Cartas Estudantis: um romance diabólico

Por Inês Maia

Foi Antonio Candido que pensando sobre a literatura e a vida social redescobriu uma das máximas de Sainte-Beuve ao lembrar que: “O poeta não é uma resultante, nem mesmo um simples foco refletor; possui o seu próprio espelho, a sua mônada individual e única. Tem o seu núcleo e o seu órgão, através do qual tudo o que passa se transforma, porque ele combina e cria ao devolver à realidade”. Pensado os exemplos atuais de nossa literatura, a autonomia da forma talvez se encontre de algum modo em Cartas Estudantis.


Uma crítica que visasse desnudar a criação de um romance deveria apontar, pelo menos, a multiformidade de vozes que compõe o quadro formal nele expresso. Ou ainda como dizia aquele outro crítico: a polifonia[1]. Naturalmente esse passo não pode ser dado aqui, senão no sentido de apontar algumas peculiaridades do romance.

Cartas estudantis apresenta um quadro tangenciado por um modernismo arruinado e autoconsciente cuja forma devolve ao leitor uma apresentação de nossa falida época. E, nesse ponto, a bancarrota da forma literária reflete autonomamente o esgotamento de toda uma geração que cresceu sob o signo lulopetista. Há no livro um quê daquele romancismo fatal oswaldiano, mal comportado e experimental. Isso é inegável.

A obra “inaugural” de D. Barros – entre aspas, porque sabemos que o autor tem outros dois romances no prelo – se patenteia daquele demonismo que, desde Kierkegaard passando pelo jovem Lukács chegando a Peter Szondi, se expressa nos romances. Demonismo de um eu-lírico formado pela sua cisão em relação ao mundo circundante. Demonismo expresso pela condição de saber o que é essencial ou onde está o paraíso, o que é, entretanto, um saber tornado impotente ante condições objetivas da vida social.

Quanto à escolha formal, o risco era evidente: um romance epistolar em plena era do Facebook corria a imponderação de ser pelo menos antiquado e inverossímil. Não fosse, todavia, a disposição imaginativa e negativa de seus abnegados protagonistas, talvez, o tentame tivesse fracassado. Soma-se a isso, a possibilidade de discutir grandes temas filosóficos sem adentrar ao proselitismo.

Arthur e Heloísa formam, a partir de seu mundo circundante, o espaço para a realização de uma experiência epistolar que só poderia encontrar lugar no âmbito universitário-público e de esquerda. Ou, em corações cuja experiência política se perdeu em meio a uma sólida formação política que não encontra, em tempos de conciliação de classes, espaço para se manifestar.

Certamente, perderíamos muito se reduzíssemos a análise de uma obra ao seu contexto político, trairíamos com isso a máxima de Sainte-Beuve, por isso, não devemos esquecer que: “Os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem a necessidades coletivas; e estas, agindo, permitem por sua vez que os indivíduos possam exprimir-se, encontrando repercussão no grupo (CANDIDO, p. 34).

Tais necessidades coletivas são, pois, uma das características fulgurantes que aparecem nas Cartas. Não é apenas a debacle de uma esquerda atormentada por uma gramatica que lhe é alheia (neoliberal), como também, é a autorreflexão sobre essa degenerescência. E tudo isso numa via imaginária que dir-se-ia empoeirada.

Essa tentação aparece nas veias das personagens que confessam: “Isso se dá por­que, talvez, a única coisa que sabemos fazer é escrever: um livro sempre nos é a coisa mais importante” (BARROS, 2017, p.115). A impotência de uma geração atormentada por um horizonte de estagnação espiritual em que tudo aparece como normatizado, somado a impotência intelectual em um país sem leitores, leva as personagens para experiências dissolutas que tentam reavivar os fantasmas do passado. E aqui o verniz existencialista é fartamente desvirtuado por um elemento macunaimico que se expressa no amor homossexual de Arthur.

Ante a tentativa de permanência no mundo das letras, o amor de Arthur aparece como uma salvação que esmaga o ambiente pacato de suas missivas, como o retorno da pulsão indesejada que desorganiza o ambiente libidinal amplamente controlado por uma sublimação criativa que, com a paixão, se revela falso. Do mesmo modo, a firmeza de Heloisa não foi capaz de manter o controle sobre o que lhe era mais precioso; o seu próprio corpo. O demonismo aí, se expressa não somente na impotência do encontro com algo que complete a subjetividade, como na própria externalidade e contingência da vida castrada.

Há, contudo, elementos estranhos a uma obra literária que requerem uma análise mais acurada, quais sejam; a invasão de um pensamento filosófico que só poderia ser tolerado pela forma escolhida. É somente na forma do romance epistolar que um elemento de reflexão poderia ser transposto sem derrubar o jogo criativo da imaginação literária. Características que precisarão ser esmiuçadas, mas que, da primeira até a última página, apresentam a ironia da posição intelectual. A questão que fica é: qual é a necessidade desse recurso? Talvez, a resposta se encontre no círculo de formação dos próprios leitores.

Um elemento tenso na obra é o de autorreconhecimento. Os personagens não estão distantes de nossa experiência cotidiana e fica evidente que “a obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição” (CANDIDO, p. 40). E, a meu ver, isso responde pela escolha da forma e a indeterminação de seu lugar, eis um trecho cativante, quando o protagonista nos apresenta uma dessas figuras demoníacas:

“Senta-se então no sofá da sala e reclama de estar ficando muda e surda. Por isso, começa a falar alto ou cantar, porque cisma consigo mesma que está perdendo a voz.

Para ela então surgem dois Eus, uma boazinha e uma má que segundo o que diz, sopra em seu ouvido as maldades que o mundo oculta. Irene cai no abismo dilacerante entre o eu e o mundo e sua voz narrativa lança-se desesperadamente em busca de chão.

A tardezinha é tomada por uma sonolência que dura al­gumas horas. Quando se acorda instantaneamente começa a reclamar de algo que a atormenta. Algo não a deixa em paz e a obriga a fazer o que não quer.

Noto, porém, querida Heloisa, que começa a haver aí uma profunda desorganização de sua linguagem. Outro sin­toma que começa a aparecer é a gagueira que me parece que está se intensificando.

Além disso, sua fala adquire características infantis e é visível que Irene está perdendo a habilidade da própria gra­matica, não há mais conjugação, verbos, e os plurais não são mais empregados.

Seu olhar perdido indica uma fixação que a coloca nas raias de se tornar sua própria personagem. E suas agonias tra­duzem a problemática de um mundo impossível de penetrar” (BARROS, 2017, p.108).

Aqui aparece de novo o elemento do demonismo que paira sobre toda a obra e que se assenta como um fracasso e dilaceramento da condição do eu. Numa ordem mais geral de ideias, podemos afirmar que as personagens que figuram no interior desse romance é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da vida sob égide do capital. Encarando assim o livro, o cerne de seu desenvolvimento vai ser encontrado numa carta de Heloísa para Arthur, indiscretamente entregue as mãos dos leitores cujo título é “Os efeitos lulistas”.

É este, com efeito, o problema central da obra. A cosmovisão de suas personagens resulta de uma aplicação do conhecimento teórico – guardado a sete chaves entre os muros acadêmicos – aos atos da vida. Entenda-se aí conhecimento como atitude reflexiva que subordina a aceitação da ação a um processo prévio de crítica. E assim, Arthur e Heloisa nos levam a pensar no destino dos intelectuais e seu papel na sociedade, que até aqui fora depositado em conformação geral ou sectarismo sorumbático. O próprio ambiente doentio da vida estudantil cria condições de vida mais ou menos abafantes, explorando metodicamente os seus complexos, duvidas e carências, as forças irresistíveis que atuam por detrás das costas desses jovens só os deixam em paz quando ele se expande nos campos de uma individualidade que deve afirmar sua identidade estanque.

Mas não é esta a impressão final que fica do livro de D. Barros, cuja expressão de incômodo e insubordinação permeia todas as páginas, o que é um grande consolo para a ficção e para o leitor que busca encontrar vida. O livro lida com problemas nossos num tom de tal modo criativo que autor e leitor se questionam, num admirável movimento de correspondência. As cartas assim insinuam-se lentamente e capturam nossa sensibilidade, até se identificarem com a nossa própria experiência diante de um horizonte sombrio.


Bibliografia

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

BARROS, D. R. Cartas estudantis. Rio de Janeiro: Editora multifoco, 2017.

CANDIDO. A. Brigada ligeira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

___________.  Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006

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