burguesas da população, ou seja, que eles não só falem de um programa para políticos não socialistas, mas ajam de acordo com esse programa, despertando e desenvolvendo a consciência de classe desses grupos e classes sociais  para quem o socialismo é bastante desnecessário, mas quem, com o passar do tempo, cada vez mais sente a opressão da autocracia e a necessidade da liberdade política.

A Social-democracia Russa é ainda muito nova. Está apenas emergindo de seu estado embrionário no qual as questões teóricas predominaram. Está só começando a desenvolver sua atividade prática. No lugar de criticar os programas e teorias da Social-democracia, os revolucionários de outros partidos tiveram sua necessidade movida para a crítica da atividade prática dos Social-democratas Russos. E é preciso admitir que essa mais recente crítica difere de maneira muito aguda da crítica teórica, difere tanto, de fato, que foi possível fazer circular o boato cômico de que a Liga de Luta de São Petersburgo não é uma organização Social-democrata. O próprio fato de que esse boato apareceu mostra quão infundadas são as acusações agora postas que os Social-democratas ignoram a luta política. O próprio fato de que esse boato apareceu mostra que muitos revolucionários que não foram convencidos pela teoria Social-democrata agora estão começando a ser convencidos por suas práticas.

A Social-democracia Russa ainda está defrontada com um enorme, quase intocado campo de trabalho. O despertar da classe trabalhadora russa, seu despertar espontâneo para o conhecimento, a organização, o socialismo, para a luta contra seus exploradores e opressores se tornou mais disseminada, mais fortemente aparente a cada dia. O enorme progresso feito pelo capitalismo russo nos últimos tempos é uma garantia de que o movimento da classe trabalhadora vai crescer ininterruptamente em largura e profundidade. Aparentemente estamos passando pelo período do ciclo capitalista quando a indústria está “prosperando”, quando os negócios estão vivos, quando as fábricas estão trabalhando com capacidade total e quando inúmeras novas fábricas, novas empresas, companhias de capital social, empresas ferroviárias etc. etc. estão crescendo como cogumelos. Ninguém precisa ser profeta pra predizer a inevitável e bem aguda quebra que sucederá a esse período de “prosperidade” industrial. Essa quebra vai arruinar massas de pequenos proprietários, vai jogar massas de trabalhadores nas fileiras do desemprego e vai, portanto, confrontar todos os trabalhadores de forma aguda com os problemas do socialismo e da democracia com que já há tempos cada trabalhador pensante, com consciência de classe, se defronta. Os Social-democratas Russos precisam fazer com que, quando essa quebra vier, o proletariado russo esteja mais consciente, mais unido, capaz de entender as tarefas da classe trabalhadora russa, capaz de impor uma resistência à classe capitalista – que agora está conseguindo imensos lucros e sempre desperta para jogar aos trabalhadores as perdas – e capaz de liderar a democracia russa em uma luta decidida contra a autocracia policial, que prende e trancafia os trabalhadores russos e todo o povo russo.

Então, ao trabalho, camaradas! Não percamos nosso precioso tempo! Os Social-democratas Russos têm muito a fazer para atingir os requisitos do proletariado que desperta, para organizar o movimento da classe trabalhadora, para fortalecer os grupos revolucionários e seus laços mútuos, para suprir os trabalhadores com literatura de agitação e propaganda e para unir os círculos de trabalhadores e os grupos Social-democratas por toda a Rússia em um único Partido Operário Social-democrata!

Aos Trabalhadores e Socialistas de São Petersburgo da Liga de Luta

Os revolucionários de São Petersburgo estão vivendo tempos difíceis. Parece que o governo concentrou todas as suas forças para esmagar o recém-nascido movimento da classe trabalhadora, que já deu uma grande demonstração de força. Detenções são feitas em uma escala sem precedentes e as prisões estão superlotadas. Intelectuais, homens e mulheres, e as massas de trabalhadores estão sendo arrastados e exilados. Quase todo dia vemos notícias de novas vítimas do governo policial, que se jogou em fúria sobre seus inimigos. O governo deu a si mesmo o objetivo de prevenir a nova tendência no movimento revolucionário russo de ganhar força e levantar-se sobre seus pés. Os promotores públicos e os gendarmes já estão ostentando que esmagaram a Liga de Luta.

A ostentação é uma mentira. A Liga de Luta está intacta, apesar de toda a perseguição. Com satisfação profunda, declaramos que as prisões por atacado estão fazendo seu trabalho – elas são uma arma poderosa de agitação entre os trabalhadores e os intelectuais socialistas, que os lugares dos revolucionários caídos estão sendo tomados por novas pessoas que estão prontas, com energia fresca, para se juntarem às fileiras dos defensores do proletariado russo e de todo o povo da Rússia. Não há luta sem sacrifício e à brutal perseguição dos bashi-bazouks tsaristas, nós calmamente respondemos: Revolucionários pereceram – Vida longa à Revolução!

Até agora, a perseguição intensificada só foi capaz de causar um enfraquecimento temporário em certas funções da Liga de Luta, uma escassez temporária de agentes e agitadores. É essa escassez que nós agora sentimos e que nos move a convocar todos os trabalhadores com consciência de classe e todos os intelectuais desejosos de devotar suas energias à causa revolucionária. A Liga de Luta precisa de agentes. Que todos os círculos de estudos e todos os indivíduos desejosos por trabalhar em qualquer esfera da atividade revolucionária, até as mais restritas, informem aqueles em contato com a Liga de Luta. (Se algum grupo estiver impossibilitado de contatar tais indivíduos – isso é bastante improvável – eles podem fazê-lo por meio da Liga dos Social-democratas Russos no Estrangeiro). Pessoas são necessárias para todos os tipos de trabalho e, quanto mais estritamente os revolucionários se especializarem nos vários aspectos da atividade revolucionária, mais estritamente eles refletem sobre seus métodos de trabalho clandestino e formas de ocultá-lo, mais abnegadamente eles se concentram nos trabalhos menores, fora da vista e particulares, mais seguro será todo o trabalho e mais difícil será para os gendarmes e espiões descobrirem os revolucionários. Antecipadamente o governo enredou não só os centros existentes de elementos antigoverno, mas também os possíveis e prováveis, em uma rede de agentes. O governo está constantemente desenvolvendo o tamanho e alcança das atividades daqueles lacaios que caçam revolucionários, está planejando novos métodos, introduzindo mais provocadores, tentando impor pressão nos presos através da intimidação, confrontação com falsos testemunhos, assinaturas forjadas, cartas falsas plantas etc. etc. Sem o fortalecimento e o desenvolvimento da disciplina, da organização e da atividade clandestina revolucionária, a luta contra o governo será impossível. E a atividade clandestina demanda acima de tudo que os grupos e indivíduos se especializem em diferentes aspectos de trabalho e que o trabalho de coordenação seja atribuído ao grupo central da Liga de Luta, com o mínimo possível de membros. Os aspectos do trabalho revolucionário são extremamente variados. Agitadores legais são necessários, para falar com os trabalhadores de uma maneira que não lhes exponha À perseguição e possam apenas dizer a, deixando b e c para outros. Distribuidores de panfletos e literatura são necessários. Organizadores de círculos de estudos e grupos de trabalhadores são necessários. Correspondentes são necessários, para dar um quadro completo dos eventos em todas as fábricas. Pessoas são necessárias para ficar de olho nos espiões e provocadores. Pessoas são necessárias para organizar lugares clandestinos para reuniões. Pessoas são necessárias para distribuir literatura, transmitir instruções e organizar todo tipo de contato. Coletores de fundo são necessários. Agentes são necessários para trabalhar entre a intelligentsia e o governo, pessoas em contato com os trabalhadores e a vida fabril, com a administração (com a política, inspetores de fábrica etc.). Pessoas são necessárias para contatar as diferentes cidades da Rússia e outros países. Pessoas são necessárias para organizar várias formas de contrabandear todas as formas de literatura. Pessoas são necessárias para cuidar da literatura e outras coisas etc. etc. Quando menor e mais específico for o trabalho pego por uma pessoa individual ou um grupo individual, maior será a chance de que eles examinem bem as coisas, façam o trabalho adequadamente e garantam seu melhor contra qualquer fracasso, que eles considerem todos os detalhes do trabalho clandestino e usem todos os meios possíveis para despistar e confundir os gendarmes, mais o sucesso estará garantido, mais difícil será para a polícia e os gendarmes acompanharem os revolucionários e suas ligações com suas organizações, e mais fácil será para o partido revolucionário substituir, sem prejuízo para a causa como um todo, agentes e membros que caíram. Sabemos que a uma especialização assim é uma questão muito difícil, difícil porque demanda do indivíduo a maior resistência e abnegação, demanda colocar todas as forças em um trabalho que é imperceptível, monótono, que o priva de contato com camaradas e subordina a vida inteira do revolucionário a uma rotina sombria e rígida. Mas foi só em condições como essa que os maiores homens da prática revolucionária na Rússia tiveram sucesso em levar a cabo os empreendimentos mais ousados, passando anos em uma preparação total, e nós estamos profundamente convencidos de que os Social-democratas não vão demonstrar menos autossacrifício do que os revolucionários das gerações passadas. Estamos também cientes de que o tempo preliminar previsto pelo nosso sistema, durante o qual a Liga de Luta vai coletar a informação necessária sobre indivíduos ou grupos que ofereçam seus serviços e vai dar a eles algo a fazer como teste, será um tempo muito difícil para muitas pessoas ansiosas por devotar suas energias ao trabalho revolucionário. Mas sem esse teste preliminar, a atividade revolucionária na Rússia de hoje é impossível.

Ao sugerir esse sistema de trabalho aos nossos novos camaradas, expressamos uma visão trazida depois de uma longa experiência, estando profundamente convencidos de que ela, mais do que qualquer outra, garante um trabalho revolucionário bem-sucedido.


Notas:

[Nota Editorial] O panfleto “As tarefas dos Social-democratas Russos” foi escrito por Lênin no exílio (Sibéria) no fim de 1897 e foi primeiramente publicado em 1898 pelo grupo Emancipação do Trabalho em Genebra. Circulou amplamente entre os trabalhadores avançados da Rússia. De acordo com dados do Departamento de Política dos anos de 1898-1905, cópias do panfleto foram descobertas durante buscas e prisões feitas em São Petersburgo, Moscou, Smolensk, Kazan, Orel, Kiev, Feodosia, Irkutsk, Archangel, Sormovo, Kovno e outras cidades.

O manuscrito original do panfleto não foi encontrado mas há uma cópia feita, de autoria anônima. Em 1902, o segunda edição apareceu em Genebra e em 1905 uma terceira edição, ambas com um prefácio de V.I. Lênin. O panfleto também foi incluído na coletânea: Vl. Ilyin, Doze Anos, publicada em novembro de 1907 (a capa e página do título são datadas de 1908). As edições de 1902, 1905 e 1907 não contém o panfleto Aos Trabalhadores e Socialistas de São Petersburgo da Liga de Luta incluído na cópia do manuscrito e como suplemento à primeira edição do panfleto. O panfleto foi publicado em todas as edições anteriores do Collected Works e também está incluída na presente edição [referenciada na Nota Preliminar]. A cópia feita do manuscrito contém vários deslizes de caneta. Imprecisões também apareceram na primeira edição do panfleto, que foi publicado no exterior pelo grupo Emancipação do Trabalho, mas essas foram corrigidas por Lênin nas edições subsequentes.

[1] Narodnoye Pravo (O Direito do Povo) – uma organização ilegal de intelectuais democratas russos fundada no verão de 1893, seus iniciadores incluíam O. V. Aptekman, A. I. Bogdanovich A. V. Gedeonovsky, M. A. Natanson, e N. S. Tyutchev, que anteriormente tinham pertencido ao Narodnaya Volya. Os Narodopravtsi, como eram chamados os membros do partido, se colocaram o objetivo de unir todas as forças de oposição para lutar por reformas políticas. A organização lançou dois documentos programáticos, Manifesto e Uma questão urgente. Na primavera de 1894, o grupo foi desmantelado pelo governo tsarista. As considerações de Lenin sobre o Narodnoye Pravo como um partido político podem ser encontradas nos seus textos Quem são os “amigos do povo” e como lutam contra os Social-democratas [na edição referenciada, Vol. 1] e na página 344 [da edição referenciada]. A maioria dos Narodopravtsi subsequente entraram no Partido Socialista-Revolucionário

[2] O grupo Narodnaya Volya (A Vontade do Povo) [cujos membros eram conhecidos como Narodovoltsi] foi fundado em São Petersburgo no outono de 1891 com seu próprio programa. Seus membros originais incluíam M. S. Olminsky (Alexandrov), N . L. Meshcheryakov, Y. M. Alexandrova, A. A. Fedulov e A. A. Yergin. Panfletos e o Rabochy Sbornik (Coletânea dos Trabalhadores) e dois números do Letuchy Listok (O Panfleto) foram publicados ilegalmente pela imprensa do grupo. Em abril de 1894, o grupo foi desmantelado pela política, mas logo retomou suas atividades. Nessa época, estavam no processo de abandonar as visões do Narodnaya Volya para aderir à Social-democracia. O último número do Letuchy Listok, o número 4, que apareceu em dezembro de 1895, tinha claros traços de influência Social-democrata. O grupo estabeleceu contato com a Liga Social-Democrata de Luta para a Emancipação da Classe Trabalhadora em São Petersburgo e usou sua imprensa para lançar várias publicações da Liga, por exemplo, o texto de Lênin Explanação sobre a Lei de Multas Impostas aos Trabalhadores Fabris [páginas 29-72 da obra referenciada] e negociou com a Liga sobre publicações conjuntas do jornal Rabocheye Dyelo. Pretendiam usar a imprensa do grupo para lançar o panfleto de Lênin Sobre as greves, que tinha sido contrabandeado da prisão em maio de 1896. Mas a sugestão foi descoberta pela polícia, que destruiu a imprensa e prendeu todos os membros do grupo em junho de 1896. O grupo então parou de existir e alguns de seus membros(P. F. Kudelli, N. L. Meshcheryakov, M. S. Olminsky e outros) posteriormente viraram figuras ativas no Partido Operário Social-democrata Russo, ainda que a maioria tenha se juntado ao Partido Socialista-Revolucionário.

[3] A Liga dos Social-democratas Russos no Exterior foi fundada em 1894 em Genebra, como iniciativa do grupo Emancipação do Trabalho e tinha sua própria imprensa, em que imprimia literatura revolucionária. De início, o grupo Emancipação do Trabalho guiou a Liga e editou suas publicações. A Liga lançou as coletâneas de Rabotnik e o Litski “Rabotnika” e publicou o texto de Lênin Explanação sobre a Lei de Multas Impostas aos Trabalhadores Fabris (1897), o texto de Plekhanov Nova Movimentação Contra a Social-democracia Russa (1897 etc. O Primeiro Congresso do POSDR, feito em março de 1898, reconheceu a Liga como o representante do Partido no exterior. Com o passar do tempo, os elementos oportunistas – os “economistas” ou também chamados grupo “jovem” – garantiram controle sobre a Liga. No Primeiro Congresso da Liga, realizado em Zurique em novembro de 1898, o grupo Emancipação do Trabalho anunciou sua recusa em editar as publicações da Liga, com a exceção dos números 5 e 6 do Rabotnik e os panfletos de Lênin As tarefas dos Social-democratas Russos e A Nova Lei Fabril, que o grupo aceitou publicar. A partir daí, a Liga publicou o Rabocheye Dyelo, uma revista dos “economistas”. O grupo Emancipação do Trabalho finalmente rompe com a Liga e deixa suas fileiras em abril de 1900, no Segundo Congresso da Liga, realizado em Genebra, quando o grupo Emancipação do Trabalho e seus apoiadores deixaram o Congresso e estabeleceram uma organização Social-democrata independente. Em 1903, o Segundo Congresso do POSDR adotou uma decisão de expulsar a Liga.

[4] Essa passagem se refere à política aplicada por N. P. Ignatyev, Ministro do Interior, em 1881-1882, que pretendia, como Lênin aponta, “enganar” os liberais; ao acenar para a democracia, esperava esconder o fato de que o governo de Alexandre III já havia passado totalmente para o lado da reação. Parte dessa política foi convocar conferências do “povo bem informado”, que incluía Marechais da Nobreza, represenantes das Administrações dos Zemstvos e pessoas similares para discutir problemas relacionados à redução dos pagamentos por distribuição das terras, a organização adequada da migração e a reforma dos governos locais. Uma sugestão foi feita para convocar o chamado Zemsky Sobor para ser recebido por uma multidão de mais de três mil. Todo esse aparato, no entanto, terminou na renúncia de Ignatyev, seguida de um período de “reação descontrolada, incrivelmente sem sentido e brutal” (Ver Quem são os “amigos do povo” e como lutam contra os Social-democratas [na edição referenciada, Vol. 1]).

[5] O grupo Emancipação do Trabalho foi o primeiro grupo marxista russo. Foi fundado em Genebra por G. V. Plehkhánov em 1883 e incluía P. B. Axelrod, L. G. Deutsch, Vera Zasulich e V. N. Ignatov.

O grupo fez muito para disseminar o marxismo na Rússia. Traduziu trabalhos marxistas como o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, Trabalho assalariado e Capital, de Marx, e Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, de Engels etc., publicando-os no exterior e organizando sua distribuição na Rússia.Plekhánov e seu grupo derrubaram o Narodismo. Em 1893, Plekhánov esboçou o programa para os Social-democratas Russos e em 1885 fez outro esboço. Os dois esboços foram publicados pelo grupo Emancipação do Trabalho e marcaram um importante passo para o estabelecimento de um Partido Social-democrata na Rússia. Os textos de Plekhánov Socialismo e a Luta Política (1883), Nossas Diferenças (1885), O Desenvolvimento da Visão Monista da História (1895) tiveram uma importância considerável em disseminar as visões marxistas. O grupo, no entanto, cometeu alguns erros sérios. Ele se apegou aos restos das visões Narodnik, subestimaram o papel revolucionário do campesinato e superestimaram o papel da burguesia liberal. Esses erros foram embriões das futuras visões mencheviques sustentadas por Plekhánov e outros membros do grupo. O grupo teve um importante papel em imbuir a classe trabalhadora russa com consciência de classe revolucionária mas não tinha ligações práticas com o movimento da classe trabalhadora. Lênin apontou que o grupo Emancipação do Trabalho “só teoricamente fundou a Social-democracia e deram o primeiro passo na direção do movimento da classe trabalhadora”. O grupo estabeleceu ligações com o movimento operário internacional e representou a Social-democracia Russa em todos os congressos da Segunda Internacional desde o primeiro realizado em Paris em 1889.

No Segundo Congresso do POSDR, realizado em agosto de 1903, o grupo Emancipação do Trabalho anunciou sua dissolução.

[6] NA: O artigo de P.L. Lavrov no número 4 é, de fato, só um “excerto” de uma longa carta escrita por ele para o Material*. Nós ouvimos falar que o texto completo da carta e uma resposta de Plekhánov também foram publicados no exterior nesse verão (1897) mas nós não vimos nem um nem outro. Nem sabemos se o Panfleto do Grupo Narodnaya Volya, número 5, no qual os editores prometeram publicar um artigo editorial sobre a carta de P.L. Lavrov, já apareceu. Ver o número 4, p. 22, col. 1, nota de rodapé.

*[Lênin se refere a uma coleção de artigos nomeados Material para uma História do Movimento Social-Revolucionário Russo, publicado em Genebra nos anos de 1893-96 pelo Grupo dos Membros do Antigo Narodnaya Volya (P.L. Lavrov, N.S. Rusanov e outros). No todo, quatro coleções foram publicadas em cinco volumes (dezessete era o plano original)]

[7] Blanquismo – uma tendência no movimento socialista francês encabeçada pelo excepcional revolucionário e proeminente representante do comunismo utópico francês, Louis-Auguste Blanqui (1805-81).

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