O Fascismo Alemão e Hegel

Por Georg Lukács, originalmente em Schicksalswende, [Pontos de virada do destino] Aufbau Verlag, Berlin, 1956, traduzido por Marie Farines

Esse texto é tradução do ensaio de Georg Lukács: Der deutsche Faschismus und Hegel (1943). Ele ocupa as páginas 29 à 49 da coletânea: Georg Lukács, Schicksalswende, [Pontos de virada do destino] Aufbau Verlag, Berlin, 1956. Essa edição se caracteriza pela ausência completa de notas e de referências nos trechos citados. Todas as notas são, portanto, do tradutor [da edição francesa, Jean-Pierre Morbois].


I

No fundo, a relação dos fascistas hitlerianos com a filosofia de Hegel é muito simples: eles a rejeitam resolutamente. Alfred Rosenberg¹ vê na ligação entre Hegel e Marx uma razão essencial para definir a filosofia hegeliana como de orientação hostil ao “nacional-socialismo” que a combate radicalmente. Essa não é naturalmente a única razão desta atitude hostil. A rejeição de Hegel se concentra nos nazistas, como mostraremos mais tarde em detalhes, na racionalidade do mundo, na teoria da evolução, mas principalmente na teoria de Estado.

Essa rejeição à filosofia hegeliana se estende, com algumas exceções insignificantes, a todo idealismo clássico alemão.

Alfred Baeumler², que foi nomeado professor de pedagogia política da Universidade de Berlim logo após a tomada do poder por Hitler, exprime claramente esse programa em seu discurso inaugural: “a crítica sistemática da tradição idealista faz parte do nosso trabalho futuro.” Ela é, explica Baeumler, uma polêmica contra a concepção de mundo da “segurança” do século XIX, o liberalismo, etc. No seu livro sobre Nietzsche publicado anteriormente, Baeumler explicita esse programa em detalhes. Ele fala do combate do jovem Nietzche contra D.F. Strauβ³, que concebe como um combate contra Hegel. “Mas quando Nietzsche ridiculariza a ‘apoteose’ do Estado, ele pensa… com um instinto certeiro, no Estado total hegeliano como o Estado de cultura…E espírito de Weimar, materializado sob forma de Estado, que Nietzsche combate. Hegel é o pensador do classicismo…”. Para além, Hegel é, segundo Baeumler, o fundador da ideologia do nacional-liberalismo, uma “síntese do iluminismo e do romantismo”, que dominou intelectualmente o período bismarkiano e wilhelminiano, para depois colapsar com a guerra mundial, para engendrar esta crise de que o arauto profético foi Nietzsche, segundo Baeumler, e que o “nacional-socialismo” é chamado a resolver de forma positiva.

Para esse fim, Baeumler lidera uma campanha sistemática de atualização de todas as manifestações reacionárias do romantismo alemão, desde o “pai da ginástica” Jahn⁴ até Görres⁵. E, de maneira consequente, ele pensa que não podemos dar espaço na história para estes personagens, “sem destruir a tradição do século XIX, da importância preponderante do Weimar classicista e da amizade entre Goethe e Schiller. Nós não podemos exprimir filosoficamente nossa concepção do mundo sem dominar pela crítica a evolução intelectual que leva de Kant a Nietzsche. Nós não podemos apreender nosso mundo com formulações de Fichte e Hegel, qualquer que seja a profundidade da compreensão que podemos ter. E ainda, não há nada de mais frequente que assimilar por exemplo o universo intelectual de Fichte e o do nacional-socialismo. Não mudaria nada se o centauro Hegel tomasse o lugar do centauro Fichte. Nós devemos aprender a olhar com os olhos do século XX, essa é nossa tarefa.”

É este um projeto de programa para uma reescritura da história da filosofia do século XIX no espírito do fascismo hitleriano. Essa indicações programáticas para a filosofia oficial foram seguidas por diferentes obras de filósofos nazistas. Uma dessas tentativas mais importantes foi transformar nesse espírito a história da filosofia recente, e pelo mesmo primeiramente destronar e desmascarar Hegel, é o livro de Franz Boehm⁶ “Anticartesianismo”. É característico que tenha como subtítulo “A filosofia alemã em resistência”. Se trata de mostrar o combate entre a linha “européia ocidental” e a linha alemã de filosofia. A apresentação histórica nele contida é, de forma confessa, somente um pretexto para o objetivo político prático do autor, a “ruptura do espírito do sistema do ocidente”. O pensamento (espírito) que é combatido aqui é a cientificidade da filosofia fundada por Descartes: “Com Descartes, no lugar do homem ocidental, sujeito à uma unidade de enraizamento nacional e de perspectivas universais, aparece o homem europeu, a criação de uma racionalidade irreal e a-histórica”. A posição dominante Descartes sobre a filosofia dos séculos XVIII e XIX significa segundo Boehm “a predominância da consciência científica sobre toda intuição do real, primitiva e não pensada”.

Assim desaparece “tudo que caracteriza a realidade vencida”. Em si, essa polêmica contra Descartes não é uma descoberta de nazistas. Ela já inicia no velho Schelling e foi prolongada por Eduard von Hartmann⁷ e seus discípulos. A novidade em Boehm é unicamente a base que ele dá resolutamente a este combate em uma filosofia de vida e em primeiro lugar o fato que suas flechas serem resolutamente direcionadas à Hegel. Boehm vê em Hegel o ponto culminante de todos os perigosos esforços do racionalismo mortífero, o ponto culminante de uma filosofia não alemã. “Hegel cumpre de uma forma insuperável a consciência do ocidente em matéria de história e filosofia… É precisamente pelo quadro histórico de Hegel que o cartesianismo conheceu sua justificação durável, após o combate liderado pelas melhores forças da filosofia alemã contra o cartesianismo ter durado séculos. Da mesma forma que inversamente, os temas da história alemã das concepções de mundo foram banalizadas na filosofia ocidental pela concepção universalista de Hegel, e por parte soterradas por um século”.

Vemos aqui quanto a ideia de Lagarde⁸ a respeito do caráter não alemão da filosofia de Hegel foi energicamente desenvolvida. Segundo esta representação, Hegel não é somente não alemão, mas sua influência é igualmente definida coo um ponto de inflexão nefasta e perigosa para o pensamento alemão, através dele há a vitória temporária do espírito hostil do ocidente. Desenterrar a verdadeira concepção alemã do mundo foi para os fascistas possível somente pois eles rejeitam radicalmente a filosofia hegeliana, com todos seus fundamentos e todas suas consequências, só porque a afastam totalmente, juntamente da cientificidade da filosofia e com a ideia da evolução dialética da história.

A hostilidade irreconciliável com a cientificidade da filosofia pode ser vista ainda mais claramente nesses trechos polêmicos onde Boehm examina a essência do que ele compreende pela concepção alemã de mundo: “O insondável não é para o pensamento alemão a definição de um limite, é ao contrário uma determinação totalmente positiva… (Vemos como a filosofia da existência de Kienrkengaard toma aqui o lugar do agnosticismo kantiano. G.L.)  Ele atravessa toda nossa realidade e a rege no macro e em detalhes… O insondável como trama indissolúvel da nossa realidade é em sua natureza inacessível, mas não totalmente desconhecida. Nós a conhecemos, mesmo se não podemos o dizer, ele age na nossa vida, ele determina nos resoluções, ele dispoẽm de nós.” Essa dedicação ao insondável constituí a “profundeza” da concepção alemã do mundo, em oposição à filosofia categoricamente racionalista, científica na linha de Descartes e Hegel. “O que é profundo, nós não podemos dizê-lo , mas nós podemos enxergá-lo nos homens em que ele está presente.”

O iniciador propriamente dessa corrente de pensamento do qual Boehm irou as consequência no quadro da história e da filosofia: é Ernst Krieck⁹. Hitler e Rosenberg já combateram toda cientificidade para por em seu lugar o mito. Para essa questão central da concepção de mundo do nacional-socialismo, Krieck quer achar uma base filosófica. E nisso ele enfrenta energicamente: no lugar das ciências que fundam a filosofia até então, lógica e teoria do conhecimento, é uma biologia, uma antropologia que se instala: “A antropologia política nacional racista em via de formação… toma o lugar ‘filosofia’ morta de outros tempos.”

O fato de basear uma construção da concepção do mundo em termos de filosofia da vida em biologia não possui nada de novo no período imperialista. O que é novo é o cinismo com o qual Krieck rejeita ciência e a biologia ela mesma, – ao contrário de seus predecessores, que tentaram ininterruptamente, através de reinterpretações, de conservar pelo menos a aparência de cientificidade – e é também sua nova concepção de mundo “baseada na biologia”, que é fundamentado de fato no nada das intuições sugeridas pela filosofia da vida. Ele se exprime muito claramente quanto a este “fundamento” da nova concepção de mundo: “ ‘Concepção biológica do mundo’ significa, entretanto, alguma coisa de essencialmente diferente que fundar a concepção do mundo sobre a disciplina científica ‘biologia’ já existente. O conceito de ‘vida’, no plano da concepção de mundo, diz respeito à totalidade, o conceito de ‘vida’ no sentido da disciplina científica ‘biologia’ é na melhor das hipóteses uma participação no conjunto, quando ele não é simplesmente derivado de um mecanismo universal.” Krieck explica então quais são as características dessa nova ciência fundamental à vida: “Não podemos nunca ‘explicar’ a vida por um princípio mecânico, assim como a totalidade não pode sê-lo por sua parte. Mas o engendramento, o nascimento e a morte são acessíveis por quem viveu: enquanto etapas do desenvolvimento de sua própria vida e da vida dos outros, são objetos do vivido e portanto são acessíveis por intuição. E a partir do vivido, intuição e compreensão se entendem em retorno ao universal.” A “performance” filosófica de Krieck consiste portanto simplesmente no fato que ele promove o comportamento empírico do irracionalismo moderno, que tornou-se trivial há tempos, no ramo da ciência biológica fundamental, e que por outro lado, com menos incômodo que seus predecessores, considera suas “experiência de vida” como categorias da realidade objetiva. Após ter portanto por esta via, a via da “vivência” do engendramento, o nascimento e a morte, apreendido a essência do universo, ele pode a partir daí deduzir o que quiser. O meio do conhecimento biológico é naturalmente a visão, a intuição… “o ‘sentido’ é sempre compreensível, mas nunca explicável… Aquele que se aventura a dar uma resposta sobre o ‘porquê’ ou ‘para quê”, este finge ter lugar no conselho da criação”  (Essas últimas palavras são uma alusão irônica ao prefácio de Hegel à Ciência da Lógica. G. L.)¹⁰

A ciência biológica fundamental de Krieck se diferencia da filosofia geral da vida, não somente pela grande ousadia com a qual ele tira suas conclusões apodíticas de pressupostos inexistentes, mas também pelo fato que no local vago pelo pretenso aniquilamento da compreensão e da razão, da racionalidade e da ciência, não é uma imagem expressamente subjetiva que aparece, mas sim a propaganda nazista transposta em termos filosóficos e transfigurada em concepção de mundo. Nos o notamos principalmente na forma como ele determina o sujeito de sua intuição biológica. Segundo ele, não é o ego individual que é o sujeito do conhecimento, “mas todo o processo de conhecimento é carregado – enquanto fenômeno parcial do processo vital – tanto pela estrutura social, nacional, racial, histórica, como condição, como elemento determinante do modo de adquirir conhecimento e do produto deste conhecimento, da verdade em si. É aí que reside, na base, o conhecimento global.” O critério da exatidão da intuição é portanto para Krieck a adequação com o programa do partido nacional-socialista, com sua interpretação de dado momento dada pelo “Führer”. A essência da intuição consiste de fato em projetar uma imagem do ser humano que corresponde às exigências nacionais racistas. “É na imagem que o homem tem de si mesmo que verifica-se a biologia universal. Essa imagem se assenta em uma antropologia política nacional racial. Essa antropologia toma o lugar da filosofia fora de uso.”

Esta nova doutrina não somente deveria tomar o lugar da filosofia, mas também da religião. Na obra Mein Kampf, Hitler ainda aborda as religiões com diplomacia e restrições, e promete demagogicamente uma liberdade geral da religião. Mas após a tomada de poder por Hitler, Krieck já expressa bem mais abertamente que as velhas religiões devem dar lugar a concepção de mundo nacional-socialista. “Deus fala conosco… diretamente no reavivamento nacional”. O fundamento desta revelação é evidentemente a raça. Mas mesmo nessa concepção de mundo pretensamente baseada na biologia, a raça resta uma simples fórmula demagógica. Krieck, ele mesmo diz que a raça não é uma coisa, que não tem nada de material, “mas que ela é lei de orientação e de cultura, enteléquia¹¹, princípio formal. O ‘sangue’ é desta lei uma expressão simbólica imagética.”

Marcada pelo irracionalismo, a filosofia da vida, essa volatilização dos conceitos demagogos fundamentais da propaganda nacional-socialista, da raça e do sangue, que, como vemos, já não tem em Krieck qualquer conteúdo tangível, serve precisamente a decretar o programa “nacional-socialista como conteúdo da nova ciência fundamental de antropologia: “Todo povo possui necessariamente como pilar de sustentação uma raça dirigente, em que a “medula vital”, a orientação e a lei de vida é determinante, crucial para a totalidade da população, o que se tornará e seu caminho.” O que acontece nesse caso é o “Führer” que o decide: “A personalidade do Führer, da qual é a vocação, é o cenário onde se decide o destino do conjunto.” Esta fraseologia a nova antropologia, retirada da filosofia da vida, não tinha portanto por único objetivo fornecer um pressuposto fundamental filosófico a propósito que na Alemanha, Hitler exerceu uma ditadura ilimitada e arbitrária sobre o conjunto da vida da população alemã. Estes trechos de rascunhos do principal “pensador” do terceiro Reich não merecem qualquer comentário. Notamos claramente o porquê da dialética científica de Hegel lhes ser insuportável, porque essa concepção de mundo vê nela – quase com as mesmas palavras do velho Friedrich Schlegel, que tornou-se reacionário- um princípio satânico, o princípio do mal, do anti-alemão, do anti-racismo. Os neo-hegelianos fizeram tudo que esteve ao seu alcance para enfraquecer o caráter progressista e racional do hegelianismo, a fim de adaptar a filosofia hegeliana as necessidades reacionárias do período imperialista. Em vão. Para o fascismo alemão essa adaptação não era suficiente. Como bem disse Dimitrov em seu tempo, “não é a substituição ordinária de um governo burguês por um outro, mas a troca de uma forma de estado de dominação da classe burguesa… por outra forma dessa dominação, a ditadura terrorista declarada.”¹² Para essa ditadura, o fascismo hitleriano precisa de uma atmosfera espiritual na qual, no plano teórico, toda sensibilidade pela ciência e pelo controle científico dos fatos e das leis que o regem sejam aniquilados, na qual, no plano moral, todo resquício da alta consciência humanista do povo alemão foi esquecido, na qual o arbitrário absoluto do bando de aventureiros e de criminosos liderados por Hitler podem reinar sem partilha. Como os planos do hitlerismo em matéria de política interior e exterior só poderiam ser realizados em tal atmosfera, era absolutamente necessário o nascimento de uma filosofia correspondente, uma filosofia que não podia, nem em aparência, ser conciliada em nenhum ponto com a filosofia hegeliana.

II

O campo da razão na filosofia hegeliana não diz respeito somente à correlação lógica das categorias, mas primeiramente, ao conhecimento da evolução, da história. O primeiro terço do século XIX foi o período em que apareceu o um historicismo do progresso. Não estamos falando das visões históricas profundas dos grandes pensadores utópicos, nós lembramos simplesmente de Walter Scott, dos historiadores franceses da época da Restauração da Monarquia, Goethe e Hegel. Vendo no ser humano um animal evoluído, Goethe tornou-se um dos precursores da teoria da evolução. Em sua teoria das cores¹³, ele esboçou um grande quadro da história universal, ele forneceu o ponto de partida para uma nova abordagem histórica universal de todos os fenômenos estéticos. O historicismo de Hegel vai ainda mais longe. A filosofia da história constitui apenas uma parte diminuta da sua concepção histórica; a estética, a história da filosofia, a filosofia da religião, a fenomenologia ilustram também a unidade da evolução histórica em todas as áreas da vida material e intelectual. Elas mostram a coerência, as leis, a racionalidade, o conhecimento de evolução histórica.

Todas essas ideias foram em parte enfraquecidas e deformadas, em parte diretamente combatidas pela filosofia reacionária desde 1848, e particularmente na era imperialista. Na época do imperialismo, surge um pseudo-historicismo reacionário em uma mistura de empirismo rastejante e de um misticismo subjetivista.

Bem que a concepção de mundo nacional-socialista explore todos os resultados da destruição reacionária do historicismo, a destruição passada do historicismo autêntico não lhe é o bastante. Os nazistas consideram essa questão como tão essencial que o próprio Rosenberg intervinha a todo momento e proclamava claramente o caráter inconciliável de uma concepção da história universal, mesmo se ela é, de forma reacionária, enfraquecida e a concepção de mundo do fascismo hitleriano: “Nós acreditamos que não há uma verdadeira história universal no sentido da ciência racial e da psicologia, o que quer dizer que não há história segundo a qual todos os povos e todas as raças fossem levadas à uma fusão sistemática única. Segundo a qual deveria haver um projeto de cristianização de todas as raças, ao passo de que tudo isso serviria a humanização da pretensa humanidade. Nós acreditamos ao contrário que a história de cada povo representa por si só uma esfera vital.” Ou em outro trecho: “Nós acreditamos hoje que não existe história universal propriamente dita, mas somente a história das diferentes raças e povos.”

Essa concepção é condicionada na ideia dos fascistas de dominação mundial, imperialista e bárbara. O velho nacionalismo alemão também defendia a ideia que os alemães eram o povo escolhido, destinado a dominação mundial. Mas por um lado, a idéia de dominação mundial evoluiu no quadro de fronteiras políticas definidas, um novo plano de partilha do mundo, mais favorável aos imperialistas alemães; ela era portanto só uma ideia de uma dominação mundial relativa, e não uma dominação absoluta, como a dos nazistas. Por outro lado, essa concepção considerava com certeza o povo alemão como povo eleito, mas no entanto um povo em meio de outros povos. É por isso, que no plano filosófico, essa vocação do povo alemão aparecia para o velho nacionalismo como uma consequência, como o ponto culminante de sua concepção profundamente reacionária da história universal.

Mas para o fascismo hitleriano, essa concepção não era suficiente, nem quantitativamente, nem qualitativamente. A “nova ordem” hitleriana queria que a Europa inteira lhe fosse totalmente submissa, (e a partir dela o mundo inteiro). Não somente ela queria colocar os demais povos em dependência econômica ou política, mas, ou reduzi-los completamente a escravatura, ou aniquilá-los fisicamente. O próprio Hitler mencionou abertamente essa diferença do fascismo hitleriano e do velho nacionalismo. Ele polemiza sobre seus objetivos de assimilação, de germanização dos povos de língua estrangeira. Os velhos nacionalistas, segundo Hitler, nunca teriam compreendido que a germanização se dá somente pela terra/solo, nunca pelos homens. Os outros povos são portanto para os fascistas não nações relativamente subordinadas, que podem submeter ou assimilar, mas uma “raça inferior’ que se diferencia qualitativamente da raça “nórdica” ou “ariana-germânica” chamada a dominar, e que pode ser considerada uma raça humana somente condicionalmente, pois ela não tem absolutamente direito a existência em comparação a raça superior.

É por isso que é simplesmente lógico que Hitler ou Rosenberg colocassem sempre a palavra humanidade em citações irônicas, e rejeitassem totalmente a concepção de uma história universal unitária. Para os fascistas hitlerianos, a história geral existia mas apenas se caracterizava no desenvolvimento da “raça superior”. Todos os outros povos eram somente argila nas mãos do oleiro, eles são considerados como animais para o trabalho, ou se apresentam na história como aqueles que suscitaram a decomposição da raça superior; eles possuírem uma eventual história, cultura própria, isso não fazia parte das preocupações dos alemães e da concepção nazista da história. Esta só se interessava nesse caso na a influência racial estrangeira, hostil e solvente, que deveria ser extirpada, erradicada. Rosenberg o disse da seguinte forma: “Pois tudo que pode ter penetrado na alma dos homens germânico em matéria de representações e valores romanos tardios, cristãos, ou judeus, a mesma por uma lado por assim dizer aniquilada: Se a representação de um ser em luta para moldar seu égo  mais íntimo apresenta qualquer significação histórica característica, então devemos justamente separar os valores germânicos de todos os outros se não quisermos nos degradar nós mesmos. Mas o mais vergonhoso é que, em seguida de uma abordagem que não era a pan-cristã, depois de uma abordagem humanista tardia, essa mancha da história foi sempre relegada em segundo plano, enquanto o dogma de um pretenso desenvolvimento da humanidade tomava a frente da cena.” Rosenberg não menciona aqui o nome de Hegel, suas considerações nesse trecho são direcionadas contra a filosofia da história de Bachofen. Mas é claro, ainda que não fosse pela tradição de Lagarde e Chamberlain, que a concepção de uma história universal unitária humanista que ele critica é precisamente a filosofia hegeliana da história.

É por isso que não existia também para os nacionais-socialistas períodos universais da história da humanidade. Em sua polêmica contra Bachofen, Rosenberg afirma com força que os germânicos nunca teriam tido um período matriarcal. A interpretação da Oresteia¹⁴ por Bachofen seria completamente  falsa; não se trataria da luta entre dois períodos, o do matriarcado e o do patriarcado no seio de um só povo, mas da luta dos espíritos de duas raças, a raça ariana grega, contra a raça judia síria oriental. O estado germânico não é, segundo Rosenberg, advindo do comunismo primitivo e do matriarcado, mas de “ligas masculinas”.

Mas a oposição à concepção clássica progressista da história de Hegel foi ainda mais longe. Não se negava somente a ideia de uma unidade da evolução da humanidade (isto já havia acontecido na teoria da “esfera cultural” de Spengler, que, apesar de todas as oposições, influenciou profundamente a concepção fascista da história), mas a evolução por si só. Spengler admite ainda um crescimento “natural” e um declínio no seio das esferas culturais separadas, mas já aí, suas evoluções não apresentavam nenhuma correlação entre elas. Os fascistas não poderiam ter iniciado com essa concepção unilateral fatalista. Para propaganda para a dominação ilimitada da raça ariana germânica na política interior e exterior, eles precisaram dos dois: tanto o fatalismo sem limite, quanto de um voluntarismo também sem limite.

É com um fatalismo sem limite que foram concebidas as características da raça. A raça, o sangue, etc. tem estabilidade fatalista, eles não conhecem nenhuma evolução. A raça é nesse caso, eterna e necessária, imutável; somente suas encarnações podem mudar, sem que isso mude algo decisivo na essência da raça. Rosenberg formulou esta concepção da seguinte maneira: “O primeiro grande registro mítico não poderá mais, em sua essência, ser melhorado, mas simplesmente tomar outras formas. O valor incutido em um deus ou nos heróis é o que tem de eterno, tanto de bem como de mal…, uma forma de Odin morreu…, mas Odin como reflexo eterno das forças primitivas do homem nórdico viva ainda como 5000 anos atrás…O último “saber” possível de uma raça já é incluso em seu primeiro mito religioso. E o reconhecimento desse fato é a última sabedoria propriamente dita dos homens.” 

No seio da raça, não há portanto evolução histórica. Em outro trecho, Rosenberg formula esse dogma fundamental do nacional-socialismo com uma orientação ainda mais explícita contra o conceito hegeliano de evolução: “A vida de uma raça, de um povo não é uma filosofia que se desenvolve de maneira lógica, também não é um processo que ocorre segundo as leis da natureza, mas a constituição de uma síntese mística, uma atividade espiritual que não pode ser explicada por raciocínios lógicos, nem compreensível pelo exposto das causas e dos efeitos.” Só há períodos de degeneração e de decomposição (por conta da miscigenação racial) e períodos de regeneração, períodos de restabelecimento integral das particularidades originais e imutáveis, graças a ação de “Fϋhrers geniais” na qual se encarna maravilhosamente o espírito original próprio da raça.

Com essa última ideia, chegamos ao pólo diametralmente oposto, ao voluntarismo extremo, arbitrário. Enquanto em Hegel, o “indivíduo da história universal” é somente o órgão pelo qual se realiza a necessidade histórica, toda necessidade histórica, econômica e social se encontra, nos “nacionais-socialistas”, abolidas pelo Fϋhrer, ele é portanto um “Führer por vocação”, ele apela a essa enteléquia da raça, e é assim que, em sua obra de regeneração, ele pode fazer o que quiser. E ele resulta da essência do aventurismo nacional-socialista, da essência de sua demagogia social, que todo tipo de necessidade econômica, todo tipo de limitação econômica da obra de regeneração do “Führer” se encontrem particularmente desafiados, com veemencia. Rosenberg diz assim: “Não é verdade que as sociedades por ação, dos cartéis, ‘devem’ ficar reunidas em duas, três cidades, que as novas fábricas ‘devem’ sempre ser construídas em Berlim, que somente a oferta e demanda ‘devem’ reger a vida.”¹⁵ E o próprio Hitler, imediatamente após a tomada do poder, se exprimiu no mesmo espírito sobre a crise econômica: “Quando de um lado, há milhares de homens que querem trabalhar e que do outro, há riquezas minerais e possibilidades de trabalho, uma necessidade gritante de consumo e uma necessidade de produção no povo alemão, então seria triste que uma vontade e ação não conseguisse se impor.”

A pretensa filosofia científica dos nazistas não tem mais nada a fazer, a não ser de cumprir essa “nova concepção”, essa coexistência bruta e impensada da fatalidade a-histórica da raça e da arbitrariedade sem limite do “Führer genial” em todos os domínios da história. Ela prolonga assim, naturalmente, as visões filosóficas reacionárias do período imperialista levando um combate ininterrupto e poderoso contra a causalidade da história, contra a pesquisa das causas dos acontecimentos históricos. A transformação da história em um mito anti-histórico irracional atinge nesse momento seu ponto culminante após uma preparação reacionária quase centenária. O resultado é que toda pesquisa de causalidade histórica se encontra desprezada, como rasamente racionalista, liberal, como não “adaptada”¹⁶. Baeumler desenvolve essa ideia como segue: “O povo no sentido romântico é uma unidade tão natural quanto mística. Esta mística do “povo”¹⁷ frequentemente foi criticada ao romantismo. Do ponto de vista da história da filosofia, vemos portanto que esta mística não dispensa uma base empírica, e contém a resposta de um verdadeiro problema. Sobre a pergunta de onde vem a humanidade, a ciência não tem a resposta.”   A pseudo-filosofia fascista da história tem portanto por única tarefa de colocar os mitos do passado como idênticos a atualidade racial e de decretar que nos dois, as necessidades atuais de propaganda do hitlerismo são fenômenos necessário da enteléquia racial.

Para realizar a aniquilação total da ideia de evolução, Krieck faz uma crítica da teoria de evolução na natureza orgânica , uma crítica do darwinismo. O que ele diz é somente uma repetição fastidiosa do velho combate reacionário obscurantista contra Darwin. Ele alega que no século XVIII e no século XIX, como resultado da falsa filosofia racionalista, se “Transformou uma coexistência existente de espécies orgânicas… em uma ordem cronológica do desenvolvimento.” Se o homem devesse ser concebido como o topo da evolução animal, então se trataria simplesmente de antropomorfismo, e não de uma constatação de fatos objetivos. A árvore genealógica darwiniana das espécies viria das “necessidades dos sistema, e não da experiência.” Vai de si que Krieck conteste tanto a mutação quanto a hereditariedade das características obtidas. Tudo isso não ultrapassa nunca o nível de uma conversa obscurantista conhecida há décadas; era apenas necessário mencioná-lo brevemente a fim de demonstrar que a ideia de evolução foi igualmente destruída na pretensa filosofia nacional-socialista no que diz respeito a natureza.

A sabedoria final é portanto a eternidade, a natureza supra-histórica da raça na qual o destino se encarna em um momento preciso no “Führer por vocação”. Aquele que pesquisa causas é um elemento “inadaptado”¹⁸ que merece o campo de concentração. Sobre essa consequência final, Krieck se exprime, sob um tom de ameaça pouco velado, a respeito dos seus “colegas estudiosos”: “Aquele que quer ‘inventar’ respostas, este, nós certamente não podemos ajudá-lo, ele será afastado como um fardo inútil do curso fatal das coisas e jogado no estrume.” 

III

Já vimos, por todas as questões tratadas até aqui, que as necessidades da política de Hitler e de sua propaganda foram fatores decisivos da resolução de todos os problemas filosóficos. O próprio Hitler se exprimiu sobre essas questões nas suas conversas privadas com um cinismo difícil de superar. Ele declara assim em uma conversa com Rauschning: “A ‘nação’ é uma expressão política da democracia e do liberalismo. Nós devemos livrarmo-nos desta concepção falsa e colocar em seu lugar a concepção de raça, que politicamente não é ainda utilizada… Eu sei bem… que de um ponto de vista científico não existe nada parecido com a raça… Eu, como figura política, preciso de uma concepção que permita aniquilar as bases históricas existentes até o presente momento para colocar em seu lugar uma ordem totalmente nova e anti-histórica, e dar a ela uma base intelectual”¹⁹ A tarefa é a destruição das fronteiras nacionais. “Com a concepção de raça, o nacional-socialismo pode levar sua revolução e transtornar o mundo.” E em outra conversa, ele explica o sentido preciso, bárbaro e imperialista, desta proclamação cínica que faz de uma teoria racial na qual ele mesmo não acredita nem um instante: “A Alemanha tal qual ela é hoje não constitui entretanto uma unidade biológica. Só haverá uma Alemanha se tiver, simultaneamente, uma Europa. Sem dominação sob a Europa, nós falharemos obrigatoriamente.” Esta observação cínica não é de nenhuma forma fortuita, não é um deslize de Hitler, mas a posição comum da camada dirigente fascista a respeito de sua própria teoria, defendida com paixão pelo terror. Rauschning relata uma conversa com o chefe da Gestapo Himmler a respeito da proibição das conferências de um intelectual alemão em Dantzig sobre a pré-história. Himmler, que decretou essa proibição explicava a Rauschning o que segue: “Nós não nos importamos de saber se isto ou aquilo é a verdade verdadeira da pré-história da raça germânica. A ciência passa de uma hipótese a outra, as quais mudam a cada dois anos. Se não existe portanto nenhuma base verdadeira, porque o partido não poderia fixar, como ponto de partida, uma hipótese particular, mesmo se ela contradiz as concepções científicas dominantes. A única coisa que é importante, e é por isso que essas pessoas (professores, G.L.) são pagas pelo Estado, é de ter, uma história, de ideias que reforçam nosso povo no seu orgulho nacional necessário.”

Esse cinismo sem limite explica a indiferença da propaganda nazista sobre as contradições mais gritantes de suas concepções. A ciência e a filosofia “adaptada”²⁰, é fixada precisamente a tarefa de criar uma atmosfera na qual essa absurdidade totalmente contraditória possa ser acreditada sem ir além. Em caso de necessidade há naturalmente, não somente a ameaça da Gestapo, mas a própria Gestapo. A filosofia e a ciência tem por tarefa de facilitar “intelectualmente” o trabalho da Gestapo, de o tornar em certos casos supérfluo realizando a submissão, a uniformização, por meios de convencimento por assim dizer científicos.

A indiferença cínica pelo método ou conteúdo verídico é no entanto associada com uma grande determinação, certamente aventureira, quanto aos objetivos das questões de poder e das necessidades da propaganda. Essa duplicidade da concepção do mundo nacional-socialista se manifesta particularmente a respeito da teoria de Estado.

Em razão da importância central da questão do Estado, tanto para a propaganda fascista a fim de mobilizar as massas quanto para edificação do próprio Estado fascista após a tomada de poder, não é surpreendente que as linhas fundamentais da teoria nacional-socialista do Estado foram expostas pelo próprio “Führer” na sua obra, canônica para o movimento, Mein Kampf. Nós iremos ver que esta parte do programa nazista pertence ao pequeno número de coisas que Hitler verdadeiramente realizou após a tomada de poder, sobre as quais ele não induziu as massas em erros através de mentiras gritantes, como por exemplo a respeito do seu programa econômico. Naturalmente, há aí também uma enganação demagógica, mas no caso da teoria do Estado, ela é muito mais refinada. O Estado fascista, tal qual Hitler reivindicava em seu programa em Mein Kampf, não é nada mais que uma forma, admitida sem pudor e arbitrária sem pudor, da ditadura terrorista de um bando de criminosos, ditadura que tem por conteúdo social a satisfação de todas as vontades da fração mais reacionária do capitalismo monopolista alemão.

A forma desta ditadura é portanto o caráter ilimitado, o “bom prazer do Führer” e do partido que ele lidera de forma ditatorial, um caráter ilimitado e arbitrário que era necessário ao movimento para, de um lado, poder acertar as contas de forma bestial a todos adversários de seu sistema, para estabelecer em uma Alemanha agitada pelas crises revolucionárias a “tranquilidade e a ordem” de uma penitenciária, e do outro para transformar a Alemanha em um campo militar e um arsenal para guerra, prevista há tempos, para escravizar o mundo inteiro. Vemos portanto cinismo refinado de Hitler no feito que em sua propaganda, esse caráter de Estado nacional-socialista a vir encontrasse abertamente expresso enquanto programa; nessa ocasião, se faz muito habilmente apelo a decepção e ao desespero das grandes massas, e representasse a ditadura cruel e arbitrária como uma liberação, como uma revolução, como a criação de um Estado no qual a alienação a respeito do Estado vivamente sentida pelas massas é abolida. Como em tudo na propaganda fascista nazista, Hitler apela a decepção e ao desespero das grandes massas, e em particular dos pequenos burgueses da cidade e do campo. Já, o Estado wilhelminiano se afastou muito da vida das massas e é por isso que ele foi objeto, sem resistência, de uma tal desafeição após a derrota da primeira guerra mundial. A República de Weimar na qual se agarravam nos primeiros anos a esperança das grandes massas decepcionou as massas em uma medida crescente, e agravou cada vez mais sua situação econômica e social. Entre a população e o Estado abriu-se na compreensão das massas um abismo.

É desta situação que partem os desenvolvimentos de Hitler em Mein Kampf. É por isso que tem esse tom sedicioso, incitando a rebelião. Eles são antes de qualquer coisa dirigidos contra a superestimação da importância do Estado, contra o absolutismo do Estado. (Lembremo-nos os desenvolvimentos de Rosenberg evocados no início, na qual este pensamento é expresso em polêmica aberta contra Hegel; além de que, lembremo-nos a concepção de Baeumler, que vê em Hegel o filósofo do nacional-liberalismo, quer dizer do Estado da segunda metade do século XIX.) Nas explicações demagógicas de Hitler, o combate contra o absolutismo do Estado configura o povo, dos quais os verdadeiros interesses, “eternos”, são mais importantes que os do Estado. Quando esses interesses entram em contradição com o Estado, Hitler proclama o direito e o dever de fazer a revolução. “A autoridade do Estado não pode ser um fim em si mesma, pois, nesse caso, toda tirania seria inviolável e sagrada. Quando um governo conduz um povo a sua ruína por todos os meios, a rebelião de cada membro deste povo torna-se não mais um direito, mas um dever… Entretanto, no geral, nós não devemos esquecer que a finalidade suprema da existência dos homens não é a conservação de um Estado: é a conservação da sua raça… O direito dos homens precedem o direito do Estado.” ²¹

Vemos com qual habilidade refinada Hitler apelando aos extintos revolucionários existentes de forma pouco clara nas massas na época, como ele descrevia-lhes um Estado que, pretendia ele, não reinava acima do povo e de seus interesses, mas deveria ser sua expressão e o seu próprio órgão. A demagogia social de Hitler igualmente proclamou um “socialismo alemão”. Mas habilmente, Hitler demarcou ao mesmo tempo seu Estado de suas promessas econômicas. Por um lado para não precisar definir muito concretamente suas promessas demagógicas, por outro lado para mais uma vez fazer apelo aos instintos rebeldes das massas atrasadas. Pois nos grandes círculos de massas assustadas pela crise, a fúria contra o sistema capitalista não estava ligada ao desejo claro de um outro sistema econômico, no desejo do socialismo; o que os tomava, era uma aspiração confusa a uma situação sem essas restrições econômicas; nos ideólogos desses estados de espírito, isso se manifesta como aspiração a uma sociedade sem economia. É por isso que Hitler pôde então formular seu ideal de Estado da seguinte forma, e ficar assim seguro que grandes massas da pequena burguesia se juntariam a ele: “Mas o Estado não tem nenhum interesse em uma concepção econômica ou desenvolvimento econômico específico! Ele não é a união de partes contratantes econômicas em um território preciso e delimitado, tendo por finalidade a execução de tarefas econômicas; ele é a organização de uma comunidade seres vivos, iguais uns aos outros do ponto de vista físico e moral, constituída para melhor assegurar sua descendência, e atingir o fim designado a sua raça pela Providência.“²² É portanto a preservação da raça a verdadeira finalidade do Estado. O pŕoprio Estado e em maior razão a economia são somente órgãos e meios para realizar esse objetivo.

A partir deste ponto, Hitler delimita sua teoria de Estado das outras. Ele rejeita tanto as concepções que enxergam o bem estar dos seus sujeitos o objetivo do Estado quanto aquelas que proclamam a soberanidade do “Poderoso Estado” normal, na qual ele inclusive enxerga um caminho que levaria, segundo ele, ao marxismo. O Estado é portanto algo relativo, submisso a nação, aos interesses da raça; é somente nesse caso que ele tem valor, que ele é útil, em si, ele não é nada.

Nós o enxergamos: quando as grandes massas se sentem estranhas ao Estado existente, a demagogia social do fascismo hitleriano  oferece, mesmo em sua teoria de Estado, toda uma série de pontos de fixação. E a decepção das massas na Alemanha a respeito da democracia de Weimar era tão grande, sua experiência e educação democrática tão restrita, que essas perspectivas claramente e cinicamente expressas por Hitler não impediram a eficacidade da demagogia.

Se nós nos debruçarmos agora em direção à algumas consequências fundamentais da concepção hitleriana de Estado, nós vemos que o primeiro princípio está na negação da legalidade jurídica. Hitler proclama já em Mein Kampf que no Estado nacional-socialista, deve haver uma diferenciação entre os cidadãos e os simples residentes (desprovidos de direitos)²³. Em 1932, a respeito do  julgamento de Potempa com a condenação a morte de alguns assassinos do movimento nazista²⁴, Rosenberg formulava a diferença fundamental entre a concepção fascista do direito e a que prevalecia na época: “isso manifesta a diferença abissal que separa profundamente nosso pensamento, nosso sentimento do direito, do liberalismo e da reação. Para o direito que prevalece hoje, e que impende todos os instintos saudáveis de conservação do povo, o princípio determinante é que um homem é igual a um homem, obrigatoriamente.” Após a tomada do poder, o secretário de Estado da justiça do Reich Stuckart²⁵ formula o princípio a seguir: “O nacional-socialismo representa uma reviravolta em relação ao princípio liberal de igualdade de todos aqueles que tem um rosto humano.”

Na realidade, não é evidentemente somente uma ruptura com o liberalismo, mas também com todos os princípios do progresso e da civilização que os povos europeus conquistaram progressivamente desde o final da idade-média nas rudes lutas de classes. A igualdade jurídica formal na sociedade capitalista pode ter suas problemáticas, ela é no entanto uma das conquistas mais importantes das revoluções burguesas, um passo à frente essencial em comparação a sociedade medieval, dividida em ordens. O fascismo alemão explorou o descontentamento das massas a propósito da igualdade jurídica material, a propósito do caráter de classe do direito burguês que é necessariamente ligado a igualdade jurídica formal, a fim de fazer regredir a evolução ocorrida até então. Não somente ele se coloca enquanto inimigo do liberalismo, mas também do progresso jurídico dos últimos séculos no geral.

A filosofia do direito de Hegel não é de nenhuma forma bem disposta ao liberalismo; entretanto, como condensado ideal da sociedade burguesa tal qual ela saiu da Revolução francesa, ela se apega ao princípio de igualdade jurídica. Hegel diz: O homem vale porque ele é um homem, não porque ele é judeu, católico, protestante, alemão, italiano, etc. Está tomada de consciencia do valor do pensamento universal e de uma importância infinita.”²⁶

Não há ponte entre esses princípios e Hitler e Rosenberg. E os ideólogos nacionais-socialistas sentem esse caráter irreconciliável bem mais claramente que os neo-hegelianos, que se prendem a Hegel, mas querem no entanto construir relações com o novo regime. Nem a recepção temporária da filosofia de Hegel pelo fascismo italiano muda os fatos. Em segredo, os hitlerianos nunca reconheceram os fascistas italianos como verdadeiramente seus iguais, nem como verdadeiramente competentes. Hitler se expressa abertamente a respeito em um conversa com Rauschning: “Tanto nunca poderemos tornar o povo italiano uma nação guerreira, quanto o fascismo não compreendeu o desafio da luta colossal que se iniciará. Nós podemos sem dúvida nos aliar temporariamente com a Itália, mas no fundo, só nós, os nacionais-socialistas e nós unicamente, que penetramos o segredo das revoluções gigantescas que se anunciam. E é por isso que nós somos  o único povo escolhido pela Providência para deixar sua marca no século que há de vir.” ²⁷ Até Krieck se sente na obrigação, na ocasião, diretamente, de maneira irreverente, a concepção fascista italiana da “constituição do povo em Estado”.

A base da desigualdade codificada pelos nacionais-socialistas é evidentemente a teoria das raças. Krieck expõe assim seus princípios, se apoiando quase sempre palavra por palavra em Hitler: “Jamais um povo se identificou com uma raça”. É por isso que “a raça nórdica, dominante e determinante, deve ser selecionada e elevada de forma que ela se torne a coluna vertebral de toda comunidade nacional”. Ela tem por “objetivo a criação, a educação e a formação de todos os compatriotas”. Os indivíduos de raça pura “constituírão uma elite politicamente dirigente e vetor do Estado”. É portanto característico da arbitrariedade bárbara da ditadura hitleriana, que não exista princípio objetivo e compreensível para essa seleção, que dependa exclusivamente do “Führer”, da “elite racial”, de determinar quem faz parte dessa camada dominante racialmente pura. Lembremo-nos que Krieck, em sua Antropologia, define a raça, o sangue, etc. de maneira puramente arbitrária e subjetiva. É aí que o sentido e a finalidade desta filosofia da vida nebulosa se tornam compreensíveis. É portanto de forma totalmente consequente que Krieck conclui da seguinte forma seus desenvolvimentos: “a raça se mede pela qualidade e pelo grau de performance da comunidade racial-nacional.” E de total acordo com esta codificação de uma arbitrariedade ilimitada, Stuckart fala de conceder a nacionalidade a todos somente “após um exame individual para determinar se o indivíduo o é digno”, mas “que não é expressamente dito nas leis quem deve ser considerado cidadão pelo sangue”. A arbitrariedade que livra todos os homens da camada dirigente é portanto um princípio do “novo direito”, o que quer dizer que essa dominação arbitrária que concede privilégios somente aos que são considerados ferramentas despojadas de vontades, mesmo para os criminosos mais bárbaros do regime.

Como nós vimos, aí está o que funda e representa a ruptura com a ideologia liberal A demagogia nazista se apega aqui ainda no fato de que as massas estão descontentes com o Estado de classe da burguesia, e opõem demagogicamente um direito material ao direito formal. Roland Freisler, o assassino em chefe da “corte de justiça popular” nazista²⁸, define a ruptura com a “neutralidade” e a “objetividade” do Estado anterior como a essência do Estado nacional-socialista. O Estado, explica ele, “torna-se conscientemente o soldado da concepção nacional-socialista de mundo no interior do povo alemão… O ponto de partida e o objetivo de toda ação não é o indivíduo, mas o povo no sucesso eterno de sua raça.” A partir destes princípios, se opõem ao direito formal da sociedade burguesa o princípio do “direito material” e da “injustiça material”. “O novo Reich”, diz Stuckart, “não é mais um Estado de direito…, mas é o Estado da concepção de mundo, e baseado na civilização alemã.” Stuckart explica portanto por meio da evolução do direito no Estado hitleriano que todas as antigas categorias jurídicas, dentre as quais a própria constituição, se tornaram sem objetivo. “O conceito formal da constituição… perdeu sua significação para o Reich alemão.”

Novamente, o fascismo alemão se agarra ao fato que as massas estão descontentes dos limites de classe do direito formal para  pôr abaixo então todos os conceitos jurídicos, com o objetivo de instaurar um regime de tirania sem limites. Deve-se portanto novamente sublinhar energicamente que é precisamente esse caráter formal do direito que garante uma certa proteção contra a arbitrariedade da autoridade. É por isso que a imposição revolucionária do direito formal pelos revolucionários burgueses, apesar de todos seus limites, foi um grande progresso em comparação ao período absolutista. Hegel, em que a filosofia do direito passa longe do formalismo, ele que reconheceu o direito formal só como primeiro fenômeno de ultrapassagem da dialética da evolução do direito e da evolução do Estado, se atém evidentemente de maneira inabalável a  importância deste elemento. Ele fala do que muita gente tem aversão pelo formalismo do direito: “Nós podemos então ter asco de tais formalidades… , mas o essencial da forma, é que o que é direito em si deve também ser colocado enquanto tal… Tem que afastar então minha subjetividade e a do outro, e a vontade deve alcançar uma segurança, uma firmeza e uma objetividade que ela só pode obter através da forma.”²⁹ Nós vemos então novamente a oposição inconciliável entre a filosofia do direito de Hegel e a arbitrariedade tirânica do Estado hitleriano promovido ao patamar de teoria.

De acordo com os princípios que nós estudamos até então, o fascismo hitleriano não possui nenhuma garantia jurídica para o indivíduo. “A ordem popular nacional-socialista”, diz Stuckart, “apreende de forma global a existência terrestre do homem alemão.” Ou seja: o Estado está no direito de intervir a vontade no conjunto dos atos da vida de indivíduos. E não há, por princípio, nenhuma proteção para os direitos individuais, nenhuma garantia jurídica. Isto seria liberalismo. “A concepção liberal do Estado”, prossegue Stuckart, “colocou o indivíduo e a sociedade em oposição ao Estado… acreditando que ela [a sociedade] deveria se preocupar em libertar o cidadão dos grilhões de uma violência estatal potente demais, e proteger sua esfera de direito pessoal dos ataques do Estado.” Esta concepção do direito é derrubada pelo nacional-socialismo. “O indivíduo é ligado a seu povo pelo destino”; isto é: “não existe mais para o nacional-socialismo esfera pessoal isolada do mundo, livre em relação a comunidade, que deveria ser cuidadosamente protegida de toda intrusão do Estado.” O indivíduo é portanto completamente entregue a qualquer violação do Estado; não existe nenhuma garantia para a liberdade individual, nem mesmo se tratando da vida privada do indivíduo.

Há então a aparência, que suscita a demagogia fascista, segundo a qual, ao contrário do sistema estatal anterior, o povo se encontraria no patamar mais alto do Estado, foi de onde alguns apoiadores ingênuos dos nazistas tiraram a conclusão precipitada que o povo teria daquele momento em diante uma maior influência e desenvolveria uma atividade mais importante. Homens ingênuos assim acabaram no andaime ou nas celas da Gestapo. A prática hitleriana do Estado é uma arbitrariedade ilimitada, uma tirania bárbara a qual não há nenhum obstáculo. Sua teoria do Estado se esforça em apresentar o aniquilamento real de toda influência do povo nas decisões estatais como uma nova forma de “democracia germânica”, como uma politização geral do povo.

Otto Dietrich³⁰, o chefe do serviço de imprensa para o Reich, dá uma imagem clara da maneira na qual essa “democracia germânica”, essa politização do povo foi desejada pelos nazistas. “O nacional-socialismo”, diz, “não espera que o indivíduo faça política. Esta arte é reservada a algumas pessoas de quem é a vocação e a predestinação. Entretanto ele espera de cada indivíduo do povo alemão que ele pense e sinta de forma política.” Este pensamento político “não é complicado, ele não é confuso, ele não apresenta problema científico. Ele é simples, claro, unitário.” E Dietrich explica também porque é assim. Porque o “Führer” é o “executor da vontade popular [aquele que executa a vontade popular]”, mas não pelo voto, mas por “essa vontade imanente de auto-aprovação que é visceralmente inerente a cada povo”. Não é em vão que Baeumler e Krieck dizem que cada verdadeiro alemão deve ser um “soldado político”. Isto não diz respeito somente a preparação geral para guerra de todo o povo alemão, essa “mobilização total” que os prepara ao ataque de toda Europa que Hitler organiza desde o dia de sua tomada de poder, mas isso também diz respeito ao tempo de paz, a relação de cada alemão com o Estado fascista. Cada alemão é um “soldado político”: isto é, em todas as questões políticas, estar a postos para seus superiores, diante dos maiores ou menores “Führers” locais, e executar suas ordens sem os contradizer. Ele prova assim que ele pertence a raça superior, ele materializa assim a “democracia germânica”, da qual o próprio Hitler exprimiu o princípio da seguinte forma: “autoridade para baixo, responsabilidade para cima.”

É assim que todo o poder do Estado encontrou-se nas mãos de um bando de criminosos, a pretensa nova elite. E no seio desta elite reina ainda a arbitrariedade ilimitada do “Führer”. A “revolução legal” nacional-socialista suprimiu, em todos os domínios do direito público e privado, todas as definições e garantias jurídicas. Não há [na época do Reich] na Alemanha corpo de representação deliberativo, tudo é determinado pelo poder central que nada limita.

Seria falso comparar essa dominação tirânica arbitrária ao absolutismo anterior, de comparar esse sistema arbitrário de castas, feito de déspotas e parias, com as sociedades anteriores divididas em ordens. A Idade Média obviamente não conheceu a igualdade de direitos, mas sempre em cada ordem, existiam algumas garantias jurídicas, que determinavam os limites da opressão e da exploração autorizada. O fascismo hitleriano não conhece tais limites. Desse ponto de vista, ele é algo realmente novo: a barbárie do período imperialista em putrefação avançada. Ernst Krieck, a l’enfant terrible³¹ no plano teórico da filosofia nacional-socialista, espalha esse segredo de escola às vezes de forma muito aberta. Ele diz: “No lugar do ‘Estado’ se ergue lentamente uma nova realidade política, da qual a forma deve primeiro ser adivinhada e para a qual ainda não há nome.” E ele expressa depois a natureza dessa situação: “Atualmente, é o movimento que é o Estado propriamente dito, porque ele é o vetor do destino da missão alemã na história.  O contra-senso lógico, o movimento é o Estado…, corresponde totalmente a realidade atual: a realidade se encontra além de todas as leis da pretensa lógica.”

Esta explicação de coração aberto não merece nenhum comentário. Nela vemos claramente por qual razão os fascistas precisam de seu irracionalismo extremo, precisamente para criar uma atmosfera intelectual na qual a arbitrariedade bárbara pode de forma credível aparecer como forma necessária de uma nova realidade “revolucionária”. Que os verdadeiros manipuladores não acreditem em suas próprias palavras, que eles riem escondidos, cinicamente, das suas proclamações teóricas, não é uma contradição, mas o avesso necessário de tal “filosofia”. Da mesma forma que não é contraditório que a “coragem” dos ideólogos nacionais-socialistas, com a qual eles proclamam o maior contra-senso irracionalista como a nova sabedoria, é ligada a uma servidão repugnante a respeito de seus superiores. Na introdução da coleção [de textos] de onde retiramos as explicações de Stuckart, Freisler, Dietrich, está escrito o seguinte: “toda decisão verdadeira pertence ao Führer”, e se ele decidir de forma diferente do que está exposto nesta coleção -oficial-, “não é que o nacional-socialismo tenha mudado sua concepção sobre o assunto dado, mas é que o autor se enganou sobre a verdadeira posição do nacional-socialismo sobre essa questão em particular.”

Está claro que esse novo tipo de homem, essa mistura repugnante de carrasco bárbaro e de lacaio sem coluna vertebral, não pode ter nada em comum com a tradição de Goethe e Hegel. O período clássico da literatura e da filosofia alemã foi o ponto culminante do pensamento humano, da civilização humana. Basicamente, foi um reflexo da Revolução francesa, dos seus preparativos e de suas consequências, um potente órgão intelectual do progresso, que é também, ainda hoje, viva e ativa – na obra de Marx e Engels, de Lenin e Stalin – através da dialética reerguida.

Como o maior pensador dessa época, o maior praticante do método dialético antes de Marx, Hegel, poderia de alguma forma ter algo em comum com esses  golpistas cínicos? A demagogia fascista, a arte da falsificação fascista certamente realizaram performances não negligenciáveis. Eles tentaram sem descanso explorar Goethe para os seus objetivos. Em vão naturalmente. Mas é glorioso para a memória de Hegel que apesar de todas as tentativas de contorções reacionárias dos neo-hegelianos, a razão e o progresso se manifestam com tão pouca ambiguidade em seu sistema que seu ensinamento foi insuportável para os bandidos hitlerianos.


Notas

¹Alfred Rosenberg (1893-1946) Teórico do Partido Nacional-Socialista Alemão

²Alfred Baeumler (1887-1968), filósofo que obteve particular notoriedade na época do nacional-socialismo e estreitamente ligado ao mesmo. Ele foi reconhecido pela primeira vez em razão de seus estudos sobre Kant, Nietzsche e Spengler. Ver seu trabalho Kants Kritik der Urteilskraft (1923) [A crítica da capacidade de julgamento de Kant], bem como seus Studien zur deutschen Geistesgeschichte (1937) [Estudos sobre a história intelectual alemã]

³David Friedrich Strauβ (1808-1874), teólogo, escritor e filósofo alemão, autor de “uma vida de Jesus”, que mostra um Jesus histórico e não divino e considera os evangelhos como uma narrativa inconsciente das primeiras comunidades cristãs. Esse livro pode ser considerado como o ponto de partida do movimento de jovens hegelianos pois ele utiliza da filosofia hegeliana da história para atacar o dogma cristão.

⁴Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), educador alemão, promotor com sua organização “Turnverein” da ginástica e do nacionalismo germânico.

⁵Johann Joseph von Görres (1776-1848), escritor alemão.

⁶Esse filósofo nazista não deve ser confundido com seus homônimos, dentre os quais o jurista liberal, opositor do nazismo, promotor da “economia social de mercado”. Franz Böhm Anticartesianismus Deutsche Philosophie in Winderstand, Feliz Meiner, Leipzig, 1938

⁷Karl Robert Eduard von Hartmann, filósofo alemão (1842-1906). Devemos a eles múltiplas obras tratando do inconsciente, da religião, da metafísica e de especulações que lembram as de Schelling e Schopenhauer.

⁸Paul Anton Bötticher, dito Paul Lagarde (1827-1891), orientalista e teórico político alemão do movimento völkisch, conservador e anti-semita.

⁹Ernst Krieck (1882-1947), professor e escritor alemão, ideólogo nazista.

¹⁰ G.W.F. Hegel, Ciência da Lógica, tradução de S. Jankélévitch, Aubier, 1971, volume 1 página 24.

¹¹Enteléquia: na filosofia aristotélica, é o princípio ativo que faz passar uma coisa que ainda está somente em sua forma potencial ao seu estado de realização, ao estado da ação, assim como é esse estado final propriamente dito.

¹²Nós restituímos aqui, o que não faz Lukács (que cita aproximadamente o texto), o texto exato de Dimitrov em seu relatório, apresentado dia 2 de agosto de 1935, no VII° Congresso Mundial da Internacional Comunista. Em Georges Dimitrov, Oeuvres choisies, Éditions Sociales, Paris, 1952, página 40.

¹³Johann Wolfgang von Goethe, Traité de couleurs, Triades, 2000.

¹⁴Oresteia: trilogia dramática de Ésquilo. Ela é composta por três tragédias centradas no gesto de Atrides: Agamemnon (em grego Ἀγαμέμνων), Coéforas (Χοηφόρες) e Eumênides (Εὐμενίδες), em Eschyle, Théâtre complet, Traduction Émile Chambry, Garnier Flammarion, Paris 1964.

¹⁵Alfred Rosenberg, O mito do século 20, Munique, 1930, página 519.

¹⁶A palavra arteigen é um dos numerosos termos alemães forjados pelos nazistas. A contrapartida é artfremd ou estranho ao caráter racial. O critério da ciência e da verdade não é mais a exatidão ou o erro, mas arteigen ou artfremd.

¹⁷Volkstum.

¹⁸Artfremd. Ver nota 16

¹⁹Hermann Rauschning (1887-1982), ensaísta, figura política alemã, membro do partido nazista de 1926 a 1934, presidente do senado de Dantzig. Ele tornasse opositor ao regime e publica em 1939, um livro conhecido na França sob o título “Hitler me disse”. Alguns historiadores duvidam da autenticidade deste testemunho.

²¹Adolf Hitler, Mein Kampf, Zentralverlag der NSDAP, Munique, 1942, páginas 104-105

²⁰Arteigenen. Ver nota 16.

²²Adolf Hitler, Mein Kampf, Zentralverlag der NSDAP, Munique, 1942, páginas 164-165..

²³Adolf Hitler, Mein Kampf, Zentralverlag der NSDAP, Munique, 1942, página 488.

²⁴Julgamento de cinco nazistas (membros uniformizados da SA) da cidade de Potempa, na Alta Silésia, que, na noite do 9 ao 10 de agosto de 1932, se introduziram no domicílio de um operário sindicalista, Konrad Piecuch e, em sua ausência, espancaram até a morte sua mãe.

²⁵Wilhelm Stuckart (1902-1953), oficial do partido naista; jurista, ele foi secretario de Estado no ministério do interior alemão. Participou da conferência de Wannsee, onde teria formulado algumas objeções jurídicas a realização da “solução final” do problema judeu.

²⁶G.W.F. Hegel, Princípios da filosofia do direito, § 209. Tradução para o francês André Kaan, Gallimard, idées, Paris 1972, página 236.

²⁷Hermann Rauschning, Hitler me disse, Hachette literatura, Pluriel 2005.

²⁸Roland Freisler (1893-1945), jurista alemão. Ele entrou em agosto de 1942 na presidência do Volksgerichtshof, a mais alta corte do Estado nacional-socialista para os assuntos penais políticos.

²⁹G.W.F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito, § 217, complemento.

³⁰Doutor Otto Dietrich (1897-1952), chefe do serviço de imprensa (Reichspressechef) do partido nazista, amigo pessoal de Hitler.

³¹Em francês no texto original (a criança terrível).

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