Não podemos fazer concessões em nossos princípios

Por Alberto Lombardo, via Pelo Anti-Imperialismo, traduzido por Bernardo Marques

“Cada passo de movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas. (…) Se, no entanto, são criados programas de princípios (em vez de remetê-los de volta ao tempo em que tenham sido preparado por uma mais longa atividade conjunta), os marcos a partir dos quais se julga o nível de movimento do Partido erguem-se perante todo o mundo.” (K. Marx – Carta de acompanhamento à Crítica do programa Gotha; contrastado pelo tradutor com a tradução de José Barata-Moura – Edições “Avante!”)


Um dos destinos mais bárbaros que a “história” deu aos nossos Mestres, a Marx em primeiro lugar, consiste em ser citado de maneira inadequada. O exemplo que relatamos acima está entre os mais emblemáticos. Tente ler apenas a primeira frase, que é a mais frequentemente relatada. É evidente que o senso geral do pensamento de Marx não é apenas distorcido, mas completamente revertido. E é isso que costuma acontecer quando os “clássicos” são “manobrados” não para apreender o verdadeiro ensinamento, mas para transmitir idéias distorcidas, boas apenas para demonstrar uma tese pré-estabelecida. Quantas vezes ouvimos dizer que Marx “teria errado uma previsão”, que Marx tinha uma concepção “determinística” da história, em oposição a uma “idealista” e até “Crociana” (referindo-se a Benedetto Croce, nota do tradutor) de Gramsci? Que Engels fez do materialismo dialético uma forma de positivismo …

Cada uma dessas declarações é “demonstrada” cortando e costurando. Nada poderia ser mais fácil hoje em dia, na era do mundo fantástico do Facebook, em que todos estamos livres da necessidade de ler os clássicos do começo ao fim – há “tanta Wikipedia” que explica tudo, e há a rede em que nossos influenciadores nos dão tudo o que precisamos e nos gratificam. Li um artigo na internet, escrito pelo guru que de tempos em tempos escolho como referência e já sei de tudo: da técnica monetária à medicina.

Quem se aproveita de tudo isso é obviamente alguém que tem em mãos não toda a produção do conteúdo da rede – o que é obviamente impossível – mas seu manuseio e transmissão.

Dessa maneira, os agentes da burguesia são capazes de atacar o proletariado pelas costas, disfarçando-se de aliados. Essa é uma técnica que somente nas últimas décadas poderia ter sido implementada, graças às técnicas mais sofisticadas (o que é feito) e às tecnologias (com as quais as ferramentas são usadas) de controle de informações.

Na época do Czar, o máximo que o poder podia fazer era tirar de suas coleiras os espiões e agentes provocadores e infiltrá-los em movimentos espontâneos para identificar os mais ativos e atingi-los individualmente: é proibido e perigoso falar contra o poder estabelecido. Com o século XX, procedimentos sofisticados de submissão e adesão ideológica às classes dominantes – que o poder liberal ainda não havia experimentado completamente – foram inaugurados. O imperialismo sempre soube recorrer a formas de regimento para fazer suas próprias guerras, e levar os proletários a carnificina; mas ainda assim os oponentes foram marcados como “derrotistas”. Mesmo o movimento político das “suffragettes”, as sufragistas, que invocaram o direito de voto das mulheres, foi objeto de repressão policial e intimidação violenta. O fascismo foi um passo à frente no uso de massas organizadas pelo capital como uma arma contra o movimento dos trabalhadores, por meio do uso de disfarces e da mimetização de formas estéticas que imitavam as socialistas, revertendo seu significado; tudo isso, no entanto, foi associado a uma repressão à dissidência com métodos ainda mais cruéis e terroristas.

Hoje, contudo, o poder burguês é capaz de organizar a dissidência. Ou seja, não reprimir um movimento como resultado de uma manifestação de oposição, mas até despertá-lo primeiro, antecipadamente, apreendendo os sinais de mau humor e “criando” movimentos “espontâneos” para usar, alternativamente ou em conjunto, contra o descontentamento popular, contra outras potências burguesas concorrentes, contra governos hostis ou inconvenientes (“Primaveras árabes” e “revoluções coloridas”, “manifestações contra os ditadores socialistas” da América Latina e os “eventos de Hong Kong”). Não que não haja mais “movimentos” genuínos na Itália, como se evidencia pelo NoTav, NoMuos e outros. A experiência dos camaradas que neles militam há anos é uma barreira contra a intrusão do pensamento burguês. Mas vemos que a diferença numérica entre movimentos históricos que conseguem coletar um número de acessões é igual a uma fração dos movimentos nascidos no ontem. Hoje, as grandes manifestações com participação oceânica são organizadas pelo poder burguês e com impressionante força midiática.

A estética dos movimentos “teleguiados”, “controlados remotamente” (“movimenti eterodiretti”), antevê uma sempre igual articulação, baseada no reconhecimento simplificado, com base em um elemento unificador – por exemplo, em Hong Kong, os guarda-chuvas.

Na Itália, já vimos todos as cores: “roxo”, “amarelo”, “verde”. Tendo se esgotado a escala cromática, agora passamos ao peixe. O elemento de reconhecimento simplificado aqui é a “sardinha”. Note-se que a conexão com o slogan de onde esse se originou não tem qualquer importância, podendo ser qualquer coisa. A força da mensagem reside na sua simplicidade e replicação obsessiva.

Mas não é apenas um caso de marketing, isto é, de estética apelativa. Não é um produto que se deve vender pontualmente. É uma mensagem que deve interceptar impulsos íntimos já presentes na categoria de sujeitos presentes. Eles devem ser abalados da dormência em que jazem por uma razão que já nutrem dentro de si. Usualmente, essa motivação deve exacerbar medos reais ou previamente induzidos. Em Hong Kong, existe receio de que o Sistema Judicial chinês possa limitar os direitos mantidos até o momento, mesmo que a probabilidade de um cidadão de Hong Kong cumprir tais disposições [para extradição de criminosos] seja menor do que a de se sofrer um acidente de trânsito – a menos que seja um delinquente registrado. Mas quem sai às ruas não é criminoso. Eles são cidadãos que foram despertados pelo medo. Assim, paradoxalmente, os jovens que saem às ruas acabam por defender criminosos que, em qualquer país, deveriam apodrecer na cadeia.

Na Itália, um país onde felizmente ainda existe um sentimento antifascista preservado pelas tradições familiares – numa época em que a direita racista e xenófoba levantou seu “povo” para um chamado às armas com motivações igualmente instrumentais, acusando o governo presente de coisas que eles mesmos fizeram no anterior – o apelo contra o perigo do “fascismo” chegou no momento certo (“casca a fagiolo”, de maneira oportuna. Nota do tradutor).

A luta contra a Máfia foi uma das batalhas que os comunistas e todo o movimento siciliano dos trabalhadores lideraram desde o imediato pós-guerra, com um tributo pago em sangue que exigiria um artigo inteiro apenas para se resumir brevemente. Bem, todos os anos em Palermo, milhares de estudantes, muito jovens, são “deportados” em um navio para participar de uma demonstração oficiada pelos principais expoentes desse poder burguês, um evento que transmite uma visão da máfia completamente distorcida, completamente confortável. Para essa visão, a Máfia é uma “cultura” errada a ser erradicada, que não tem relação com aspectos econômicos ou sociais (de classe, sinto falta de falar sobre isso!). Até figuras históricas como o militante comunista Peppino Impastato estão inclinadas a essa “narrativa” insípida e inofensiva. O “curto-circuito” criado é o que segue: “a Máfia é uma coisa ruim, o Estado luta contra a Máfia, então, o Estado é uma coisa belíssima”; o atacante ou mesmo o crítica do Estado (burguês) é a Máfia; este é o momento de se juntar a todos nós para combater “o polvo”. Diga-se, entre parênteses, nos bairros populares de Palermo, o povo pobre (“popolo minuto”) odeia qualquer uniforme porque representa precisamente aquele Estado, do qual sempre receberam a pior opressão e, portanto, o “curto-circuito” funciona ao com sinal invertido: o Estado é ruim, o Estado luta contra a Máfia e, assim, a Máfia é belíssima. Um ótimo resultado para aqueles que dizem querer erradicar a Máfia! E, de fato, aqueles que realmente combatem a Máfia em bairros populares, todos os dias, dizem querer menos uniformes da polícia e mais uniformes de professores. Até alguns anos atrás, os líderes comunistas e da oposição social eram capazes de assumir uma posição autônoma, até que a repressão policial eclodiu, e queixas criminais surgiram. A partir daquele momento, a praça ficou “blindada”, e uma participação – ainda que crítica e separada – se tornou impossível e todos os componentes do movimento e mesmo representantes democráticos se dissociaram dela. Se hoje quiséssemos tentar ir àquela praça com uma posição alternativa, o único resultado seria levar água ao moinho do poder burguês: fazer números na melhor das hipóteses, ser preso na pior. Não obstante, a repulsão daqueles presentes certamente seria estimulada nessa orgia do “desfile anti-máfia”.

E, portanto, devemos nos limitar a uma campanha a ser realizada com os métodos usuais, alimentados com perseverança e humildade, feitos de reuniões, debates, discussões individuais para formar consciência e elucidar o que acontece. Tentar passar esse estágio, pensando que “uma vez que há uma grande massa reunida lá fora”, podemos “ir pescar”, é completamente irrealista.

Outro exemplo oposto: uma manifestação de trabalhadores convocada pelos sindicatos de concertação em uma plataforma reducionista e perdida, a qual definir como retaguarda seria enobrecer. Enquanto isso, sublinhamos uma fundamental diferença com um movimento gerado pelo poder burguês como uma organização do dissenso: a demonstração dos trabalhadores surge de uma necessidade de classe, mas é desviada e enjaulada pelos agentes da burguesia. Esse fato já a coloca em uma perspectiva que não pode ser assimilada à primeira. O que o Partido faz? Claro que vai lá [na manifestação]. Ele assume suas posições, fala aos trabalhadores, que serão, naturalmente, divididos entre aqueles que rejeitam nossas palavras e aqueles que talvez parem para conversar. Mesmo que o resultado fosse nulo em termos de consentimentos explícitos obtidos de imediato, mesmo que não mergulhássemos em um grande mar, mas falássemos apenas com algumas dezenas de trabalhadores, o ganho político é alto. Teremos a oportunidade de retornar a esse local de trabalho amanhã e depois de amanhã, ganhando credibilidade mesmo que não fossemos apenas pedir uma votação, mas mostrar nosso interesse de classe. Por sua natureza, esses trabalhadores são naturalmente levados a reconhecer como nossas posições são aquelas que eles gostariam de adotar, mas não ousam, porque estão presos à lógica de renunciação do sindicato de concertação. O solo é fértil.

Quanto às manifestações “Sexta-feiras para o futuro” ou “sardinha”: não é necessário estabelecer ‘presença ou não presença’ com base no número de participantes, mas com base na possibilidade de que nossa mensagem seja recebida, mesmo que por uma minoria – tendo também muito clara a natureza da gênese de tal movimento. E não apenas em razão de que nossos militantes poderiam estar engajados em uma atividade mais politicamente profícua, mas porque nos misturarmos em determinadas situações é realmente negativo. Um argumento semelhante poderia ser feito para qualquer outra manifestação de massas: do “Nenhuma a menos” (“Non una di meno”) às manifestações dos “forcados” (“forconi”). Certamente, em uma demonstração dos soberanistas (“sovranisti”), onde já existe o chapéu da direita, é apenas desqualificador até mesmo ser visto – por outro lado, setores dos “sovranisti” que não têm localização de classe, permeados por detalhes técnicos até o limite de conspiração, com muita fadiga poderiam ser úteis para conversar. Uma regra precisa é realmente difícil de se dar, devem ser os militantes e os líderes do lugar os capacitados a julgar, certamente em harmonia e coordenação central e não por conta própria. No entanto, o critério não pode ser “prato rico, eu mergulho” (“piatto ricco, mi ci ficco”, dito popular italiano), assim como se faz no pôquer.

Para os comunistas, existe apenas um auxílio à análise e à subsequente modalidade de intervenção no que diz respeito à relação com os movimentos: DISTINGUIR entre aqueles que estão CONTRA o sistema e os que estão COM o sistema. Se, na França, por exemplo, os ‘coletes amarelos’ tendiam a estar na primeira categoria (e de fato o poder burguês os ataca com uma virulência policial “sul-americana”), na Itália os “sardinhas” estão majoritariamente na segunda (e são abençoados e exaltados).

Não há dúvida de que esse movimento é “eterodiretto” (palavra italiana que significa pessoa ou organização incapaz de tomar decisões autonomamente, devido à influência ou controle de um corpo externo), que não há nada espontâneo em seu caráter e que existe, por trás, uma preparação cuidadosa. Seria uma questão de entender por que certos setores da burguesia monopolista estão tão ansiosos para criar tudo isso. É claro que o conflito que se abriu nos dias de hoje no ESM (Mecanismo Europeu de Estabilidade) é um dos pontos de conflito mais agudos entre setores do capitalismo italiano, os do campo ‘Europeanistas’ (“Europeanist”) e aqueles do campo anti-Europeu. Outro artigo seria necessário para examinar os vínculos que ligam os interesses econômicos dos vários setores da burguesia italiana às suas respectivas projeções políticas. Basta observar aqui que deve estar claro como o sol para os comunistas que não há bom ou ruim capitalismo. Na realidade, o resultado obtido é o seguinte curto-circuito: “você é contra Salvini, Salvini é contra o ESM. Você deve permanecer com o ESM, o que dizem contra ele são apenas mentiras dos fascistas”.

Esse “curto-circuito” quer colocar todos contra o novo perigo “fascista” – do PD (Partido Democrata, “Partito Democratico”) aos “sardinhas”, da nova lei eleitoral de responsabilidade do PD-Lega (“Lega Nord” é o partido de Matteo Salvini, nota do tradutor) à resolução que equipara o comunismo ao nazismo. Para fazer isso, no entanto, eles devem demonizar a Resistência e, acima de tudo, os comunistas, com reconstruções históricas incrivelmente falsas como « páginas sombrias, como tiroteios desencadeados pelos comunistas “que pretendiam manter sua supremacia numérica e política sobre todas as outras forças”. Eventos muito comuns em Emília e Romagna, o coração dos partisans vermelhos – que não hesitaram em chegar a acordos estratégicos com os nazistas para eliminar os partisans rivais ». Quem não entende esse jogo caluniador, ou não tem habilidades analíticas ou é um cúmplice.

Talvez em uma praça a recepção de nossa mensagem seja mais provável, enquanto em outras há condições realmente negativas. Por exemplo, em Palermo, os camaradas julgaram a intervenção impraticável. A predominância do elemento político dominado pelo Orlandismo e pelo PD foi tão esmagadora que até a tentativa foi inútil. Outros elementos da oposição realizaram essa tentativa não trazendo as bandeiras, mas apenas uma bandeira de uma associação. Eles foram isolados e eventualmente expulsos. Nem mesmo o resultado de se capitalizar em cima dessa atitude como denúncia da arrogância dos organizadores foi obtido. Os poucos que tinham simpatia por eles, a mantinham; todos os “democratas” que lá estavam e testemunharam a cena os rotularam de provocadores – que queriam colocar o chapéu político na manifestação – obtendo-se, eventualmente, um resultado negativo. Não excluímos que, em outras praças, com uma hegemonia menos caracterizada e uma capacidade de mobilizar nosso partido, os resultados poderiam ser diferentes. Mas todos nós vimos em Florença, em uma região vermelha, numa praça, mesmo esperando um mínimo de receptividade, uma maioria absoluta de manifestantes se atirando em um camarada que exibia uma bandeira vermelha com uma foice e martelo.

Uma coisa essencial liga todas essas situações e deve caracterizar nossa voz em nível central.

Nesse contexto, é essencial que o Partido Comunista levante sua voz o mais forte possível para expor a estratégia da burguesia diante das classes populares. Quaisquer que sejam as limitações nesta campanha, lembremos com armas amplamente desiguais, são fatais.

Falando da manifestação sindical, por exemplo, tendo de ir nossos militantes para levar um panfleto e tentar conversar com esses trabalhadores, poderia o partido em sua propaganda centralizada nacionalmente pensar em mitigar a controvérsia contra os líderes sindicais? Claro que não! Isso torna a infiltração imediata da mensagem de nossos camaradas mais difícil? Claro que sim! Seria mais fácil seguir a tática “entrista” que certos setores teorizaram nas últimas décadas. Isso pode garantir a alguns militantes talvez assumir algum papel de visibilidade secundária dentro de uma organização reacionária, mas às custas da força de sua mensagem. Mas, a longo prazo, expressar uma posição intransigente, em nível nacional, sobre esse ou aquele assunto não enfraquece a intervenção de militantes nos locais de trabalho ou nos territórios em que eles intervêm. De certo, uma posição clara e intransigente, mesmo que acentuada – se necessário – só pode ajudar o militante que lidera uma ação de agitação ou propaganda em terreno hostil, mas fértil. Em vez disso, em um terreno infértil, não é uma coisa ruim se ir, se se acredita que, em qualquer caso, o efeito da “visibilidade” pode superar os outros aspectos negativos.

Nossa tarefa como agitadores e propagandistas não é vender sabonetes, não é embelezar nossa mensagem para torná-la aceitável e garantir que nosso cliente compre nosso produto pelo menos uma vez. Ela é infinitamente mais difícil. Consiste em comprar um produto desconfortável, do qual nosso interlocutor simplesmente não quer ouvir, porque vamos perturbá-lo em seu casulo com a tranquilizadora “narrativa” que o poder criou para ele, mesmo que não constitua um mentira que essa se choque com a realidade e com a opressão em que vive. Somente se conseguirmos sintonizar-nos em seus problemas, podemos sacudi-lo.

Ele conhece seus problemas sem que nós os contemos a ele. A solução que propomos é o socialismo. No meio, devemos ser capazes de ver um realista, concreto – mas não oportunista, gradualista e reformista – caminho de luta.

Pensar que podemos resolver esse problema histórico do movimento comunista por meio de elementos estéticos é um eufemismo. O tema do desenvolvimento de uma estratégia revolucionária em uma situação não-revolucionária nos países de capitalismo avançado é o problema histórico sobre o qual o movimento dos comunistas e dos partidos dos trabalhadores hoje se questionam, e nenhum deles se refere aos problemas da inovação estética.


* Alberto Lombardo é membro do Gabinete Político do CC do Partido Comunista – Itália.

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