Abstrações reais – A aplicação da teoria ao mundo moderno

Por Mark Fisher, via frieze, traduzido por Reginaldo Gomes, Maria Victória Limoeiro e Antonio Augusto Galvão de França

Este texto foi originalmente publicado no blog k-punk em 16 de janeiro de 2017


Em um simpósio recente na University of East London dedicado à dance music e teoria, alguns jornalistas contrariados declararam que eles preferiam muito mais ser “empiristas bufões” do que ingênuos crédulos da teoria. Esse tipo de rejeição à teoria, feita por meio de uma vulgar fala autodepreciativa, não é nada novo na cultura britânica. É uma certa atitude que praticamente se define pelo desprezo por abstrações teóricas, um desprezo que um dia inspirou o empirismo, a filosofia com a qual o mundo de língua inglesa está mais associado. Contudo, precisamente porque visava rejeitar abstrações supostamente improváveis, o empirismo de filósofos como George Berkeley e David Hume acabaram mais minando do que ratificando as categorias da experiência dada: Berkeley, como se sabe, negou a existência do próprio mundo material, enquanto Hume argumentou contra a existência do eu. Em contraste com suas esquisitices rarefeitas, os “empiristas bufões” veem seu próprio papel como um reforço à maneira como o mundo aparece para nós em nossos momentos irrefletidos. Eles alegam privilegiar “evidências”, mas na verdade isso não é mais do que um apelo autoevidente para as mesmas categorias que os filósofos empiristas negam: pessoas e coisas (físicas). E se apenas pessoas e coisas físicas são reais, o que os empiristas bufões pensam que aconteceu na economia global? Compreender a crise de crédito e a recessão exige o reconhecimento de que as abstrações são reais.

Não é por acaso que os países que mais entusiasticamente compraram o neoliberalismo e a financeirização foram os EUA e o Reino Unido. A tradição teórica “continental”, contra a qual o empirismo bufão se definiu, era muitas vezes culpada pelo tipo de textualidade intrinsecamente nebulosa e negadora da realidade, de que o nominalismo anglo-saxão a acusou. O tipo de teoria que se infiltrou no mundo da arte e dos estudos culturais nos anos recentes – uma confecção de pós-modernismo diluído e deleuzianismo degradado, com sua coleção de anti-conceitos vagos como diferença, sensação e multiplicidade – não é tão distante do empirismo bufão. O que esse tipo de pensamento anti-totalizante compartilha com ele é uma profunda hostilidade em relação a sistematicidade; ele mantém a visão generalizada de que fazer qualquer tipo de afirmação determinada é dogmático, opressivo e até totalitário.

Como argumenta Fredric Jameson, esta abordagem de escolha-e-mistura de proposições teóricas têm um enquadramento muito próximo ao consumismo – na verdade, Jameson, como se sabe, vai mais longe a ponto de dizer que é uma expressão da “lógica cultural do capitalismo tardio”. O que é certo é que as retóricas vagas da diversidade não têm a lucidez fria necessária para dar conta das abstrações reais do capital. Em seu ensaio de 1966, “Cremonini, pintor do abstrato” [1], Louis Althusser fez uma distinção entre a “pintura abstrata” e a “pintura da abstração”. O pintor Leonardo Cremonini, argumentou Althusser, conseguiu expor as abstrações do capital não por retratá-las diretamente – tal coisa é impossível -, mas ao mostrar “a ausência determinada que [nos] governa”. Como Benjamin Noys coloca em um comentário sobre o ensaio de Althusser em seu próximo livro The Persistence Of The Negative: “Não temos nenhuma imagem do capital, o próprio capital é uma espécie de relacionalidade pura, uma pura abstração de valor, trabalho e acumulação, que só pode ser ‘vista’ em negativo. É por isso que a negação de abstrações reais exige mais abstração, já que a abstração é o único meio possível de relevar essa relacionalidade pura que se esconde à vista de todos.”

Chegar a essa abstração real implica uma análise do que eu chamo de realismo capitalista. Realismo capitalista – que de modo algum entrou em colapso com os bancos no ano passado; pelo contrário, não há prova maior da continuidade de seu poder do que a escala de resgates dos bancos – é a noção de que o capitalismo é o único sistema político-econômico viável. Isso sustenta que existe uma relação inerente entre capitalismo e realidade. O realismo capitalista é uma espécie de mito antimítico: ao afirmar ter esvaziado todos os mitos anteriores sobre os quais as sociedades se baseavam, seja o direito divino dos reis ou o conceito marxista de materialismo histórico, ele apresenta o seu próprio mito, o do livre exercício individual de escolha. A desconfiança em relação às abstrações – resumida pela famosa negação de Thatcher: “não existe sociedade” – encontra expressão em uma redução generalizada de ideias e atividades culturais à psicobiografia [psychobiography]. Nós somos convidados a ver a “vida íntima” dos indivíduos como o nível mais autêntico de realidade. Muito do apelo dos reality shows, por exemplo, consiste em sua sedutora pretensão de mostrar aos participantes o que eles “realmente são”. A mídia é um mar de rostos com os quais somos encorajados a sentir que estamos familiarizados. Entrevistas em jornais e revistas tradicionais são invariavelmente estruturadas em torno de bate-papos biográficos e fotografias. Na Grã-Bretanha, agora mais do que nunca, artistas e músicos enfrentam a escolha de se representarem desse modo biográfico ou sequer aparecerem. As tentativas de apelar apenas a ideias abstratas – seja na própria arte ou nas forças com as quais ela está lidando – são habitualmente recebidas com uma mistura de desprezo e incompreensão.

Isso não se restringe à imprensa de tablóide – cuja aparição pública no ano passado do músico Burial, alguém decididamente “sem rosto”, é apenas um exemplo de sua insistência agressiva na redução psicobiográfica. As configurações padrão da imprensa standard [broadsheet] britânica são igualmente desdenhosas da abstração. Veja a recente fulminação de Nick Cohen contra Dan Fox da Frieze no Observer, criticando um artigo que havia sido escrito por Fox analisando as notícias dos jornais tradicionais sobre a exposição “Altermodern” na Tate Britain, em Londres. O artigo de Cohen incluía um golpe inestimável contra “o tipo de intelectual francês que faz os ingleses desejarem que o canal tivesse mil milhas de largura.” Com sua suposição orientadora de que a teoria é alguma toxina continental para a qual o antídoto é o senso comum anglo-saxão, a peça de Cohen foi um manifesto para o empirismo bufão, fazendo sua queixa padrão de que a teoria “não é sustentada por nada tão mundano quanto a evidência”.

Mas empirismo não é o mesmo que empírico – qualquer teoria que valha a pena deve levar em conta os dados empíricos, mas, para isso, não pode permanecer no mesmo nível dos dados que procura explicar. Além disso, os fatos empíricos costumam ter pouco a ver com a experiência fenomenológica dos indivíduos. A descrição de Althusser de sua própria teoria como “científica” tem sido ridicularizada, não apenas pelo nominalismo anglo-saxão, mas também por boa parte da teoria pós-estrutural, que tende a preferir a poesia e o discurso às ciências naturais. Mas a concepção de Althusser do sujeito individual como um produto da ideologia é muito mais científica do que a disseminação irrefletida, por parte do empirismo bufão, dos conceitos de pessoas e coisas. Em seu livro Nihil Unbound (2007), que se baseia na neurociência bem como no trabalho de teóricos “continentais”, o filósofo Ray Brassier argumenta que a ciência expõe a compreensão cotidiana dos seres humanos sobre si mesmos e sobre o mundo ao seu redor como sendo ficções banais. O tipo de realismo filosófico que Brassier advoga não tem nada a ver com o “realismo” capitalista – na verdade, ele tem os recursos para expor este suposto realismo como sendo nada do tipo. Desenvolvido a partir do trabalho de neurofilósofos como Paul Churchland e Thomas Metzinger, que argumentam que todo o aparato aparentemente autoevidente da vida interior (emoções, o próprio eu) são superstições mistificadores, o trabalho de Brassier é parte de uma investida teórica renovada sobre uma ideologia empirista bufona que se autoproclama realidade.

Notas:

[1]. Traduzimos esse texto de Louis Althusser mencionado por Fisher: https://18.118.106.12/2021/02/18/cremonini-pintor-do-abstrato-por-louis-althusser/ – Nota dos tradutores. 

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