Reflexões teóricas sobre o Trabalho: O Músico em questão

Por Guilherme Nardi

“Este artigo é uma reflexão teórica na tentativa de iniciar uma pesquisa sobre as relações entre trabalho e música. Uma das minhas preocupações é tentar entender as relações de classe dentro do mundo dos trabalhadores de música. Não simplesmente tentar ver a luta de classe nestas relações, não sei nem ao certo se os trabalhadores daqui se enxergam como tal. O meu objetivo é observar as tensões que são formadas nestas relações e identificar se existem lutas e resistências nestes locais.”


O estudo teórico sobre a relação entre música e trabalho que pretendo em entender é sobre a condição de trabalho dos músicos em Toledo – Paraná. Partindo deles com intuito de mostrar a realidade de uma classe oprimida por um sistema capitalista que sofre consequência pelas relações de trabalho que esta forma de economia proporciona. Este sujeito por muitas vezes assume o mesmo discurso e aprende que este é seu local e acabando por vezes não buscar seus direitos. Pretendo em primeiro momento levantar um contexto histórico procurando observar as transformações culturais que a sociedade compreende o músico como trabalhador, por fim chegar aos dias atuais e observar as consequências históricas que os mesmos vivem. A partir de então, com as entrevistas já feitas e possíveis novas entrevistas entender o processo que levou o trabalhador as suas condições.

Observando os estudos acadêmicos sobre o caso vemos que as condições de vida nãoo favoráveis, isso se leva em conta pelos sentidos e significados que estes sujeitos enfrentam.

“A alta performance desenvolvida pelo músico através de anos de estudo é vista como tendo sido alcançada por inspiração divina, ou por dom, talento. Nesse sentido, Requião(2008) refere que essa ideologia vem amparando as mais diversas formas de se justificar as condições precárias do trabalho do músico. Como exemplo disso, observasse de forma bastante frequente, as duplas jornadas de trabalho e tanto o valor pelo trabalho como as formas de pagamento pelos serviços prestados, sem nenhum tipo de regra”. (LURDES, 2013 p. 130)

 Temos evidência concreta disso na sua alta jornada de trabalho muitas vezes despercebida, pois não é uma profissão que muitas vezes você começa e termina em determinado horário, criando uma falta de sensibilidade de enxergar a vida profissional do músico, este fato foi relatado por mais de um entrevistado. Vejo aqui uma categoria que é explorada por inúmeros fatores e sofre de uma carência acadêmica que debruce sobre estes problemas.

Na historiografia sobre o tema podemos observar pesquisas que abordam a situação do músico como trabalhador em grandes centros, mas acredito que no Oeste do Paraná ainda não, e isto me leva a  acreditar que pode haver problemas específicos que pesquisas de outras regiões nãoo conta de explicar. Então, entender a relação entre cultura local pensando no que ela expressa compreender por esta profissão, e a situação dos músicos como trabalhadores no Oeste do Paraná, acredito ser um campo carente de reflexões.

As minhas questões por vezes estão referentes a entender como o músico se entende nesta cultura, como ele enxerga sua categorial social? Ou talvez, alguns não estariam envolvidos pelo significado de que ser músicoo é trabalhar então aceitariam as condições impostas tentando métodos alternativos de se sustentar? Como muitas pessoas hoje em dia que possuem duas jornadas de emprego diferente. Talvez estes discursos criem uma base ideológica onde o próprio músicoo consiga ver seu direito de mudança e isso faz com que ele não tenha anseios para lutar pelo mesmo.

Este artigo se limita em pesquisas feitas sobre o tema e reflexões acerca da metodologia sobre o tema, as entrevistas deixarei para uma pesquisa em breve.

 Um breve histórico do músico assalariado livre

“À medida que os artistas não se acharem mais na dependência de determinadas classes sociais e dos interesses particulares dessas classes, a criação artística será mais livre e alcançará melhores resultados. Nem todos os artistas se transformarão em gênios, mas todos os artistas que forem realmente geniais poderão se desenvolver sem entraves, isto é, poderão trabalhar com independência, sem estarem presos às injunções do mercado capitalista.” (KONDER, 1999 p.92)

Segundo Karl Marx (apud Konder 1999), não deveria haver na sociedade nenhum pintor, mas homens que entre suas profissões pintassem, pois, a própria definição de sua atividade como pintor, mostra sua dependência com a divisão de trabalho, e isto só ocorre porque estamos em uma sociedade classista em que categorizou a arte como um produto de mercado. Ou seja, nas relações de trabalho dos tempos atuais o músico é um trabalhador assalariado e livre que por finalidade aparece como mais um produtor de capital, vendendo a arte como forma de subsistência.

Por outro lado precisamos entender que a música esta presente na humanidade muito antes do capitalismo tomar forma das nossas condições de trabalho. Se formos tentar mapear historiograficamente veremos que sua definição, prática e até mesmo linguagem musical harmônica nos mostram gregos antes de cristo tento esta pratica em seu cotidiano. Já na idade média europeia a música era destinada aos cultos religiosos. Com o desenvolvimento das cidades a música passou a desempenhar outros papeis na sociedade além de cantigas para adorar os deuses. Na renascença, o centro da gravidade da música estava voltado para os palácios. Segundo os estudos do sociólogo Nobert Elias, sobre a música ela;

“Não existia primariamente para expressar ou evocar os sentimentos pessoais, as tristezas e as alegrias das pessoas individualmente. Sua função primária era agradar aos senhores e senhoras elegantes da classe dominante”.(ELIAS, 1995. p.89).

Diferente do nosso tempo, um músico tinha o mesmo Status social que qualquer artesão. Estando sempre subordinado a algum financiador ou patrono, era um funcionário visto do mesmo jeito que o cozinheiro, ou outros empregados. A figura do músico como nós conhecemos vai se transformando as poucos com o decorrer dos tempos, “o perfil profissional do músico e suas formas de atuação profissional vêm se remodelando frente às transformações do regime de acumulação capitalista” (LURDES, 2013. p,130)refletindo nele as transformações históricas das relações de trabalho.

O significado do seu ofício como trabalho, nos moldes que conhecemos hoje em dia, ganha outras dimensões quando o capitalismo entra em cena na sociedade. Com o fim do feudalismo, temos o fim da servidão e liberdade dos indivíduos. “No entanto, esses recém-libertados só se convertem em vendedores de si mesmos depois de lhes terem sido roubados todos os seus meios de produção, assim como todas as garantias de sua existência que as velhas instituições feudais lhe ofereciam.” (MARX, 2013. p. 962). Então, o música tem que se adaptar a essa nova condição de vida, se encaixando na figura de trabalhador autônomo, que vai aparecer no século XIX. Isto se da pelo fato de haver cidades com um fluxo de gente maior onde se inicia um desenvolvimento de várias tarefas que fazem ele compor sua renda, como: Dar aulas e vender instrumentos. (REQUIÃO, 2008.)

Podemos definir uma relação entre trabalho e ofício do músico?

Para respondermos a esta pergunta, precisamos definir o que entendemos sobre trabalho e música. Segundo a Encicloédia Einaudi, o termo trabalho no decurso dos séculos significa: Tarefas humildes dos homens e mulheres que daí não retiravam proveito(GODELIER, 1985, P11).  A noção que hoje adquirimos é capitalista, trabalho é uma forma de produzir capital, em uma sociedade dividida entre: classe capitalista e a classe trabalhadora. Ou seja, a forma de se adquirir riqueza se da entre: pessoas que compram a mão de obra de outros, e pessoas que vendem sua mão de obra.  Segundo Marx(1857 apud Godelier 1986), a definição que temos de trabalho se vem quando a produção se torna uma produção de mercadorias e quando a maioria dos produtos úteis se trocam entre si de modo a se converterem em frações distintas, criando um resultado abstrato disso que é o dinheiro.

Pensando neste termo, será que o música se encaixa na definição que temos sobre a noção de trabalho? Será que o conceito Pois a própria definição de arte igual a trabalho é uma coisa questionada na sociedade, tento entender o quanto este discurso se torna prejudicial as condições de trabalho dos músicos.

Para Marx e Engels (1986 apud Requião, 2008) , as formas de um trabalhador vender sua mão de obra pode ser produtivo ou improdutivo para o capital. Para os mesmos, se um cantor vende sua voz por conta própria, ele é improdutivo para o capital, pois este esta fazendo uma relação de troca da sua força de trabalho por dinheiro. Mas quando mesmo é contratado por um empresário, este esta afomentando o capitalismo e se tornando um trabalhador produtivo de capitais. Neste sentido, um músico perpetua por várias formas de relações de trabalho ao mesmo tempo, não esta determinado a um modelo.

Existem vários métodos para entendermos a relação entre a noção social do significado de trabalho e cultura, uma forma ao meu ver e muito apropriada seria a de promover entrevistas com alguns músicos e delimitar uma região, ou seja, os sujeitos históricos a quem se refere a pesquisa, com a finalidade de darmos voz a quem estamos falando, pois assim entenderemos as relações que estes tem sobre o trabalho. Esta parte deixarei para uma futura pesquisa, o método que utilizarei agora é de resgatar pesquisas que nos encaminham para estas questões. Para, começo de conversa, precisamos então entender como o ofício é visto em sociedade, segundo Requião (2008 apud  Lurdes e Gonçalves 2013):

“A música é associada por muitas pessoas, ao lazer e ao ócio, a uma atividade não produtiva ou não rentável, o que a distancia de uma atividade de trabalho. É comum relatos de músicos sobre como sua atividade é vista com certa desconfiança pela sociedade, como se ser músicoo fosse um trabalho, uma forma de sobrevivência. Por outro lado, dizer que o músico toca por inspiração divina, um talento ou dom, é desmerecer todo o processo de trabalho realizado, horas de estudo e dedicação até chegar a performance final, apresentada ao público, como se esse resultado não fosse às custas de grande esforço”(LURDES, 2013. p, 124).

Pelo que percebemos, antes do trabalhador assalariado livre entrar em cena, o músico era visto como os demais funcionários financiado pelos seus senhores, quando a lógica trabalhista muda, o ócio começa ser questionado na sociedade e sua função por consequência acaba desvalorizando, pois os valores sociais se transformam.

Esta falta de entendimento que se tem sobre o trabalho do mesmo, como oo reconhecimento das horas que se passa trabalhando fora do palco, acabam perdendo a força de valor que é o trabalho do mesmo. As horas de trabalho fora do palco são muito maiores e nãoo reconhecidas nem remuneradas.

No livro Costumes em comum, Thompson(1998) discutir que no período da Revolução Industrial Inglesa durante o século XVIII a burguesia transformou as noções de tempo em inúmeras culturas na sociedade para os moldes capitalistas. A noção do tempo no trabalho virou sinônimo de produção de riqueza e todos os ofícios acabam se enquadrando nesta lógica. Mostrando as diferentes relações entre trabalho e tempo no decorrer da história. Este trabalho que se torna “refém” do tempo, é um trabalho que gera em torno da mais-valia. A consequência desta forma de relação na sociedade é uma exploração que se estende cada vez mais nos dias atuais, isto na transformação da vida do músico fica claro nos estudos de Luciana Requião:

“As duplas ou triplas jornadas de trabalho são freqüentes e o preço pago pelo trabalho do músico, assim como as formas de contratação e remuneração, é estipulado pelo empregador segundo seus próprios critérios. As relações de trabalho se apresentam de forma precarizada, tanto por seu caráter informal quanto pelo trabalho não pago, “já que o trabalho musical é habitualmente visto como aquele que se dá apenas no momento da apresentação ao vivo”(REQUIÃO. 2010 P,229)

Esta desvalorização do trabalho cria um sentimento de não pertencimento a uma classe, e isto aparece A corrosão do caráter de Richard Sennett (2003) aponta a questão da indiferença do capitalismo com o trabalhador e seu modo de tratar as pessoas como descartáveis. O autor mostra que esta falta de confiança em si mesmo no pertencimento de classe, é uma ação gerada por este sistema. Sobre o capitalismo e  sua relação com o trabalhador enquanto classe ele comenta:

“Irradia indiferença na organização da falta de confiança, onde não há motivo para se ser necessário. E também na reengenharia das instituições, em que as pessoas são tratadas como descartáveis. Essas práticas óbvia e brutalmente reduzem o senso de que contamos como pessoa, de que somos necessários aos outros”.(SENNETT. 2003 p. 174).

Um caminho para a observação das manifestações dos trabalhadores como classe

Este artigo é uma reflexão teórica na tentativa de iniciar uma pesquisa sobre as relações entre trabalho e música. Uma das minhas preocupações é tentar entender as relações de classe dentro do mundo dos trabalhadores de música. Não simplesmente tentar ver a luta de classe nestas relações, não sei nem ao certo se os trabalhadores daqui se enxergam como tal. O meu objetivo é observar as tensões que são formadas nestas relações e identificar se existem lutas e resistências nestes locais.

Para isso, aprofundei os estudos sobre o conceito de classe. Segundo Hobsbawm, Marx utilizou o termo consciência de classe em dois sentidos:

“Primeiro, ele podia significar aqueles amplos conjuntos humanos que podem ser reunidos sob uma classificação segundo um critério objetivo – por manterem relações similares com os meios de produção – , e  mais especificamente, os agrupamentos de exploradores e explorados que, por razões econômicas, são encontrados em todas as relações humanas que ultrapassem a fase primitiva comunal.”(HOBSBAWN.2000, p.34 )

Nesta fase vemos uma visão de classe determinista, ela é importante para se entender os estudos, segundo Hobsbawn, o significado do termo não pode se esgotar neste sentido. O segundo sentido usado ao termo, se refere no estudo sobre consciência de classe. Cabe a reflexão aqui: Uma sociedade em que o termo classe não existia, poderia ter se organizado de forma classista? A consciência de classe é necessária para tensões entre elas? Não havia formas de resistência entre um grupo de ser humanos oprimidos por outros?

Para Thompson(2001), “Classe, (…) é uma categoria histórica, ou seja, deriva de processos sociais através do tempo. Conhecemos as classes porque, repetidamente, as pessoas se comportam de modo classista”. Segundo ele, existe uma leitura histórica onde o mundo do trabalho é visto em uma categoria de classe estática, ou seja, as relações de trabalho não sofrem um processo histórico, é como se pós Revolução Industrial os sujeitos se formassem em grupos de operários e uma consciência fosse formada do dia pra noite. Isto cria uma “fórmula” histórica muito confortável para o historiador. Esta categoria estática não da conta da realidade, pois ela determina moldes históricos e aplica em sociedades, acaba neutralizando sujeitos e lutas que aparecem no decorrer. Nestes moldes, a minha pesquisa poderia cair em um enorme erro, pois nem sei ao certo se existe uma consciência de classe, e como ela é formada, estaria enquadrando moldes teóricos sem pensar na realidade. Percebendo isso, ele acaba observando que sociedades que não possuem a consciência de classe, possuem lutas de classe. Para Thompson o século XVIII, é um muito violento neste sentido, sem necessariamente os sujeitos participarem do que entendemos sobre “consciência de classe”, mas as formas de resistência sobre as tensões que haviam entre grupos de sujeitos se organizando, não apenas por identificação de trabalho, mas por uma experiência de uma realidade determinada por um sistema.

No livro Costumes em Comum, o historiador Thompson(1998) nos convida a uma nova perspectiva de analisarmos a história. No seu livro, a partir da cultura ele analisa os costumes em comum para evidenciar sujeitos e posicionamentos que por vezes não apareciam na história. Isto se dá pela inovação na questão do pensamento sobre as fontes a qual suas pesquisas iram se direcionar. A sua atenção é bastante direcionada em qual documento histórico usar, acabando por vez criticar um pensamentos dos historiadores da sua época que era hierarquizar a importância dos documentos. A história cultural então ganha novos horizontes, mostrando agora as lutas e resistências de classe, em sociedade que não haviam a noção deste conceito, mas manifestavam-se desta forma.

Nestes documentos Thompson inova a história entendendo o costume como uma expressão social, para ele observando as práticas do cotidiano das civilizações podemos ter indícios de posicionamentos  que outras fontes não nos revelariam. Os documentos oficiais da época chegam perto da realidade dos que escreviam sobre ela, ou seja, a maioria dos arquivos eram da aristocracia da época. É muito mais difícil estudar civilizações antigas onde a classe desprivilegiada colocasse a história do próprio punho, pelo fato de não registrar na história seu cotidiano. Um exemplo é entender o índio na história do Brasil a partir dos escritos dos europeus que vinham para cá. Por estas fontes, Thompson tenta entender os costumes que aparecem e as formas não reveladas pelos documentos para entender uma sociedade histórica não relatada até então.

A partir de então, o autor discuto sobre o que seria uma sociedade de classes. Ele percebe na história, lutas e resistências de classe antes do conceito ser incorporados pelas pessoas. Para Thompson, existe luta e resistências de grupos sociais, mesmo em sociedades que não haviam conhecimento teóricos específico, pelo simples fato de se organizar e resistir a ordem da época, estes grupos se organizavam em categoria.

Ellen Wood em seu livro Democracia contra capitalismo explica a preocupação de Thompson no decorrer de suas pesquisas: Para ele…

“É tornar a classe visível na história e suas determinações manifestas como forças históricas, como efeitos reais no mundo, não como simples constructos teóricos sem referências a um processo ou uma forma social real.”(WOOD, 2003. p, 87)

Nesta linha de raciocínio o historiador não pode entender as relações apenas em posições estruturais, isto acaba neutralizando conflitos, lutas e resistências dos trabalhadores, deixando de lado o que ele enfatiza como um real processo das relações de classe.

A minha questão para entender o mundo dos trabalhadores com música é entender como essas questões vão se desenvolvendo no processo histórico. Seria um erro ter uma visão de mundo estruturada onde as relações já estão formadas por moldes teóricos e não pensar nas realidades históricas entendendo elas como um processo. Por isso, a pesquisa seria entender o processo das  lutas e resistências e como se manifestam no cotidiano do músico.

Para Ellen Wood,  a “classe como relação” existe entre classes distintas, e a entre os membros da mesma classe. Isso é pensar além das estratificações que focam em estudar distribuições de renda, grupos ocupacionais dizendo respeito a diferenças e desigualdades e não a relações. Cada classe possui relações particulares. Classe nãoo trabalhadores reunidos contra um explorador, “Os laços que ligam os membros de uma classe nãoo definidos pela afirmação simples de que classe é determinada estruturalmente pelas relações de produção”(WOOD, 2003. p, 87).

Thompson é muito importante para a pesquisa sobre as relações do músico com o trabalho, pois ele nos leva a pensar a formação de uma consciência de classe para além das fábricas. Em seu livro A formação da classe operária inglesa(1987) ele mostra que as relações de classe estãoo estão no processo de produção, então a pergunta que cabe é pensar: Onde estaria a ligação que une as pessoas como classe? Para Thompson, as determinações estruturais que formariam uma classe se dariam então de uma experiência histórica vivenciada pelos sujeitos em demais setores. Então, as pressões do trabalho são vivenciadas coletivamente criando uma “experiência comum”, isto  por consequência criam identificações entre os sujeitos. Então, nesta perspectiva, pensar em minha pesquisa é identificar nas entrevistas com os músicos, quais as experiências em comum que eles têm determinadas por uma estrutura que criam relações em comum entre eles, fazendo se enxergarem como “classe”. Pois um ponto, ainda prematuro da pesquisa é pensar: Dentro do discurso, existe uma consciência de uma formação de classe ou apenas manifestos de resistência? São pessoas que muitas vezes nem se conhecem, mas compartilham de uma determinada pressão no trabalho criando uma consciência semelhante.

Uma forma coletiva de lutar por direitos do trabalho é a unificação dos sujeitos em classe. Uma questão que penso é tentar entender se o músico se enxerga como classe trabalhadora, e estes discursos criados sobre a desvalorização do seu ofício como um trabalho atrapalham no processo de uma identificação de classe.

História Global do trabalho como ajuda metodológica a pesquisa

Segundo Marcel Van der Linden(2013. p,9), as pesquisas históricas sobre história do trabalho no séc XXI, estão sofrendo uma transformação para uma verdadeira história global do trabalho. Para entendermos isto basta comparar as pesquisas recentes. Antes os pesquisadores se preocupavam com os países desenvolvidos e com o leste europeu/Rússia. Era uma interpretação muito estreita ou eurocêntrica. Essa tradição de estudo vem desde os primórdios da disciplina em 1840. Este trabalhador estudado por eles era um indivíduo “duplamente livre” (livre no sentido marxista de escolher seu empregador e livre da propriedade capital). Este trabalhador era geralmente do sexo masculino e trabalhava no transporte, minas, indústrias. A família do trabalhador aparecia em segundo plano com uma função apenas de consumidora ou reprodutiva. Onde se gastavam os salários e educavam os filhos.

Na historiografia clássica da história do trabalho, existem cinco classes subalternas ao capitalismo. Assalariado(donos da sua força de trabalho), autônomo (donos da sua força de trabalho e meio de produção e vendem o resultado de sua produção), pequeno burguês(pequenos produtos e empregam algumas forças de trabalho), escravo(não é dono nem da sua força de trabalho), lumpemproletariado ( não possui força de trabalho legalizada). Na perspectiva de Marcel Van Der Linden, a história global do trabalho vem com a perspectiva de entender o trabalho em diferentes aspectos na sociedade.

A visão clássica sobre identidade de classes possuem premissas que devem ser discutidas.

“Algumas dessas premissas originam na ideia de que o trabalhador vende sua força de trabalho ao empregador em troca de dinheiro, e então compram bens de primeira necessidade com o dinheiro do salário. Ao consumir esses bens, eles reproduzem sua força de trabalho para poder novamente vendê-la a seu empregador.”(LINDEN, 2013. p,9),

Marcel Van der Linden nos apresenta um diagrama que representa uma equação para explicar a visão clássica dos estudos sobre trabalho: Força de trabalho – dinheiro – Bens de consumo. Marcel aponta vários problemas sobre esta visão. Em primeiro lugar: esse esquema é uma abstração. Nãoo levados em consideração a compra desses bens de consumo nem o esforço despendido em torná-los próprios para o consumo. (comprar e preparar os alimentos).O trabalho assalariado não poderia existir sem o trabalho de subsistência e cooperação. Existem trabalhadores que não precisam fazer trabalho de subsistência, mas são de classes privilegiadas, e não correspondem com a realidade da maioria. No decorrer da história do patriarcado por exemplo, o trabalho de subsistência eram feito por mulheres e não se enquadravam nos nos estudos sobre o tema.

Em segundo lugar, o diagrama se limita que a relação é dinheiro por força de trabalho. São ignorados os vínculos possíveis. O empregador pode oferecer acomodações ou obrigar o empregado a comprar dele. A relação entre os dois não tem que ser econômica, podem ser por parentesco, religião, amizade. Pensando isto no mundo das relações entre músicos e casas de shows, muitas vezes o músicoo ganha salário e sim “divulgação” do seu produto, ou parte do acordo é fechado em troca  de serviços da casa. Estas relações são estabelecidas de diferentes maneiras de acordo com cada casa de show que o músico fecha, não estabelecendo em si um “salário mínimo da profissão”, por isso é muito difícil estabelecer e lutar por direitos de classe.

Em terceiro lugar o diagrama cíclico sugere que o empregado pode ter apenas um único empregador. E que ele só participe de uma única relação de trabalho. É comum encontrarmos pessoas com diversos empregos, e de formas diferentes, sendo autônomos e assalariados ao mesmo tempo. Observando os estudos acima feito sobre os músicos percebemos que este diagrama não ajuda em enxergar a realidade histórica.

A proposta dele é mostrar que as pesquisas históricas sobre o trabalho estão ganhando um novo direcionamento, e precisão superar os moldes clássicos da História do trabalho. A nova perspectiva tenta entender todas as formas de trabalho na sociedade e estudar além dos trabalhadores assalariados, trabalhos que fazem parte do cotidiano e não tinha voz. Por mais que faça parte de uma micro história, isto acaba tendo relação com o macro. A minha pesquisa então se utiliza desta perspectiva pois é tentar entender as diferentes formas de trabalho que um músico pode exercer, não só nos moldes no sentido de gerar capital ou subsistência. Muitas vezes o músico trabalha muito em troca de “divulgação” do trabalho, esta relação de trabalho não está nas perspectivas do trabalho como gerador de capital ou subsistência. São estas formas de trabalho por vezes despercebidas que quero entender.


Bibliografia

ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

KONDER, Leandro. Marx – vida e obra. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Lüders, D., & GONÇALVES, C. G. D. O. Trabalho e saúde na profissão de músico: reflexões sobre um artista trabalhador.Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba. 2013.

HOBSBAWN, E. J. Mundos do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.

MARX, K. O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

LINDEN, Marcel Van Der. Trabalhadores do mundo: ensaios para uma história global do trabalho. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

REQUIÃO, L. P. D. S. Eis a Lapa…”: Processos e Relações de Trabalho do Músico nas casas de shows da Lapa. 248 f (Doctoral dissertation, Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense). 2008.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2003, p.174.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária Inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

________________.  As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: UNICAMP, 2001.

________________. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

WOOD, E. M. Democracia contra capitalismo. São Paulo: Boitempo Editoral, 2003.

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