Um mundo sem classes?

Por Gabriel Landi Fazzio.

Mason se equivoca ao afirmar que a classe trabalhadora “chegou ao fim”. E seu erro pode oferecer conclusões importantes.


Vale apena nos determos agora sobre um momento da entrevista de Mason ao Prospect, traduzida pelo Outras Palavras. Perguntado sobre as possibilidades das novas tecnologias ele dá um passo atrás, e expõe uma análise mais honesta do que a imagem do “colapso do projeto de esquerda” oferecida no começo de seu artigo no The Guardian. Aqui, Mason afirma que a “a era keynesiana produziu a última geração de indivíduos hierarquizados, coletivizados. Eu fui produzido por ela e sei que este mundo acabou”. O fim dessa era teria criado um novo sujeito humano. No bojo desta análise, faz questão de pontuar que a divergência entre ele e os neoliberais está em torno da questão da possibilidade do sujeito humano:

“transcender o sistema atual, romper com ele e reformar a sociedade humana. Todas as visões de transformação social têm, a partir de agora, de enxergar o que eu chamo de “indivíduo em rede”. Acredito que as revoltas que narrei em meu livro anterior, Why It’s Kicking Off Everywhere (“Por que está começando em todo lugar”), são revoltas destas pessoas. Se elas são um novo sujeito histórico, que substitui a velha classe trabalhadora do marxismo, essa é uma grande coisa”.

O intrigante é que, a seguir, é perguntado se lamenta “o mundo que perdemos? O mundo keynesiano de coletividades e solidariedades?”, ao que responde:

“Eu lamento, sim. Escrevi em meu primeiro livro […] que o que estamos lamentando, e o que ficou para trás, foi uma anomalia na história do movimento dos trabalhadores. Foi um movimento de trabalhadores socialmente estável, que construiu um caminho de coexistência pacífica com o capital. O que fiz foi cavar na história e descobrir que a indisciplinada história do trabalho foi a de pessoas que foram, elas mesmas e de sua própria maneira, empreendedoras de si mesmas. E tiveram um nível de quase total oposição ao mundo que viveram, coisa que a geração do meu pai, a da era keynesiana, não teve. […] Anarquismo na comuna de Paris. […]Quando comecei a mergulhar nessa história, percebi que a era Keynesiana, apesar do nosso luto, foi uma anomalia. […] É uma anomalia na história do capitalismo. Também é uma anomalia da história da classe trabalhadora”.

Na verdade,(e aqui se desenvolve nosso raciocínio sobre a utilidade de desatar nó pós-capitalista que Mason compartilha) parecem inconciliáveis essas duas interpretações do que o jornalista britânico chama de “era keynesiana”. Pela primeira, a era keynesiana foi a última a produzir indivíduos coletivizados, hierarquizados e seu fim teria movido o papel de sujeito histórico da emancipação social da classe trabalhadora para uma nova “parteira da história”. Pela segunda interpretação, no entanto, se evidencia que esta era keynesiana não foi a regra na história do movimento dos trabalhadores, mas sua anomalia. Ora, esse “indivíduo coletivizado, hierarquizado” de Mason, produto do keynesianismo, seria a condição em si da classe trabalhadora, cujo fim implicaria o seu próprio, ou sua condição anômala? A resposta aqui, do ponto de vista da teoria do pós-capitalismo, é dizer que, depois de “cavar muito na história”, a descoberta foi que a história do trabalho é na verdade a de “pessoas que foram […] empreendedoras de si mesmas”. “Anarquismo na comuna de Paris”. Antes dos trabalhadores serem “indivíduos coletivizados, hierarquizados”, eram “empreendedores de si mesmos”.

Não seria preciso ir à comuna de Paris (e negligenciar todas as implicações de sua tragédia e de sua força) para entender como a história da classe trabalhadora é a história do “empreendedorismo de si mesma”. Em verdade, essa é a condição em si da classe trabalhadora – só dispõe da venda de sua força de trabalho para se reproduzir, e em verdade é apenas empreendedora de si mesma, não de seu trabalho. Da mesma forma, qualquer pauta de reivindicações salariais de uma greve poderia demonstrar muito bem a Mason essa condição. Por que, então, Mason retorna à comuna de Paris? Porque não lhe agradaria entender desta forma o “empreendedorismo de si mesmo”: isso significaria dizer que essa condição não é inconciliável, de forma alguma, com a existência da classe trabalhadora mesmo no contexto de sua “anomalia” keynesiana, “coletivizada, hierarquizada”, “socialmente estável” e, principalmente, em “coexistência pacífica com o capital”. Mas, só assim, retornando à comuna de Paris, Mason pode entregar ao sacrifício a classe trabalhadora nas mãos de um “anarquismo” “empreendedor de si mesmo” de vernizes pequeno-burgueses. Mason não deseja reabilitar essa classe trabalhadora “anarquista” em substituição ao vazio deixado pelo fim da “coexistência pacífica com o capital”, e sim se afastar o máximo possível das ideias marxistas sobre a classe trabalhadora desde o extremo mais individualista do blanquismo, onde não há ação política coletiva. É apenas assim que a experiência da comuna pode ser exposta como uma regra que se opõe ao “coletivismo” keynesiano. Por isso o “indivíduo em rede” substitui não apenas o “indivíduo hierarquizado”, mas, pelo contrário, a ideia de coletividade se apresente indissociável da de hierarquia (não se trata aqui de uma confluência específica de dois elementos, mas duas ideias citadas em sequência, como correspondentes). A rede de Mason não é uma coletividade – o que sobra é o indivíduo, e as relações entre os indivíduos tomam a forma da coisa que as media, como mera mediação instrumental de coisas, e não ela própria relação social e coletividade.

Mason se devota a defender o fim da centralidade do trabalho com tanto fervor que, ao apontar as diferenças entre esses dois momentos na história do trabalho, é capaz apenas diagnosticar diferenças, mas não semelhanças e continuidades – porque isso significaria reconhecer que o denominador comum entre tais momentos é exatamente a centralidade do trabalho, a despeito de sua maior ou menor rebeldia. Sendo honesto, Mason cai aqui em uma correspondência equivocada amplamente difundida na própria esquerda: entre a divisão social do trabalho no capitalismo e em geral, por um lado, e, por outro, a divisão fordista do trabalho.

Aliás, esse ponto seria digno de desenvolvimento: ao longo de todo o período fordista, foi comum na esquerda a interpretação segundo a qual seria este operariado fordista o proletariado por excelência, em seu desenvolvimento histórico revolucionário último, e não apenas como o produto de um momento específico, de uma nova etapa da acumulação capitalista. Ora, escapando a esta interpretação equivocada, se Marx sequer chegou a viver para ver a ascensão do fordismo, como poderia o fim do fordismo implicar a falência das teses marxistas sobre o proletariado?

Talvez seja por isso que Mason lamenta o fim dessa anomalia que ele mesmo descreve como “um movimento de trabalhadores socialmente estáveis, que construiu um caminho de coexistência pacífica com o capital”. Não havendo mais espaço para essa convivência, é melhor decretar o fim da classe trabalhadora (mais facilmente aceitável seu coletivismo quando se adequa à hierarquização) e o retorno ao “empreendedorismo de si mesmo” cotidiano do assalariado. Quando, na verdade, isso significa mesmo que deveríamos entender que o fim de tal anomalia implica que retorna à ordem do dia as questões radicais da luta de classes.

Mas Mason prefere acreditar que as revoltas que narrou em seu livro são revoltas de sujeitos em rede, concordando com Gorz de que “a classe trabalhadora está morta”. “São trabalhadores assalariados em rede”, afirma, e novamente lamenta que “o fato terrível e desafiante pode ser que, se o capitalismo tem um início, um meio e um fim, então o movimento dos trabalhadores também”. Pouco lhe importa que sejam os assalariados a se organizar em rede, Mason reafirma sua tese de que tanto a classe trabalhadora já foi abolida quanto vivemos um pós-capitalismo. Não percebe que “o declínio da luta trabalhista organizada, com base no trabalho manual, especializado, branco e masculino” é mais uma prova do declínio da “anomalia keynesiana”, mas pouco consistente para afirmar que não existe mais uma classe trabalhadora. Também a crítica já exaustivamente feita, de que “a classe trabalhadora não se identifica mais enquanto tal” (além de presumir que em qualquer momento da história existiu uma classe trabalhadora consciente imediatamente, pelo mero ser trabalhador) falha aqui, onde vemos que a generalização dos sindicatos legais e ligados aos estados e políticas sociais estatais coletivistas foram uma anomalia, e não a regra da história do proletariado.

Mason duvida que seja possível parar “a grande festa”, apenas lutar para que os indivíduos em rede “não tenham suas informações roubadas” e seus “estilos de vida poderem florescer”. Não parece uma boa resposta para as revoltas que Mason acompanhou no Brasil, na Turquia e na Grécia – nem é nem à primeira nem a nenhuma vista a questão fundamental pela qual lutam as forças sociais em tais países!

Ao menos, o jornalista é franco em “colocar a culpa” da “morte” da classe trabalhadora no neoliberalismo. “Isso é porque o neoliberalismo foi primeiro modelo econômico em 200 anos […] cuja premissa de partida é a supressão dos salários e destruição do poder social e resiliência da classe trabalhadora”. Mason é profundamente contraditório, nessa consideração de seu artigo no The Guardian, com suas próprias opiniões sobre a anomalia keynesiana – que presume exatamente o crescimento dos salários e construção de um pode social e de resiliência da classe trabalhadora. Mas, antes do keynesianismo, não assistimos no liberalismo um modelo econômico calcado nos baixos salários e na quebra da resistência proletária? Entre sua primeira e sua segunda interpretação – uma de um neoliberalismo que destruiu a classe trabalhadora ou outra do fim de um momento desviante de acomodação na história da classe trabalhadora, faço minhas suas palavras:

Olhar para as coisas através das lentes de Kondratieff força você a colocar a questão: será o neoliberalismo a forma bem sucedida do novo capitalismo ou o fim da linha que prolongou o ciclo por tempo demais? Escolho a segunda alternativa.”

Ao contrário do que Mason quer fazer crer, os marxistas não detestam a hipótese de que um “ser humano bem formado e conectado” “se liberta a si próprio” e que “as pessoas podem descobrir, dentro do capitalismo, recursos mentais para imaginar um novo futuro”. Ora, muito agradaria aos marxistas que Mason estivesse correto e as classes tivessem sido abolidas! Pelo contrário, o que incomoda na análise de Mason é como nela quem liberta a humanidade não é ela concreta e própria, mas algum milagre tecnológico inovador, e o fatalismo otimista de afirmar que “o fim do capitalismo já começou” quando na verdade presenciamos uma degradação das condições de vida das massas e de concentração de riqueza inéditas, combinada com crise financeira e sequestro das democracias pelas dívidas públicas – esse pontos parecem secundários a Mason, que consegue fazer todo um artigo sobre o fim do capitalismo sem falar em auto-gestão, em democratização da economia ou no fim da alienação do trabalho.

Isso porque essa humanidade que liberta a si própria não é a humanidade abstrata em geral, mas sim determinada coletividade humana concreta, que se inscreve realmente em determinada posição na estrutura social. Mason não seria ingênuo em afirmar que são os grandes capitalistas em rede que superarão o capitalismo – reconhece que estes tentam com todos seus esforços manter seus monopólios a despeito da dinamização da vida social provocada pelas novas tecnologias. Aliás, o mais tragicômico nos arautos dos epitáfios do proletariado consiste em que não decretam, conjuntamente, a morte da burguesia! Seria uma leviandade tentar tal coisa, exatamente no momento da história em que o poder dos bancos e monopólios é mais escancarado. Mas obviamente não podem se deter neste ponto, sob pena de levantar maiores questionamentos sobre sua defesa da morte da classe trabalhadora.

Posto isso, podemos avançar para a análise dos três pontos que Mason elenca como contradições insuperáveis que as novas tecnologias põe ao capitalismo – e tentar entender suas reais implicações para as classes sociais e sua efetiva abolição.

    

Na próxima semana: AS CLASSES NO “PÓS-CAPITALISMO”

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