Como combater o fascismo?

Por Gabriel Landi Fazzio

Por ocasião do aniversário de 81 anos da Revoada das Galinhas Verdes, que balanço podemos fazer de tal experiência?


A Revoada das Galinhas Verdes

A manhã do dia 7 de outubro de 1934 parecia indicar um bom dia para os fascistas: a Praça da Sé, em São Paulo, se enchia dos chamados camisas verdes da Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado, que chegavam em trens às centenas vindos do interior do estado e do Rio de Janeiro. Estima-se que fossem entre 6 mil e 8 mil. Às 14 horas, 400 soldados da cavalaria e da infantaria da força pública comparecem, munidos de fuzis e metralhadoras de tripés, a fim de proteger a manifestação fascista, que então se inicia.

Do outro lado da praça, grupos trotskystas, sindicais, comunistas e anarquistas, unificados sob a Frente Única Antifascista, proferem palavras de ordem contra os integralistas. Estão armados, e preparados para o combate. Já então haviam ocorrido alguns enfrentamentos menores nos arredores da Sé. Quando se ouvem os primeiros tiros, os fascistas correm a se concentrar nas escadarias da Catedral da Sé. É então que se escuta uma rajada de metralhadora, cuja autoria até hoje é um mistério (fala-se mesmo em um acidente, provocado pela força pública). Os ânimos se acirraram. Como relata o dirigente trotskyta Fulvio Abramo:

“Os integralistas refeitos do pânico causado pela descarga de metralhadora, começaram a encher as escadarias da Catedral. Pareceu-me que era o momento para iniciar a contramanifestação. Subi ao pedestal de uma coluna e pronunciei breves palavras… uma chuva de balas foi dirigida contra nosso  grupo… Correndo ouvi Mario (Pedrosa) dizer: ‘estou ferido’, e tropeçou. O agarrei pelo braço com a mão esquerda”.

Como resultado do combate, morre o jovem comunista Décio de Oliveira, e mais alguns policias e fascistas. “A batalha prossegue. Os integralistas contam com elementos que não são tão covardes como nós pensávamos, mais por inimizade e desprezo (justificados) que por apego à verdade. Esse grupo continua atirando e ainda não abandona a praça. Finalmente se retira… enquanto a maioria dos ‘gloriosos milicianos’ foge a toda velocidade da praça, por todos os lados e toda a cidade. À tarde, à noite e nos dias seguintes são recolhidas camisas verdes abandonadas por seus donos nos lugares mais distantes da cidade…”. Daí em diante, a data passou a ser relembrada como a Revoada das Galinhas Verdes. Após a desmoralização sofrida pela derrota no seu campo próprio, a força, o fascismo se desarticulou e enfraqueceu progressivamente.

Esse episódio é muitas vezes lembrado com humor, quase como uma excentricidade brasileira. Na verdade, a Revoada das Galinhas Verdes não é um exemplo isolado na história do antifascismo.

revoada das galinhas

A Batalha da Rua Cable

Em seu artigo, publicado em 1948, Ted Grant descreve a chamada Batalha da Rua Cable, de 1936. A similaridade é impressionante: em 4 de outubro, a três dias do segundo aniversário da Revoada das Galinhas Verdes, foi a vez dos fascistas ingleses organizarem sua marcha. A despeito das reivindicações do movimento operário, o governo se recusou a proibir a passeata. Ao contrário: simpático ao fascismo, o governo conservador mobilizou 10 mil policiais para garantir a marcha dos 2500 membros da União Britânica de Fascistas, dirigida por Oswald Mosley.

A despeito de tais medidas, a marcha fascista foi derrotada. Meio milhão de trabalhadores tomaram as ruas, entoando a palavra de ordem “Não passarão!”. Formando uma muralha humana em meio ao trajeto da passeata, resistiram à repressão policial, que aos golpes de cassetetes buscava abrir caminho para os fascistas. Diante da repressão crescente, começaram a se organizar barricadas com todos os materiais à disposição, a fim de manter bloqueado o trajeto.

Trabalhistas, comunistas, trotskystas e movimentos sindicais e da juventude, através da sua ação de massas, tornaram impossível a marcha: Sir Philip Game, chefe da polícia, acabou por ordenar a Mosley que dissolvesse sua manifestação.

Ted Grant conclui de tal episódio, corretamente: “Com medo da força organizada que a classe trabalhadora demonstrara de forma militante, o movimento fascista declinou. O espetáculo dos trabalhadores em ação deu aos fascistas motivos para se deter. Levou ao desapontamento e à desmoralização em suas fileiras, enquanto a vitória sobre os fascistas imbuiu a classe trabalhadora de confiança. Essa ação unitária dos trabalhadores na Rua Cable demostrou uma lição: só uma vigorosa contra-ação pode interromper o crescimento da ameaça fascista”.

Como derrotar o fascismo?

Na Suécia, em 2014, cerca de 300 mil pessoas foram às ruas protestar contra o crescimento dos grupos fascistas. Recentemente, na cidade inglesa de Liverpool, antifascistas impediram que ocorresse a Marcha do Homem Branco, convocada por grupos neofascistas. Em 19 de julho, o movimento negro se opôs ao desenrolar, na Carolina do Sul, EUA, uma marcha da KKK. Em 8 de setembro último, manifestantes anti-imigrantes e manifestantes solidários aos refugiados entraram em confronto das ruas de Dresden, Alemanha. Caso semelhante ocorreu em Madri, Espanha, em 26 de setembro. Esse tipo de iniciativa de massas contribui para expor, desmoralizar e deslegitimar o fascismo. Ao mesmo tempo, permite ampliar a organização e a autoconfiança da classe trabalhadora. E, na verdade, aqui está o mais importante: mais que a desmoralização dos fascistas entre suas fileiras e diante da população, a resposta das massas ao crescimento da extrema-direita aponta para a burguesia que a via fascista de dominação não será passivamente aceita. Diante da possibilidade de as provocações fascistas atiçarem a revolução proletária, tal alternativa se torna visivelmente menos atrativa para as classes dominantes.

O fascismo não é um raio em céu azul, um fenômeno que se materializa do nada: não é à toa que o fascismo cresça a olhos vistos quando as condições de vida das massas se deterioram, desacreditando a democracia burguesa e expondo sua incapacidade de solucionar as turbulências econômicas que se aprofundam.

Ruy Mauro Marini aponta que, em 1960 a 1963, quando a inflação deixou de ser um mecanismo de distribuição de renda em favor das classes dominantes, e se tornou em uma luta mortal entre todas as classes, o resultado não poderia ser senão uma solução de força. Assim, “de janeiro de 1961 a abril e 1964, o país presenciou três tentativas de implementar um governo forte”. Quando as contradições de um determinado regime hegemônico se acumulam, os de cima não podem seguir governando como antes, e os de baixo demandam cada vez mais vigorosamente uma solução aos impasses. Neste momento, as conciliações se tornam progressivamente impossíveis, e apenas uma saída de força é viável.

O fascismo é uma dessas possíveis saídas de força, mas nem sempre será a preferível para as classes dominantes. No caso brasileiro, por exemplo, o protagonismo das forças armadas dispensou a necessidade de uma base civil organizada em torno da reação.

Aqui, é essencial lembrar o que aponta Walter Benjamin, como explicitou Daniel Fabre: “’cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada’. Ou seja, (…) cada crescimento do fascismo seria o resultado do fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não é capaz de mobilizar”.

Quando a crise se torna incontornável, a esquerda deve ser capaz de ir à raiz dos problemas a serem solucionados – em outras palavras, ser radical. Diante da crise da economia, das políticas sociais, da moradia, e assim por diante, é inevitável a radicalização das massas. Resta à esquerda decidir se organizará e desenvolverá ativamente tal radicalização – ou a permitirá ser “espontaneamente” pastoreada sob as bandeiras do reacionarismo, do racismo e da misoginia fascista.

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