O guia de sobrevivência da quarentena de Slavoj Žižek: prazeres culposos, Assassinos de Valhalla e finja que isso é apenas um jogo.

Por Slavoj Žižek, via RT, traduzido por Victor Pimentel

Para lidar com a pressão mental durante a pandemia de coronavírus, minha primeira regra é que esse não é o momento para buscar autenticidade espiritual. Sem qualquer constrangimento – assuma todos os pequenos rituais que estabilizam sua vida cotidiana.


Deixe-me começar por uma confissão pessoal: eu gosto da ideia de ficar confinado em um apartamento, com todo o tempo para ler e trabalhar.

Mesmo quando viajo, eu prefiro ficar em um quarto de hotel agradável e ignorar as atrações famosas. Um bom ensaio sobre um quadro famoso significa muito mais pra mim do que ver esse mesmo quadro em um museu lotado. Mas percebi que isso se tornou pior, mais difícil, por ser agora obrigado ao confinamento. Por que?

Me permitam repetir a famosa piada de Ernst Lubitsch Ninotchka: “‘Garçom! Um copo de café sem creme, por favor!’ ‘Desculpe, senhor, nós não temos creme, apenas leite, pode ser um café sem leite?’”

No nível atual, café permanece sendo o mesmo café, mas o que podemos mudar é transformar o café sem creme em um café sem leite – ou, ainda mais simples – adicionar a negação implícita e transformar o café puro em um café sem leite.

Não é isso o que aconteceu com meu isolamento? Antes da crise, era um isolamento “sem leite” – eu poderia sair, apenas escolhi não fazer isso. Agora é apenas o café puro do isolamento sem a negação implícita possível.

Ameaças invisíveis são as mais terríveis

Meu amigo Gabriel Tupinambá, um psicanalista lacaniano que trabalho no Rio de Janeiro, me explicou este paradoxo em um e-mail: “As pessoas que já trabalhavam de casa são aquelas que estão mais ansiosas, e mais expostas às piores fantasias de impotência, pois nem mesmo uma mudança em seus hábitos está delimitando a singularidade dessa situação em suas vidas cotidianas.”

Seu ponto é complexo, mas claro: se não há nenhuma grande mudança em nossa realidade cotidiana, então a ameaça é experimentada como uma fantasia espectral não localizável em lugar nenhum, e ainda mais poderosa por essa razão. Lembrem que, na Alemanha nazista, o antissemitismo era mais forte naquelas partes onde o número de judeus era mínimo – sua invisibilidade os tornava um espectro apavorante.

Tupinambá notou ainda que o mesmo paradoxo se aplicava à explosão da crise de HIV: “a expansão invisível da crise de HIV foi tão desgastante, a impossibilidade de nos tornarmos proporcionais à escala do problema, que ter um passaporte ‘carimbado’ /com HIV/ não parecia, para alguns, um preço muito alto a se pagar por dar à situação alguns contornos simbólicos. Daria, ao menos, uma medida do poder do vírus e nos levaria a uma situação na qual, já tendo contraído, poderíamos ver que tipo de liberdade ainda teríamos.”

No momento em que o agente espectral se torna parte da nossa realidade (mesmo quando isso significa pegar um vírus), seu poder é localizado, se torna algo com o qual nós podemos lidar (mesmo se perdermos a batalha). Enquanto essa transposição para a realidade não puder ocorrer, “nós ficamos presos na ansiedade paranóica (pura globalidade) ou recorremos a simbolizações ineficazes através de acting outs que nos expõe a riscos desnecessários (pura localidade)”.

Essas “simbolizações ineficazes” já assumiram muitas formas – a mais conhecida delas é a convocação do presidente dos EUA, Donald Trump, para a população ignorar os riscos e voltar ao trabalho. Atos como estes são muito piores do que gritar e aplaudir enquanto se assiste uma partida de futebol na frente da televisão, agindo como se você pudesse influenciar magicamente o resultado. Mas isso não significa que estamos desamparados: nós podemos sair deste impasse antes que a ciência forneça os meios técnicos para limitar o vírus.

Como não ceder à paranoia

Aqui está o que Tupinambá diz: “O fato dos médicos que estão na linha de frente da pandemia, das pessoas criando sistemas de ajuda mútua em comunidades periféricas, etc., serem menos propensos a ceder a paranoias loucas, me sugere que há um benefício subjetivo ‘colateral’ a certas formas de trabalho político atualmente. Parece que a política realizada através de certas mediações – e o Estado é frequentemente o único meio disponível aqui, mas acredito que isso possa ser contingente – não apenas nos fornece os meios para mudar a situação, mas também para dar a forma adequada às coisas que perdemos.”

No Reino Unido, mais de 400.000 pessoas jovens e saudáveis se voluntariaram para ajudar aqueles que precisam – um bom passo nessa direção.

Como evitar o colapso mental

E aqueles entre nós que não são capazes de se engajar neste sentido – o que podemos fazer para sobreviver à pressão mental de viver em tempos de pandemia? Minha primeira regra aqui é: este não é o momento de buscar alguma autenticidade espiritual, de confrontar o máximo abismo de nosso ser. Sem qualquer constrangimento – assuma todos os pequenos rituais, fórmulas, manias, etc. que estabilizam sua vida cotidiana.

Tudo o que pode funcionar é permitido aqui para evitar um colapso mental. Não pense muito a longo prazo – pense no hoje, no que você estará fazendo até dormir. Se funcionar, jogue o jogo de A Vida é Bela (o filme): finja que o isolamento é apenas um jogo no qual você e sua família participam livremente com a expectativa de uma grande recompensa se vocês ganharem. E, se temos acesso a filmes (se você tem algum tempo livre para eles), entregue-se prazerosamente a todos seus “prazeres culposos”: distopias catastróficas, séries de comédia da vida cotidiana com risada “enlatada”, como Will e Grace, podcasts do Youtube sobre grandes batalhas do passado. Minhas preferências são séries obscuras e escandinavas de crime – de preferência islandesas – como Trapped ou Assassinos de Valhalla.

No entanto, essa postura não alcança o todo – a principal tarefa é estruturar sua vida cotidiana de uma forma estável e significativa. E aqui está como outro amigo meu, Andreas Rosenfelder, um jornalista alemão do Die Welt, descreveu em um e-mail para mim a nova postura em relação à vida cotidiana que está surgindo: “Eu realmente posso sentir algo de heróico a respeito desta nova ética, também no jornalismo – todo mundo trabalha dia e noite de casa, fazendo vídeo-conferências e tomando conta das crianças ou dando aulas a elas ao mesmo tempo, mas ninguém pergunta por que ele ou ela está fazendo isso, porque não é mais ‘Eu tenho dinheiro e posso ter férias, etc.’, uma vez que ninguém sabe se terá férias de novo ou se haverá dinheiro. É a ideia de um mundo onde você tem um apartamento, mantimentos como comida etc., o amor de outros e uma tarefa que realmente importa, agora mais do que nunca. A ideia de que precisamos de “mais” parece irreal agora.”

Eu não consigo imaginar uma descrição melhor para o que deve ser chamado descaradamente de uma decente vida não alienada – e eu espero que algo desta postura sobreviva quando a pandemia passar.

Um comentário em “O guia de sobrevivência da quarentena de Slavoj Žižek: prazeres culposos, Assassinos de Valhalla e finja que isso é apenas um jogo.

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