Descartes/Lacan

Por Alain Badiou, via Umbr(a) , traduzido por Rodrigo Gonsalves

O que ainda conecta Lacan (e esse “ainda” é a perpetuação moderna dos sentidos) ao tempo da ciência cartesiana é o pensamento de que é necessário manter o sujeito no vazio puro de sua subtração, se assim se quer que a verdade seja salva. Somente esse tal sujeito se deixa suturar na forma lógica e integralmente transmissível da ciência.


Nunca se pode enfatizar suficientemente que a palavra de ordem lacaniana de um retorno a Freud está originalmente associada a uma expressão de Lacan que remonta a 1646: “pedir por um retorno à Descartes não seria supérfluo”. O meio pelo qual essas duas injunções estão conectadas é o dito de que o sujeito da psicanálise nada mais é do que o sujeito da ciência. Mas essa identidade só pode ser apreendida tentando pensar o sujeito em seu próprio lugar. Aquilo que localiza o sujeito é, ao mesmo tempo, o ponto em que Freud é inteligível apenas através da linhagem do gesto cartesiano, e onde ele subverte, através da des-localização, a pura coincidência do sujeito consigo mesmo, sua transparência reflexiva.

O que torna o cogito irrefutável é a forma que se pode dar a ele onde o onde insiste: “Cogito ergo sum”, ubi cogito, ibi sum. O ponto do sujeito é que onde pensa aquele pensar deve estar, é. A conexão do ser e do lugar funda a existência radical da enunciação como sujeito. 

Lacan expõe a trapaça do lugar nas declarações desorientadoras do sujeito que supõe que “o que cumpre dizer é eu não sou lá onde sou joguete de meu pensamento; penso naquilo que sou lá onde não penso pensar”. O inconsciente designa que “pensa” lá onde não estou, mas onde eu devo chegar a ser. Assim, o sujeito se encontra descentralizado [excentré] do lugar de transparência onde anuncia seu ser, sem deixar de ler nisto uma completa ruptura com Descartes, o que Lacan indica dizendo que o sujeito (ir)reconhece [misrecognize] que a certeza consciente da existência – o lar do cogito – não é imanente, mas transcendente. “Transcendente” porque o sujeito só pode coincidir com a linha de identificação que lhe propõe essa certeza. Mais precisamente, o sujeito é o recusa dessa certeza.

Lá, é de fato, onde está toda a questão. Cortando rapidamente no que isso implica quanto ao solo comum entre Lacan, Descartes e o que proponho aqui, é o que em última análise se refere ao status da verdade como um buraco genérico no conhecimento, direi que o debate se baseia na localização do vazio.

O que ainda conecta Lacan (e esse “ainda” é a perpetuação moderna dos sentidos) ao tempo da ciência cartesiana é o pensamento de que é necessário manter o sujeito no vazio puro de sua subtração, se assim se quer que a verdade seja salva. Somente esse tal sujeito se deixa suturar na forma lógica e integralmente transmissível da ciência.

Sim ou não – é o conjunto vazio o nome adequado do ser enquanto tal? Ou devemos acreditar que esse termo se aplica de maneira mais apropriada ao sujeito – como se sua purificação de toda substância que se pudesse conhecer devesse transmitir a verdade (que fala) descentralizando o ponto nulo em eclipse no intervalo do múltiplo que, sob o nome de “significantes”, garante presença material?

A escolha aqui é entre uma recorrência estrutural, que considera o efeito do sujeito como o conjunto vazio, tão exposto na rede uniforme de experiência, e uma hipótese da raridade do sujeito, que protela sua ocorrência ao evento, à intervenção e aos caminhos genéricos da fidelidade, se remetendo e fundando o vazio na função da sutura do ser para o qual a matemática comanda exclusivamente o conhecimento.

Em nenhum dos casos o sujeito é substância ou consciência. Mas a primeira estrada conserva o gesto cartesiano, sua dependência descentralizada em relação à linguagem. Tenho provas disso, pois Lacan, escreve que  “o pensamento só funda o ser ao se vincular à fala, onde toda operação toca na essência da linguagem”, mantém o desenho do fundamento ontológico que Descartes encontra na transparência, tanto vazia quanto absolutamente certa, do cogito. Certamente, ele organiza as voltas de maneira muito diferente, uma vez que o vazio para ele é deslocalizado, nenhuma reflexão pura pode nos dar acesso lá. Mas a intrusão do termo externo – linguagem – não é suficiente para reverter essa ordem, o que implica que é necessário, do ponto de vista do sujeito, entrar no exame da verdade enquanto causa.

Eu sustento que não é a verdade que causa o sofrimento da falsa plenitude quando o sujeito é dominado pela angústia (“a vocês, analistas: isso que vocês fazem tem o sentido de afirmar que a verdade do sofrimento neurótico é ter a verdade como causa?”) Uma verdade é aquele múltiplo indiscernível que um sujeito suporta a aproximação finita. Em resultado, sua idealidade por vir (o inominável correlato que nomearia um evento se se pudesse ser nomeado) é a verdade da qual se pode legitimamente designar um sujeito – aquela figura aleatória que, sem o indiscernível, seria apenas uma continuação incoerente de determinações enciclopédicas.

Se alguém fosse apontar para uma causa do sujeito, é menos necessário retornar à verdade, que é sobretudo a matéria [stuff] do sujeito, ou ao infinito, para o qual o sujeito é finito, quanto ao evento. Conseqüentemente, o vazio não é mais o eclipse do sujeito, sendo em relação ao Ser tal que foi convocado pelo evento como errância na situação pelo pecado da nomeação interveniente.

Por meio de uma inversão dessas categorias, eu organizarei o sujeito em relação ao ultra-um (l’ultra-un), mesmo que fosse ele próprio a trajetória de múltiplos (as investigações), o vazio em relação a ser e verdade em relação ao indiscernível.

Além disso, o que está em jogo aqui não é tanto o sujeito – exceto para libertar aquilo que ainda, pela suposição de sua permanência estrutural, faz de Lacan um fundador entre os que ecoam a época anterior. Trata-se da abertura de uma história da verdade finalmente totalmente desconexa do que Lacan, com genialidade, chamou de exatidão ou adequação, mas que seu gesto, soldado demais à uma única linguagem, permitiu sobreviver como o reverso da verdade.

Uma verdade, se pensarmos que ela é apenas uma parte genérica da situação, é a fonte do verídico desde o momento em que o sujeito força um indecidível ao futuro anterior. Mas se o verídico toca a linguagem (no sentido mais geral do termo), a verdade existe apenas como indiferenciada; seu procedimento é genérico na medida em que evita todo abraço enciclopédico de julgamentos.

O caráter essencial dos nomes, os nomes do sujeito de linguagem, ligam-se à capacidade subjetiva de antecipação, forçando (forçage) aquilo que será verídico do ponto de uma suposta verdade. Mas os nomes apenas criam a aparência da coisa na ontologia, onde é verdade que uma extensão genérica resulta da inserção [placing-into-being] de todo o sistema de nomes. No entanto, mesmo lá, é apenas uma questão da simples aparência. A referência de um nome depende da parte genérica que está implicada na particularidade da extensão. O nome só encontra sua referência sob a hipótese de que o indiscernível já terá sido completamente descrito pelo conjunto de condições que, em outros aspectos, é. Em sua capacidade nominal, um sujeito está sob a condição de um indiscernível, portanto de um procedimento genérico, assim, de uma fidelidade, de uma intervenção e, finalmente, de um evento.

O que está faltando em Lacan – embora essa falta só fosse legível para nós se tivéssemos lido antes em seus textos o que, longe de faltar, fundou a possibilidade de um regime moderno de verdade – é a suspensão radical da verdade na suplementação de um Ser-em-situação por um evento, separador do vazio. 

O “há um” (il y a) de um sujeito é, pela ocorrência ideal de uma verdade, o vir-a-ser do evento em suas modalidades finitas. Além disso, sempre temos que entender que não havia nenhum “il y a” do sujeito, que esse “il y a” não é mais. O que Lacan deve a Descartes, a dívida cuja conta deve ser encerrada, é a suposição de que “il y a” sempre esteve lá.

Quando os estadunidenses de Chicago utilizaram descaradamente Freud para substituir os métodos reeducativos de uma “consolidação do ego” pela verdade da qual um sujeito procede, foi por justa causa e pela salvação de todos que Lacan abriu contra eles esta guerra impiedosa que seus verdadeiros estudantes e herdeiros continuaram a lutar. Mas eles estavam errados ao acreditar que, embora as coisas continuem como estão, poderiam ganhar.

Porque não se tratava de um erro ou de uma perversão ideológica. Obviamente trata-se do que alguém poderia acreditar, se caso se supusesse que havia um “sempre” da verdade e do sujeito. Mais seriamente, o povo de Chicago reconheceu à sua própria maneira o que a verdade retira e, com isso, o sujeito que a autoriza. Eles estão situados em um espaço histórico e geográfico em que a fidelidade aos eventos – dos quais Freud, Lenin, Cantor, Malevich ou Schoenberg são os operadores – não eram mais praticáveis além por formas ineficazes de dogmatismo ou ortodoxia. Nada genérico jamais poderia ser imaginado neste espaço.

Lacan pensou que ele corrigiu a doutrina freudiana do sujeito, mas, de fato, recém-chegado aos litorais vienenses, ele reproduziu um operador de fidelidade postulando o horizonte de um indiscernível, e estamos convencidos novamente de que há, nesse mundo incerto, um sujeito.

Se agora examinarmos o que ainda nos é permitido no tráfego filosófico na dispensação moderna e, consequentemente, quais são nossas tarefas, podemos criar uma tabela como esta:

  1. É possível reinterrogar toda a história da filosofia desde sua origem grega, sob a hipótese de um ordenamento matemático da questão ontológica. Ver-se-á, assim, tomar forma ao mesmo tempo, uma continuidade e uma periodização muito diferentes daquela implantada por Heidegger. Em particular, a genealogia da doutrina da verdade nos levará a localizar, através de interpretações singulares, como as categorias não nominais do “evento” e do “indiscernível” funcionam em todo o texto da metafísica. Acredito ter dado vários exemplos disso.
  2. Uma análise cuidadosa dos procedimentos da lógica-matemática desde Cantor e Frege permitirão pensar o que essa revolução intelectual (um retorno cego da ontologia à sua própria essência) condiciona na racionalidade contemporânea. Este trabalho permitirá desfazer, em seu próprio terreno, o monopólio do positivismo anglo-saxão.
  3. No que diz respeito à doutrina do sujeito, esse exame particular de cada um dos procedimentos genéricos se abrirá para uma estética, uma teoria da ciência, uma filosofia política e, finalmente, os mistérios do amor, a uma conjunção não-fusional com a psicanálise. Toda a arte moderna, todas as incertezas da ciência, todas as tarefas militantes ainda prescritas por um marxismo arruinado e, finalmente, tudo aquilo designado sob o nome de Lacan serão reencontradas, retrabalhadas, executadas, por uma filosofia re-atualizado por meio de categorias esclarecidas.

E poderemos dizer nesta jornada, pelo menos se não perdemos a memória daquilo que o evento apenas autoriza, que o Ser – aquilo que é chamado de Ser – funda o lugar finito de um sujeito que decide: “Nada se foi, o castelo da pureza permanece “.

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