Quais as qualidades mais importantes em um revolucionário?

Por Gabriel Landi Fazzio

Quem foi o revolucionário bolchevique considerado por Lenin e Trotsky como o quadro político mais importante de toda Revolução Russa, mas cuja existência é completamente negligenciada pela esquerda mundial?

Iákov (ou Jakob) Mikháilovitch Sverdlov, filho de um artesão judeu da pequena burguesia de Polts, viveu de 3 de Junho de 1885 a 16 de Março de 1919. Ingressou no Partido Operário Social-Democrata da Rússia, ligando-se à fração bolchevique, ainda aos 16 anos, motivo pelo qual recebeu o apelido de “Malish” (“o menino”). Em 1917, com Lenin na clandestinidade, Sverdlov era a cabeça visível do partido, dirigindo desde Agosto o birô de organização do Comitê Central, presidindo as reuniões desse organismo. A continuação, será eleito presidente do Comitê Executivo Central dos sovietes de operários e camponeses, em cujo cargo participa diretamente na elaboração dos principais decretos revolucionários. Dirigiu seis congressos como presidente permanente nos anos mais duros da construção da República Soviética.

Faleceu aos 34 anos de febre tifoide, que contraiu em uma viagem à Ucrânia. Em sua memória, Lenin afirmou:

“Se tivemos a sorte de aturar durante mais de um ano as cargas que pesam sobre o círculo estreito dos revolucionários convictos; se os grupos no poder puderam tão firme e unanimemente resolver questões mais difíceis, isto fica a dever-se, apenas, à presença junto deles de um organizador de talento tão excepcional como o de Sverdlov. Ele sozinho obteve um conhecimento pessoal surpreendente dos dirigentes do movimento proletário; ele sozinho, durante os seus longos anos de luta, soube cultivar o seu senso da prática, o seu talento de organizador e essa autoridade peremptória graças à qual pôde levar a termo, também ele sozinho, a obra tão importante do Comitê Executivo Central dos sovietes, tarefa que teria ficado, sem dúvida, por cima das forças de um grupo”.

Os textos abaixo, de Lenin e Trotsky, debatem a importância de Sverdlov para a Revolução Russa, permitindo também uma reflexão sobre as qualidades que se espera em um revolucionário comunista.


Discurso de Vladimir Lenin em memória de J. M. Sverdlov

Companheiros!

No dia em que os trabalhadores de todo o mundo comemoram a Insurreição Heroica da Comuna de Paris e seu trágico desate, temos de levar ao sepulcro o Companheiro J. M. Sverdlov.

No decorrer de nossa revolução e de suas vitórias, o Companheiro Sverdlov conseguiu expressar, do modo mais completo e mais efetivo do que qualquer outra pessoa, a própria essência da Revolução Proletária.

Nisso se encerra seu significado enquanto dirigente dessa revolução em grau ainda muito mais elevado do que a sua fidelidade ilimitada à causa revolucionária.

Segundo as pessoas superficiais, segundo os nossos inimigos, segundo as pessoas que oscilam entre a revolução e seus adversários, salta aos olhos, sobretudo, o acerto de contas, decidido e impiedosamente severo, da revolução com os exploradores e inimigos do povo trabalhador.

Sem a violência revolucionária, o proletariado não poderia, evidentemente, ter vencido.

Porém, não existe dúvida de que a violência revolucionária se apresenta como necessária e lícita tão somente em determinadas circunstâncias, enquanto que o atributo muito mais essencial na revolução, bem como o pressuposto de sua vitória, é a organização das massas proletárias.

Nessa organização reside a profunda fonte de sua vitória.

Precisamente esse lado da revolução proletária também produziu, no processo das lutas, os seus dirigentes que incorporaram a particularidade da Revolução Proletária: a organização das massas.

Esse traço da Revolução Proletária produziu, igualmente, o Companheiro Sverdlov que foi, antes de tudo e em primeira linha, um organizador.

Companheiros!

Particularmente nos tempos difíceis da preparação incessante, dolorosa e incomensuravelmente longa da revolução, nós, russos, tivemos de sofrer sobretudo em razão da divergência entre teoria, princípios, programa e prática.

A história do nosso movimento revolucionário conhece, ao longo de muitas décadas, personagens dedicados à revolução que, entretanto, não puderam assegurar aplicação prática ao seu ideal revolucionário.

Apenas a Revolução Proletária forneceu a base autêntica, o fundamento verdadeiro, o auditório real.

E aqui, acima de tudo, destacaram-se aqueles dirigentes que conseguiram conquistar para si um lugar proeminente como organizadores práticos.

Por direito, esse lugar pertenceu ao Companheiro Sverdlov.

Se lançarmos um olhar em sua vida, perceberemos que seu notável talento de organização formou-se no quadro de prolongadas lutas.

Cada uma de suas qualidades extraordinárias de grande revolucionário foram forjadas por ele mesmo, vivenciando-as e colocando-as à prova nas diferentes épocas e sob as condições mais difíceis da atividade de um revolucionário profissional.

No primeiro período de seu trabalho, ainda quando jovem, logo que despertou sua consciência política, dedicou-se, inteiramente, à revolução.

Nessa época, bem no início do século XX, o Companheiro Sverdlov surgia diante de nós como o tipo mais marcante de revolucionário profissional  – um homem que rompera totalmente com sua família, com todas as comodidades e costumes da velha sociedade burguesa.

Rompeu com sua família e com todos os hábitos da sociedade burguesa, trocando, ao longo de prolongados anos, o cárcere pelo exílio e o exílio pelo cárcere, consolidando-se como revolucionário.

Porém, esse revolucionário profissional jamais, nem mesmo por um só minuto, separou-se das massas.

As condições sob o czarismo forçaram-no, tal como a todos os revolucionários daqueles tempos, à atividade clandestina, ilegal.

Porém, também nela, o Companheiro Sverdlov seguiu sempre ombro a ombro e de mãos dadas, com os trabalhadores avançados que, logo a partir do início do século XX, começaram a ocupar as próprias fileiras das gerações precedentes de revolucionários da inteligência.

Precisamente a essa altura, trabalhadores avançados surgiram às dezenas e centenas.

Educaram-se para o rigor das lutas revolucionárias, não perdendo, ao mesmo tempo, as mais firmes ligações com as massas, sem as quais não poderia ter existido uma revolução vitoriosa do proletariado.

Justamente essa longa trajetória do trabalho ilegal constitui, antes de tudo, o elemento característico para um homem que, permanentemente participando da luta, jamais se separou das massas, jamais abandonou a Rússia, sempre atuou conjuntamente com os melhores dos trabalhadores, logrando formar em si mesmo, apesar daquele isolamento de vida ao qual era condenado o revolucionário pelas perseguições, não apenas o dirigente amado pelos trabalhadores, não apenas o dirigente que profunda e principalmente conhecia o trabalho prático, mas também o organizador dos proletários mais avançados.

Alguns pensavam – entre esses, frequentemente, nossos inimigos ou as pessoas mais oscilantes – que o trabalho ilegal, traço obrigatório do revolucionário profissional, separava-o das massas.

Porém, o exemplo da atividade do Companheiro Sverdlov demonstra o quanto é falso esse ponto de vista.

Precisamente a devoção ilimitada à causa da revolução daqueles que percorreram muitas prisões e os mais remotos lugares dos exílios siberianos forjaram dirigentes como o Companheiro Sverdlov, no momento em que tal devoção conjugou em seres humanos inteligência e capacidade para impulsionar o trabalho de organização.

Tão somente ela foi capaz de produzir talentos de organização.

Através de círculos ilegais, através do trabalho revolucionário clandestino, através do partido ilegal, o Companheiro Sverdlov logrou alcançar o posto de primeiro homem na primeira República Socialista, o posto de primazia entre os organizadores das amplas massas proletárias.

Companheiros!

Todos aqueles que trabalharam dia após dia com o Companheiro Sverdlov viram, de modo particularmente claro, que seu singular talento de organização assegurou-nos aquilo de que nos orgulhamos, com pleno direito.

Assegurou-nos a possibilidade de um trabalho organizado, adequado, unânime, que se tornaria digno das massas proletárias organizadas, trabalho esse sem o qual não poderia existir sucesso algum nem seria possível dar resposta, na mais plena dimensão, às necessidades da Revolução Proletária.

Nesse trabalho ardente que, em tempos de revolução, exige dirigir revolucionários, um valor colossal representa a autoridade moral a qual adquire sua força, naturalmente, não em uma moral abstrata, mas sim na moral do lutador revolucionário, na moral das fileiras e dos elos das massas revolucionárias.

Se conseguimos, durante mais de um ano, levar o fardo que sobrecarregava um pequeno círculo de revolucionários devotados, se os grupos dirigentes conseguiram decidir as questões mais difíceis tão firme e unanimemente, foi exclusivamente porque um posto proeminente entre eles foi ocupado por um organizador tão singularmente talentoso como Jakob Mikhailovitch.

Tão somente ele conseguiu reunir em si um conhecimento admirável do quadro do pessoal dirigente do movimento proletário, tão somente ele conseguiu formar em si mesmo, no curso de longos anos de luta, o instinto da prática e o talento de organizador, bem como alcançar aquela autoridade indiscutível, em virtude da qual dirigiu, individualmente, grandes setores inteiros de trabalho do Comitê Executivo Central dos Sovietes de Toda a Rússia (VTsIK), para os quais teria sido necessário todo um grupo de pessoas.

Apenas ele conseguiu conquistar a posição, na qual bastava uma única palavra sua sobre certa questão para que fosse esta decidida de uma vez por todas, sem qualquer consulta e sem qualquer votação formal.

E, junto a todos, surgia a certeza de que havia sido decidida precisamente, tal como cumpria sê-lo, de modo que não apenas os trabalhadores avançados, mas também todas as massas operárias, consideravam essa decisão como definitiva.

A história sempre demonstrou que as grandes revoluções engendram grandes personalidades, bem como desenvolvem talentos que antes eram considerados impossíveis.

Ninguém teria acreditado que da escola do círculo ilegal e do trabalho clandestino, da escola de um pequeno partido perseguido, do cárcere de Turukhansk, pudesse proceder um tal organizador que, em virtude de seu próprio conhecimento, exerceu uma autoridade absolutamente indiscutível enquanto organizador de todo o Poder Soviético da Rússia, organizador singular do trabalho do partido.

Organizador extraordinário desse partido que criou os Sovietes e, na prática, executou o Poder Soviético – poder esse que agora empreende sua difícil e dolorosa marcha, inundada de sangue, porém vitoriosa, através de todos os países do mundo.

Um tal homem não lograremos substituir jamais, se entendermos por substituição a possibilidade de encontrar um companheiro que unifique em si tais capacidades.

Nenhum daqueles que conheceram Jakob Mikhailovitch pode duvidar que, nesse sentido, o Companheiro J. M. Sverdlov é insubstituível.

O trabalho que sozinho realizou será doravante realizado, necessariamente, apenas por grupos de pessoas que, prosseguindo conforme suas pegadas, darão sequência ao seu trabalho.

Entretanto, a força da Revolução Proletária reside precisamente na profundeza de suas fontes.

No lugar daqueles que dedicaram ilimitadamente suas próprias vidas à revolução e aderiram às lutas, a Revolução Proletária produz outras fileiras de pessoas que, talvez, sejam menos experimentadas, menos versadas, menos preparadas, mas que prosseguirão a sua obra, vinculando-se às amplas massas e capacitando a si mesmas a se colocarem no lugar dos grandes talentos precedentes.

Nesse sentido, encontro-me profundamente seguro de que a Revolução Proletária na Rússia e no mundo inteiro gerará diversos grupos de pessoas, inúmeras camadas de proletários e de camponeses trabalhadores que aportarão à vida significado prático e talento de organização, senão individual, então coletivo, sem o qual não será possível atingir a vitória.

A memória do Companheiro J. M. Sverdlov servirá não apenas como símbolo de devoção do revolucionário à sua causa, não apenas como exemplo de vinculação de habilidade e sobriedade práticas, de perfeita conexão com as massas e de capacidade de as dirigir.

Ela nos assegurará, além disso, a garantia de que massas cada vez mais amplas de proletários avançarão sempre adiante, rumo à vitória completa da Revolução Comunista.


O melhor tipo de bolchevique, por León Trotsky

Conheci Sverdlov apenas em 1917, na reunião da fração dos bolcheviques do I Congresso dos Soviets.

Sverdlov a presidia.

Naqueles tempos, pouquíssimos no Partido suspeitavam da verdadeira importância específica dessa pessoa notável.

Porém, já no curso dos meses subsequentes, Sverdlov haveria de desenvolvê-la plenamente.

No primeiro período pós-revolucionário, os emigrantes, i.e. aqueles que haviam passado muitos anos no exterior, ainda se distinguiam dos “bolcheviques do interior“, dos “bolcheviques domésticos“.

A experiência europeia e, em conexão com ela, os círculos mais amplos, bem como a experiência teórico-geral das lutas fracionais conferiam sérias vantagens aos emigrantes, em diversos sentidos.

Evidentemente, essa divisão feita entre emigrantes e não-emigrantes era meramente de ordem passageira e, posteriormente, desapareceu.

Porém, em 1917 e 1918, apresentava-se, em diversos casos, ainda muito perceptível.

Já naqueles tempos, não se podia sentir, entretanto, qualquer “provincialismo” em Sverdlov.

Ele cresceu e fortaleceu-se, de mês a mês, de maneira tão natural, tão orgânica, tão aparentemente sem esforço algum, tão em compasso com os acontecimentos e tão em autêntico contato e colaboração com Vladimir Ilitch que poderia parecer, desde um ponto de vista superficial, ser Sverdlov, por natureza, desse jeito mesmo, tendo nascido já como um preparado “Estadista” revolucionário, de primeiro escalão.

Sverdlov abordava todas as questões da revolução não de cima para baixo, i.e. não a partir de uma concepção teórico-geral, mas sim partindo de baixo, através dos impulsos diretos da vida, projetados para o interior da organização do Partido.

Todas as novas tarefas revolucionárias emergiam perante Sverdlov – ou para ele imediatamente se concretizavam, logo após o seu surgimento –como tarefas sobretudo de cunho organizativo.

Às vezes, em momentos de apreciação de uma nova questão política podia parecer – particularmente quando Sverdlov se calava, o que não pouco frequentemente acontecia – que ele oscilava ou ainda que não possuía opinião própria formada.

Na realidade, durante os debates, Sverdlov ficava elaborando, ele mesmo, um trabalho paralelo, que poderia ser descrito da seguinte forma: quem enviar e para onde enviar? Como resolver e como coordenar?

Chegado o momento em que surgia definida a decisão política geral a ser tomada, sendo necessário começar a refletir acerca dos aspectos pessoal e organizativo da questão, resultava, quase invariavelmente, que Sverdlov possuía já acabada uma proposta prática de grande abrangência, fundada em recordações de informações e no conhecimento individual de pessoas.

No primeiro período inicial então existente de sua estruturação, todos os departamentos e instituições soviéticas dirigiam-se a Sverdlov em busca de pessoas e essa primeira distribuição, ainda em esboço, dos quadros do Partido exigia extraordinária resolução e criatividade pessoal.

Era impossível apoiar-se no aparato, nos registros, nos arquivos.

Pois, todos esses meios ainda se encontravam em um estado extremamente débil e não proporcionavam, de nenhum modo, meios diretos para a determinar em que dimensão o revolucionário profissional Ivanov poderia ser qualificado para intervir na qualidade de chefe de um desses departamentos soviéticos qualquer que existia, provisoriamente, apenas de modo nominal.

A fim de solucionar uma questão como essa, era imprescindível que se dispusesse de uma intuição psicológica particular.

Era necessário encontrar no passado de Ivanov dois ou três pontos de apoio e sacar deles conclusões para uma situação completamente nova.

Assim, uma tal transplantação carecia de ser empreendida, nos mais diferentes domínios, ao efetuar-se a procura de um comissário do povo ou de um gerente para a tipografia do “Izviestia (Notícias)”, ao realizar-se a busca de um membro do Comitê Executivo Central dos Sovietes de Toda a Rússia(VTsIK) ou de um Comandante do Kremlin etc.

Essas questões organizativas surgiam, evidentemente, por fora de todas as seqüências das coisas, i.e. não dos postos mais elevados para os mais baixos ou dos mais baixos para os mais elevados, mas sim reversivelmente, casualmente, caoticamente.

Sverdlov realizava pesquisas, reunia ou recapitulava informações biográficas, realizava chamadas telefônicas, recomendava, executava envios, tomava decisões.

No presente momento, tenho até mesmo dificuldade de dizer a que título propriamente executava esse trabalho, i.e. quais eram suas atribuições formais.

Porém, em todo o caso, uma expressiva parte desse trabalho Sverdlov executava individualmente – com o apoio de Vladimir Ilitch naturalmente -, e ninguém discutia sobre isso, porquanto tal proceder era efetivamente exigido por toda a situação então existente.

Uma parte significativa de seu trabalho organizativo era conduzida por Sverdlov enquanto Presidente do Comitê Executivo Central dos Sovietes de Toda a Rússia(VTsIK), valendo-se dos membros desse comitê para o cumprimento de diversas determinações e ordens específicas.

“-Converse com Sverdlov!”, – aconselhava telefonicamente Ilitch em diversos casos, quando a ele se dirigiam com tais ou quais dificuldades.

“-É necessário conversar com Sverdlov” – dizia para si mesmo o noviço “dignitário”soviético, quando diante dele mesmo emergia uma discrepância qualquer com seus colaboradores.

Segundo a constituição não escrita de então, um dos meios para decidir questões práticas de primeiro grau consistia em “conversar com Sverdlov”.

Porém, o próprio Sverdlov, evidentemente, não se comportava, absolutamente, segundo esse método personalista.

Pelo contrário: todo o seu trabalho preparava o pressuposto para uma resolução mais sistemática e ordenadora das questões partidárias e soviéticas.

Naqueles tempos, os “pioneiros” eram indispensáveis, em todos os domínios, i.e. pessoas que conseguissem operar em meio ao imenso caos, agindo de maneira autônoma, sem precedentes, ordenamentos ou mesmo preceitos.

Eis que precisamente esses pioneiros procuravam Sverdlov, no caso de todas as possíveis necessidades.

Tal como acima ficou assinalado, Sverdlov recordava-se desse ou daquele detalhe biográfico sobre quem se havia comportado quando e como e sacava, a partir daí, conclusões acerca da utilidade ou inutilidade de certo candidato.

Evidentemente, os equívocos eram muitos.

Porém, surpreendente era o fato de que não fossem ainda maiores.

De toda sorte, o que parecia ser ainda mais admirável era como, em geral, resultava ser possível tratar de uma questão que se situava diante do caos das tarefas existentes, diante do caos de dificuldades e, além disso, com um mínimo de recursos pessoais.

A partir do ponto de vista principista e da adequação política, toda tarefa apresentava-se como sendo extraordinariamente mais clara e acessível do que a partir do ângulo organizativo.

Esse fato é observado entre nós ainda nos dias de hoje, emergindo da própria essência do período de transição ao socialismo.

Porém, outrora, naquelas primeiras horas, essa contradição entre o objetivo claramente compreensível e a insuficiência de recursos materiais e humanos revelava-se de modo incomensuravelmente mais aguçado do que presentemente.

Precisamente quando a questão alcançava o terreno da decisão prática, muitos de nós, em dificuldades, começavam a quebrar a cabeça, demorada e estarrecidamente…

“-E então, Jakob Sverdlov, o que é que você pode fazer?”

E Sverdlov apresentaria, então, a sua solução.

Considerava “tal questão como totalmente realizável”, na medida em que fosse enviado um grupo de bolcheviques bem escolhidos, dirigindo-os como haviam de ser, conectando-os com quem fosse necessário, supervisionando-os, auxiliando-os.

Com vistas a alcançar vitórias nesse sentido, era necessário que se estivesse plenamente dotado de segurança interior quanto ao fato de que toda tarefa poderia ser resolvida e toda dificuldade, superada.

A fonte inesgotável de seu otimismo operacional formava, efetivamente, o substrato dos trabalhos de Sverdlov.

Naturalmente, isso não quer dizer que, desse modo, eram todas as tarefas resolvidas em cem porcento.

Se já o fossem em dez porcento, já estava mesmo bom.

Naqueles tempos, isso significava já uma salvação, pois assegurava a existência do dia seguinte.

De qualquer forma, porém, nisso consistia o trabalho daqueles primeiros anos dificultosos: obter, de alguma forma, provisões, armar, equipar, seja do modo que fosse, dar apoio aos transportes, como possível fosse, dar cabo do tifo, da maneira como resultasse viável: custe o que custasse, cumpria assegurar o dia subsequente da revolução.

As qualidades de Sverdlov revelavam-se de modo particularmente claro nos momentos mais críticos, p.ex., depois dos Dias de Julho de 1917, i.e. depois de a Guarda Branca ter massacrado nosso Partido, em Petrogrado, bem como nos Dias de Julho de 1918, i.e. depois da Insurreição dos Socialistas-Revolucionários (SRs) de Esquerda.

Tanto em um como em outro caso, foi necessário reconstruir a organização, renovar ou criar, novamente, os vínculos, examinando as pessoas, que tinham passado por grandes provas.

E, em ambos os casos, Sverdlov foi insubstituível com sua paciência revolucionária, amplitude de visão e intrepidez.

Em outra sede, já relatei como Sverdlov chegou do Teatro Bolshoi, vindo do Congresso dos Sovietes, e adentrou no gabinete de Vladimir Ilitch, no “ápice” mesmo da Insurreição dos Socialistas-Revolucionários (SRs) de Esquerda.

“–O que é que vocês acham?”, disse ele, expressando-se com sarcasmo.

“-Pelo que parece, será necessário movermo-nos, novamente, do Comissariado Soviético do Povo (Sovnarkom) para o Comissariado Militar da Revolução (Revkom)?”

Sverdlov permanecia sendo o mesmo, tal como sempre o fora.

Naqueles dias, era, de fato, possível conhecer as pessoas.

Jakob Mikhailovitch era verdadeiramente inigualável: confiante, corajoso, firme, resoluto – o melhor tipo de bolchevique.

Propriamente nesses dias árduos, Lenin veio a propriamente conhecer e apreciar Sverdlov.

Por vezes, costumava ocorrer de Vladimir Ilitch telefonar para Sverdlov, a fim de propor a adoção dessa ou daquela medida de urgência e, na maioria dos casos, recebia a seguinte resposta:

“-Já!”

Isso significava que a medida já havia sido tomada.

Frequentemente, divertíamo-nos com esse assunto, dizendo :

“-Mas, acontece que, com Sverdlov, isso seguramente « já » está feito!” 

Certa vez, Lenin me contou :

“-No entanto, estivemos, de início, contra sua entrada no Comitê Central. Até que ponto subestimamos esse homem! Quanto à sua avaliação, havia divergências bastante expressivas. Porém, a base corrigiu-nos, no Congresso, e demonstrou, com isso, estar inteiramente correta …”

Não obstante o fato evidente de que jamais existiu um mínimo discurso que fosse sobre a mistura de organizações partidárias, é indubitável que o bloco selado com os socialistas-revolucionários (SRs) de esquerda expressava, em tudo, já alguma indefinição no comportamento das células partidárias.

Basta dizer, a título de exemplo, que quando enviamos um grande grupo de trabalhadores para o fronte oriental, concomitantemente com a designação de Muravyov, na qualidade de comandante, era secretário desse grupo, composto por diversas dezenas de homens, um socialista-revolucionário (SR) de esquerda, a despeito do fato de o grupo em tela, em sua composição majoritária, ser composto por bolcheviques.

No interior de diversas instituições e departamentos do Estado, as relações existentes entre os bolcheviques e os socialistas-revolucionários (SRs) de esquerda caracterizavam-se por serem tanto mais nebulosas quanto mais numerosos fossem, então, em nosso próprio partido, os elementos novos e ocasionais.

Precisamente o simples fato de que a organização socialista-revolucionária (SR) de esquerda, então também situada no interior das tropas da Tcheka (EvM.: Comissão Extraordinária, i.e. então a Polícia Política Revolucionária Soviética), veio a se revelar como o cerne fundamental da Insurreição dos Socialistas-Revolucionários (SRs) de Esquerda caracteriza, de modo suficientemente claro, a ausência de formalidade na inter-relação, a insuficiência de cautela e de solidez da parte dos membros do Partido, apenas há pouco ingressados no aparato estatal ainda recente.

A virada salvadora processou-se, aqui, literalmente, no período de dois ou três dias.

Nos dias da insurreição em referência, orquestrada por um Partido governante contra o outro, quando todas as relações haviam sido repentinamente colocadas em questão e, no interior dos departamentos, os funcionários passaram a ter atitudes de expectativa, começaram os melhores e mais avançados elementos comunistas combativos a, rapidamente, aproximarem-se uns dos outros, no seio de cada uma das instituições, dissolvendo os laços com os socialistas-revolucionários (SRs) de esquerda,colocando-se efetivamente em oposição a eles.

Nas fábricas e nos segmentos militares, fundiram-se as células comunistas.

Esse foi um momento de extraordinária importância para o desenvolvimento tanto do Partido quanto do Estado.

Distribuindo-se e, em parte, dispersando-se, pelas fronteiras ainda informais do aparato do Estado, bem como expandindo, em medida significativa, os seus laços partidários nos ofícios públicos – ali mesmo, onde se desfechavam os golpes da sublevação socialista-revolucionária (SR) de esquerda –, passaram os elementos do Partido para a dianteira, estreitando suas fileiras, fortalecendo-se, subitamente.

Por todos os lados, formaram-se células comunistas, para cujas mãos transitou, naqueles dias, a direção fática de toda vida interior das instituições.

Pode-se dizer que, precisamente nesses dias, pela primeira vez e de modo autêntico, o Partido conscientizou-se em massa de seu papel enquanto organização dirigente, enquanto dirigente do Estado Proletário, enquanto Partido da Ditadura do Proletariado, fazendo-o não apenas a partir do aspecto político, senão ainda a partir do ângulo organizativo.

Esse processo que poderia ser denominado de primeira auto-determinação organizativa do Partido no interior do aparato de Estado Soviético – Estado este criado precisamente por aquele mesmo Partido -, teve lugar sob a direção imediata de Sverdlov – transcorrendo independentemente do fato de processar-se na fração do Comitê Executivo Central dos Sovietes de Toda a Rússia (VTsIK) ou na garagem do Comissariado da Guerra.

O historiógrafo da Revolução de Outubro deverá especialmente destacar e atenciosamente estudar esse momento crítico no desenvolvimento das inter-relações havidas entre Partido e Estado, momento esse que imprimiu sua marca em todo o período subsequente, até aos nossos dias.

Nesse quadro, o historiógrafo que se ocupar com a questão em relevo há de revelar, nesse giro por demais significativo, o papel gigantesco desempenhado por Sverdlov, enquanto organizador.

Pois, em sua direção, confluíram todos os liames das relações práticas.

Ainda mais críticos foram os dias em que a Tchecoslováquia ameaçou Nijn-Novgorod e Lenin encontrava-se de cama, com duas balas socialistas-revolucionárias (SRs) em seu corpo.

No dia 1° de setembro, recebi, em Sviajsk, um telegrama codificado de Sverdlov:

“-Regresse imediatamente. Ilitch ferido. Não se sabe quão grande perigo. Inteira tranquilidade. 31.08.1918 Sverdlov”

Parti, imediatamente, para Moscou.

O temperamento nos círculos do Partido de Moscou era de abatimento, de desânimo, porém não existia hesitação.

A melhor expressão dessa ausência de perplexidade era o próprio Sverdlov.

Nesses dias, a responsabilidade de seu trabalho e de seu papel multiplicou-se, por diversas vezes.

Em sua figura vigorosa, sentia-se a existência de uma tensão elevada.

Porém, essa tensão nervosa significava apenas elevada vigilância: seu comportamento nada possuía em comum com correria desordenada e, muito menos, com desespero.

Naqueles momentos, Sverdlov forneceu sua inteira estatura.

O diagnóstico dos médicos era esperançoso.

Porém, ainda estava proibido avistarmo-nos com Lenin: a ninguém se permitia contatá-lo.

Minha permanência em Moscou acabou não se revelando como essencial.

Logo após meu retorno a Sviajsk, vim a receber de Sverdlov uma carta, datada de 8 de setembro, contendo os seguintes termos:

“-Caro Lev Davidovitch ! Aproveito a oportunidade para escrever-lhe algumas frases, em virtude de existir oportunidade de correio. As coisas estão arranjando-se bem com Vladimir Ilitch. Dentro de 3 ou 4 dias, conseguirei, provavelmente, encontrar-me com ele. …”

Além disso, nessa mensagem foram tratadas questões práticas, cuja reprodução não cumpre ser aqui realizada.

Recordo-me, vivamente, também da viagem de trem que fiz com Sverdlov, para Gorki, onde convalescia Vladimir Ilitch, depois de seu ferimento.

Isso ocorreu à época de minha viagem subsequente à Moscou.

Apesar da situação terrivelmente difícil daqueles tempos, sentia-se, solidamente, uma mudança para melhor.

No fronte oriental, que então era de importância decisiva, havíamos recuperado Kazan e Simbirsk.

O atentado contra a vida de Lenin serviu ao Partido como um choque político extraordinário: o Partido passou a se sentir mais atento, precavido e preparado para resistir ao inimigo.

Lenin recuperava-se, rapidamente, e preparava-se para retornar, brevemente, ao trabalho.

Tudo isso, em seu conjunto, produzia uma atmosfera de firmeza e confiança, dado o fato de que, se o Partido conseguira arranjar-se bem até àquela altura, muito melhor arranjar-se-ia dali para diante.

Precisamente com essa atmosfera moral, viajamos com Sverdlov a Gorki.

Ao longo do caminho, Sverdlov colocou-me a par de todas as coisas que haviam ocorrido em Moscou, durante o tempo de minha ausência.

Sua memória era estupenda, tal como sucede com a maioria das pessoas, dotadas de forte vontade criativa.

Sua narração incluía sempre, em si mesma, um esqueleto objetivo, pormenores organizativos indispensáveis e, concomitantemente, caracterizações de pessoas.

Em uma palavra: essa era a continuação do trabalho habitual de Sverdlov.

E, por debaixo de tudo isso, sentia-se um arcabouço de tranquilidade e, ao mesmo tempo, uma excitante segurança : “Nós vamos conseguir!”.

Cumpria a Sverdlov exercer muitas presidências, em diversas instituições e em diferentes reuniões.

Sverdlov foi um poderoso presidente.

Não no sentido de que ele bloqueava os debates, repreendia os oradores etc.

Não! Pelo contrário !

Não demonstrava nenhuma ambição de censura ou renitência formalista.

Seu poderio enquanto presidente residia em que sempre sabia a que resolução prática e de que maneira era necessário conduzir a assembleia.

Compreendia quem, porque e de que forma haveria de falar.

Conhecia bem o lado dos bastidores do negócio – e todo negócio complexo e grande possui necessariamente os seus bastidores.

Sabia destacar na tribuna, oportunamente, aqueles oradores que deviam ser destacados, conseguia colocar as propostas, tempestivamente, em votação.

Tinha consciência do que era possível alcançar e era capaz de alcançar o que queria.

Essas suas qualidades, enquanto presidente, encontravam-se indissoluvelmente ligadas a todas as suas características enquanto dirigente prático, com sua apreciação viva e realista das pessoas, com seu incansável espírito de criatividade, no domínio das conexões organizativas e pessoais.

Em reuniões tempestuosas, Sverdlov era capaz de produzir perturbação e gritos e, então, no minuto adequado, intervir, a fim de que, com sua mão firme e sua voz metálica, a ordem fosse restabelecida.

Sverdlov era de estatura média, muito seco, moreno magro, com traços faciais agudos e angulares.

Sua voz forte – em minha opinião, até mesmo poderosa -, podia parecer incompatível com seu porte físico.

Entretanto, em medida ainda mais elevada, seria possível dizer-se isso do seu caráter.

Sem embargo, tal impressão poderia ser adquirida apenas em um momento efêmero.

Pois, logo a seguir, a forma física fundia-se com o espírito e essa figura média e seca, com vontade e força tranquilas e indomáveis, dotada, porém, de voz inflexível, intervinha tal como uma imagem perfeitamente acabada.

“-Sem problemas!”, dizia, às vezes, Vladimir Ilitch, em uma situação qualquer bem complicada.

“-Sverdlov vai dizer isso a eles, com o seu barítono sverdloviano e a questão estará resolvida …”      

Nessas palavras, residia uma amável ironia.

No primeiro período posterior a Outubro, nossos inimigos chamavam os comunistas, tal como é sabido, de “os homens de couro” , tendo como base as vestimentas utilizadas por esses.

Acho que o exemplo de Sverdlov cumpriu um grande papel na introdução do “uniforme” de couro.

Ele mesmo andava, em todas as ocasiões, vestido de couro, da cabeça aos pés, isto é, das botas até à boina.

A partir dele, enquanto figura central organizativa, expandiu-se, amplamente, essa vestimenta, que, de alguma forma, correspondia ao caráter daqueles tempos.

Os companheiros, que conheceram Sverdlov durante a clandestinidade, dele recordam-se de outra maneira.

Porém, em minhas recordações, a imagem de Sverdlov deteve-se no ornamento de seu encouraçado negro de couro, sob os golpes dos primeiros anos da Guerra Civil.

Estávamos em reunião do Politbureau quando Sverdlov, acamado em sua casa, ardendo de febre, piorou completamente.

Helena D. Stassova, então Secretária do Comitê Central, surgiu durante a reunião, vinda do quarto de Sverdlov.

Sua fisionomia estava irreconhecível:

“-Jakob Mikhailovitch está mal …, completamente mal,” disse ela.  

Bastava lançar um olhar sobre ela para entender-se que não havia nenhuma esperança.

Suspendemos a reunião.

Vladimir Ilitch dirigiu-se ao quarto de Sverdlov, enquanto desloquei-me para o Comissariado, com vistas a preparar-me para partir imediatamente para o fronte.

Cerca de quinze minutos depois, Lenin telefonou-me e disse com voz particularmente entorpecida, dando a entender seu mais elevado desassossego:

“- Foi-se embora.”

“- Foi-se embora ?”

“- Foi-se embora.”

Permanecemos ainda um bom tempo no telefone, cada qual sentindo o silêncio do outro, do lado de lá da linha.

A seguir, desligamos, tal como se nada mais houvesse a dizer.

Jakob Mikhailovitch havia partido.

Sverdlov já não se encontrava mais entre nós.

Sverdlov

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