Mark Fisher foi o líder intelectual de uma geração

Por Jason Cowley, via newstatesman.com, traduzido por Rodrigo Gonsalves

Uma conseqüência (do Realismo Capitalista) são os sentimentos de impotência das pessoas. Outra é a incapacidade de conceber um futuro diferente do presente. “O sentimento de que não podemos expressar formas alternativas de ser e de pensar – para mim, é a principal coisa que o Realismo Capitalista faz bem ao personalizar os efeitos do neoliberalismo”.


As primeiras semanas de 2017 foram traumáticas para Alex Niven. Seu filho recém-nascido não estava dormindo. Sua parceira sofreu uma perda significativa de sangue durante um parto difícil. E então, seu amigo Mark Fisher, o fundador do blog K-Punk e o “líder intelectual de uma geração”, como Niven o descreve, se matou. Tudo isso coincidiu com um período em que o corbynismo parecia bater em retirada. Niven mal conseguia dormir e, como escreve em seu livro mais recente, New Model Island, ele começou a ouvir obsessivamente “The Killing Moon”, de Echo & the Bunnymen. “Parecia um momento completamente desesperançoso”, ele me disse. “Um momento de total desilusão e derrota.”

Ele escreve sobre essa desilusão e como ela acabou sendo levantada em New Model Island, que mistura análise teórica sobre nosso reino desunido, polêmica, memórias e críticas culturais e que é influenciado pelos escritos de Fisher. Quando nos conhecemos recentemente nos escritórios do New Statesman em Londres, perguntei a Niven sobre o legado de seu amigo.

Fisher tinha 48 anos quando morreu e passou grande parte de sua carreira se sentindo marginalizado, como escritor e acadêmico. “Mark era uma espécie de trabalhador precário à margem da academia”, disse-me Niven. “Ele foi marginalizado em um sentido muito literal porque, além de um ou dois anos antes de morrer, ele só tinha associado-se temporariamente na pós-graduação”.

As experiências de Fisher ressoaram para uma geração de estudantes millenials que eram altamente educados, mas que não tinham segurança trabalhista e que não podiam pagar por uma casa própria. “Isso em uma frase”, diz Niven, “é a base do corbynismo intelectual. O corbynismo não é realmente sobre Corbyn: trata-se dessa geração intelectual que estava esperando o momento de atravessar e não havia conseguido devido a uma cultura precária de trabalho “.

O que Niven chama de “neoliberalização da educação” afetou Fisher. Ele canalizou sua frustração ao escrever Capitalism Realism (2009), que explora, como Fisher escreveu, “o amplo senso de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também que agora é impossível imaginar uma alternativa coerente à isto”.

Niven admira o que ele chama de “dimensão quase espiritual dos escritos de Mark. O Realismo Capitalista é sobre como estamos espiritualmente empobrecidos. Estamos presos psicologicamente nessa cultura de trabalho punitivista e quase distópica. ”

Uma conseqüência são os sentimentos de impotência das pessoas. Outra é a incapacidade de conceber um futuro diferente do presente. “O sentimento de que não podemos expressar formas alternativas de ser e de pensar – para mim, é a principal coisa que o Realismo Capitalista faz bem ao personalizar os efeitos do neoliberalismo”.

Niven é professor de literatura inglesa na Universidade de Newcastle e também trabalhou como editor da impressão Zer0 Books, fundada pelo romancista Tariq Goddard e que publicou Fisher. Seu último projeto foi editar as cartas do poeta modernista Basil Bunting para a Oxford University Press, mas como acadêmico, ele enfrenta um dilema. “Este é o livro que eu quero escrever” – ele aponta para uma cópia da New Model Island – “e diz tudo o que quero dizer, mas lutarei para colocá-lo no REF (the Research Excellence Framework) [Quadro de Excelência em Pesquisa] porque não é uma monografia acadêmica. Reduzimos o trabalho acadêmico a medições quantitativas, a tabelas e metas. Realismo Capitalista, aquilo que não estava impresso pela editora da universidade, recebia nota baixa do REF”.

Isso é lamentável. A New Model Island pode ser densa em alguns lugares. A linguagem é frequentemente técnica, no estilo de estudos culturais acadêmicos. Mas existem passagens de livros de memórias, faz um poderoso argumento político diretamente relevante para o momento constitucional e vai além da (inevitável?) dissolução do Reino Unido ao defender um novo tipo de “regionalismo radical”. Acima de tudo, faz você pensar.

Pessoalmente, Niven, de óculos e levemente barbudo, é despretensioso, até tímido. Ele fala baixo e devagar e, para um polemista, não é nada combativo. Como Fisher – como eu! – tornou-se leitor por causa da imprensa musical, particularmente da NME.

“Eu estava crescendo na zona rural de Northumberland e lia o NME todas as semanas e era uma fonte de educação. Mas por volta de 2001, depois de ter seções sobre dance music e páginas de cartas politizadas, de repente se tornou muito popular [mainstream].”

A resposta de Fisher e outros ao declínio da NME e ao conservadorismo da grande mídia [mainstream] foi criar blogs e abrir seus próprios espaços criativos. O crítico de arquitetura Owen Hatherley escreveu sobre seu amigo Fisher após a sua morte, “escrevendo de uma maneira que não deveria mais existir”.

Ou, como Niven coloca agora: “A imprensa musical havia se vendido e nós éramos a imprensa musical no exílio”.

Uma das idéias do livro de Niven é que a ‘inglesice’ [Englishness] é “definida pela ausência ou ocultação”. Ele luta “para ver uma base coerente para a Inglaterra e a ‘inglesice'[Englishness]” e é cético em relação ao que ele chama de patriotismo unitário. “A única vez em que realmente senti inglês foi assistindo ao time de futebol da Inglaterra. Não existimos como cultura nacional porque éramos uma cultura internacionalista imperialista. 

O objetivo final do livro “era tentar imaginar algo além da ‘Inglesice’ e da ‘Britânice’ [Englishness and Britishness], se isso fosse possível”. Ele está no rastro de algo – porque criar um novo imaginário nacional certamente será o desafio definitivo da era Brexit.

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