O fim do capitalismo começou?

por Gabriel Landi Fazzio

O debate recém-lançado por Paul Mason sobre o “advento do pós-capitalismo” merece alguma atenção – talvez porque seja a mais bem acabada forma de demonstrar seu próprio exagero.


 

Os anos 90 foram, ideologicamente, o ápice do neoliberalismo. No fim de 1989, no mesmo mês em que caiu o Muro de Berlim, ouviu-se falar pela primeira vez em um Consenso de Washington. O fim do “Bloco Socialista”, em 1991, na esteira do consenso neoliberal, foi propagandeado como o “fim da história”. Mas falar no fim da história é conjurar fantasmas filosóficos que cobram seu preço. Menos de três décadas depois, em meio à crise e à ascensão das lutas de massas e conflitos armados, Fukuyama é posto de lado como farsa evidente mesmo pelas visões calcadas em sua tese. A tragédia aqui reside em sua impossibilidade de nos fornecer, ao contrário de Hegel em sua afirmação do “fim da história”, um ponto de partida sólido para a crítica filosófica da razão de nosso tempo.

Após o grito triunfal de Fukuyama, o pensamento acadêmico passou a preocupar-se dos temas pós-históricos. As contradições sociais passaram ser apresentadas como culturais, ao gosto liberal. As classes sociais foram declaradas extintas pela teoria (que alívio é o saber epistemológico para os trabalhadores!), e a modernidade foi declarada ultrapassada. Quando a história resolveu ressuscitar, para espanto da razão desse tempo que se negou enquanto tempo, pudemos nos deparar com um profundo descompasso entre a teoria das novidades e mudanças ocorridas no mundo e as semelhanças de sua realidade com o passado.

Paralelamente a isso, para além dos círculos intelectuais e suas interpretações da realidade, a história parecia suspensa em incertezas para os trabalhadores – arrastados e com suas condições subjetivas de resistência arrasadas pela reestruturação produtiva, após sucessivas derrotas. A despeito do acirramento das desigualdades, porém, o neoliberalismo apresentou-se abertamente aos olhos de todos como um modelo produtivo mobilizador de forças colossais, com sua Revolução Verde e sua Revolução Digital. Andando lado a lado com o discurso do fim da história, tais desenvolvimentos fantásticos das forças produtivas ajudaram a produzir um mito corrente, uma utopia de ficção científica liberal, exaltando as novas tecnologias. E, na medida em que se deve esperar o bolo cresce para depois repartir, as lutas de classes não têm mais sentido de ser, pois rumamos, daqui em diante, tranquilamente para o fim do reino da escassez – onde todos seremos carregados em esteiras rolantes e poderemos mesmo abandonar os estudos em troca de implantes neurais. Os teóricos do fim dos empregos nunca conseguiram chegar a ser tão idílicos – e às vezes soam prever causas catastróficas e consequências envoltas nas brumas. Ainda assim, um sonho corrente de nossos tempos é o futuro onde a humanidade vive no ócio e na abundância, e máquinas realizam todas as tarefas produtivas e reprodutivas fatigantes e desinteressantes. (Seriam as distopias de um mundo onde as máquinas exploram a humanidade o negativo destes sonhos ou o pesadelo do real? E, rumando para a segunda opção, não seria esse mito então apenas a própria realidade apresentada de ponta cabeça?).

Na verdade, como Peter Frase precisamente debate, nossos tempos representam nisso o ápice dessa antiga ansiedade com os efeitos do desenvolvimento tecnológico capitalista sobre o trabalho. É nesse contexto que se inscreve o texto recentemente publicado por Paul Mason, no The Guardian. É sintomático que sob o título de “O fim do capitalismo começou” o que se tenta provar é, na verdade, que já estamos vivendo um suposto pós-capitalismo – que pode, por sua vez, encerrar o capitalismo com o qual ele coexiste.

Em contato com as mobilizações europeias contra a austeridade, em especial na Grécia, – além de algum conhecimento dos movimentos de massas recentes no Brasil e na Turquia – Mason é incapaz de falar conscientemente num fim da história. Exatamente por isso que, quando suas concepções tangenciam todos os âmbitos destas tendências ideológicas neoliberais, mas de um ponto de vista que se pretende anticapitalista, tornam-se interessante ponto de partida para defrontar a ideologia dos nossos tempos. Tomar criticamente o texto de Mason é interessante não apenas por sua ampla difusão recente – mas porque exatamente aqui é onde tais tendências ideológicas parecem se renovar, se atualizar, se porem em movimento e se preocuparem com o futuro das massas de forma mais intensa e profunda. Sendo franco mesmo com Mason, teríamos de dizer que ele parece dar mais peso a algumas implicações de alguns de seus próprios postulados do que para as de outros.

Tentaremos resumir os resumidos argumentos de Mason (seu texto no The Guardian é a apresentação de seu recém-lançado livro), e em publicações posteriores nos deter criticamente sobre as polêmicas que parecem dignas de serem levantadas: a permanência do capitalismo, a questão da “acumulação primitiva”, a questão da política (oculta no fatalismo otimista de Mason) e, na verdade a começar por ela, a questão do fantástico desaparecimento da classe trabalhadora, sem que com isso tenha desaparecido a burguesia.

Breve exposição crítica das ideias de Mason

Colocadas nossas considerações iniciais (e alguma sagacidade propagandística do autor), não surpreende que Mason inicie seu texto declarando que, nos últimos 25 anos, o projeto da esquerda colapsou: é esse o ponto de partida que o aproxima radicalmente da ideologia do fim da história, quando opta por pôr no centro epistemológico de sua narrativa não o início da exploração capitalista, ou mesmo no início da crise neoliberal que pretende criticar, mas na crise do ideário comunista.

O colapso da esquerda, porém, não precisa nos desesperar: o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas já cria aceleradamente as condições para o fim do capitalismo, que será morto não pelas mãos da classe trabalhadora, mas simplesmente tornado obsoleto pelas novas relações sociais que emergem dessas novas bases materiais. Mason parece flertar com o materialismo histórico aqui, mas nos deteremos sobre tal ponto posteriormente. Segundo o texto, esse pós-capitalismo se torna cada dia mais possível por conta de três grandes mudanças trazidas pela tecnologia da informação:

1- A necessidade do trabalho teria sido reduzida, borrando as fronteiras entre o trabalho e o tempo livre, e afrouxando a relação entre emprego e salários. O capitalismo seria incapaz de lidar com essa diminuição drástica da necessidade do trabalho.

2- A informação estaria corroendo a capacidade do mercado de formar corretamente preços. Isso porque os mercados se baseiam na escassez, mas a informação é abundante.

3- Estaríamos vislumbrando uma ascensão espontânea da produção colaborativa: bens, serviços e organizações em surgindo não mais responderiam as ditamos do mercado e à hierarquia gerencial.

Tais pontos são apresentados logo na abertura do texto, que segue tentando demonstrar que tais afirmações categóricas não contêm exageros (quando não, sendo forçado a reconhecer os exageros). Mason tenta mesmo afirmar que tais prognósticos podem ser vagamente encontrados no desconhecido “Fragmento sobre as Máquinas”, de Karl Marx, sobre o qual tentaremos nos deter mais especificamente em algum momento posterior.

Dando um panorama mais amplo das ideias do autor, vale mencionar uma de suas conclusões, melhor exposta em sua entrevista traduzida pelo Outras Palavras. Como trataremos mais adiante, talvez aqui seja onde podemos encontrar as ponderações mais interessantes e comedidas de Mason.

Ainda que nos oponhamos às concepções delineadas por Paul Mason, o tratamos com boa fé intelectual: não é leviano em afirmar a possibilidade de superação do capitalismo e o fim da centralidade da classe trabalhadora sem, ao menos, tentar oferecer à história uma nova “parteira”, em seus próprios termos retirados de Engels. Afirma que o “sujeito histórico que trará o pós-capitalismo já existe e é o indivíduo em rede”. A seu ver, a ação política pela superação do capitalismo estaria em lutar “pelos interesses dos indivíduos em rede, para que eles não tenham suas informações roubadas, arbitrariamente acessadas pelo Estado, para seus estilos de vida poderem florescer, para que eles tenham escolhas. São tantos os levantes que eu cobri – Turquia e Brasil são um bom exemplo. São assalariados em rede que não aguentam os níveis de corrupção e intromissão em suas vidas”. E aqui fica evidente que, qualquer que seja a contribuição de Mason com seu conceito de “sujeito em rede”, ela não se sustenta sem um debate de classes, e rapidamente é levada à postulação dos “assalariados em rede”.

Em conclusão, seria importante levar em conta a réplica simples e direta de Doug Henwood. Doug inclui Mason no bojo da Nova Economia com a qual polemizou em seu livro, ainda que em sua ala esquerda: a pós-materialidade já nos estaria libertando. Em oposição direta ao primeiro postulado de Mason sobre a diminuição da necessidade de trabalha, afirma que não há qualquer evidência que comprove esta tese. Tentando expressar em termos econômicos o postulado, nega que a relação entre o crescimento do PIB e o crescimento do emprego tenha sido rompida. Ademais, se Mason estivesse correto, deveríamos estar assistindo a um maior crescimento da produtividade, e não, como temos no primeiro trimestre de 2015, um crescimento de 0,4%. Em verdade, afirma, o único momento na história recente em que a tecnologia da informação parece ter levada a uma aceleração no crescimento da produtividade foi nos anos 1990, como resultado de grandes investimentos em equipamentos de alta tecnologia.

Entretanto, se aqui Mason é apenas mais um malsucedido entre tantos a advogar a tese do fim da centralidade do trabalho, o interessante é que teses do próprio Mason podem contribuir a entender o motivo pelo qual, a despeito do seu equivoco ser facilmente refutável, ele é tão persistente em retornar pelas mais diversas vozes.

   

Na próxima semana: UM MUNDO SEM CLASSES?

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3 comentários em “O fim do capitalismo começou?

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  1. Eu acho que o britânico não exagerou sobre o “complexo de vira-lata” dos brasileiros, está simplesmente falando da nossa verdade.

    Enquanto nos EUA os americanos desejam levar ao seu termo a origem econômica, tão depressa quanto possível para o poder do país, no Brasil em qualquer faculdade de economia, blog, ou posição de domínio avançado o interesse dos brasileiros é tornar a discussão dos investimentos externos e as taxa de juros e os câmbios do dólar como uma revolução permanente.

    E a rejeição quanto a se antecipar ao sistema de desenvolvimento do mundo…

    Tenho concentrado aqui os meios de produção a serem encontrados diretamente na competição entre todos os países, porquanto os homens representariam a nova cena da sua história em circunstancias de sua pátria livre.

    Mas as gerações passadas pela escravidão é a nossa tradição venerável aos EUA, enquanto um pesadelo da democracia imperialista é criar para si as coisas que nunca existiram representando a sua própria história, e pedindo apenas emprestado o nome para as crises financeiras.

    Me ajude a contribuir diretamente com muitos conteúdos teóricos.

    Obrigado.

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