O monólogo do vírus

Por autor desconhecido, via lundimatin.am, traduzido por Pedro Pimenta

Queridos humanos, parem com os seus ridículos apelos à guerra. Parem de me lançar esses olhares de vingança. Desliguem a aura de terror com que embrulham o meu nome. Nós, os vírus, desde a origem bacteriana do mundo, somos o verdadeiro continuum da vida na Terra. Sem nós, vocês nunca teriam visto a luz do dia, e esta não teria visto nem mesmo a primeira célula.


Nós somos os seus ancestrais, como as pedras e as algas, e bem mais do que os macacos. Nós estamos onde vocês estão e também onde não estão. Que pena que apenas reconheçam no universo aquilo que com vocês se assemelha. Mas, acima de tudo, parem de dizer que sou eu quem vos está a matar. Não estão a morrer por causa do que estou fazendo com os seus tecidos, mas porque deixaram de cuidar dos seus semelhantes. Se vocês não tivessem sido tão vorazes uns com os outros como foram com tudo o que vive neste planeta, ainda haveriam camas, enfermeiros e ventiladores suficientes para sobreviver à devastação que causo nos seus pulmões. Se não armazenassem os seus velhos em casas moribundas e seus cidadãos saudáveis em ratoeiras de concreto armado, também vocês não estariam lá. Se não tivessem transformado a ainda ontem exuberante, caótica, infinitamente povoada amplitude do mundo – ou melhor dito, dos mundos – num vasto deserto para a monocultura do Mesmo e do Mais, eu não teria sido capaz de me lançar à conquista planetária das suas gargantas. Se durante o último século não se tivessem convertido praticamente todos em cópias redundantes de uma mesma forma insustentável de vida, não estariam se preparando agora para morrer como moscas abandonadas na água da vossa civilização adocicada. Se não tivessem transformado os seus ambientes em espaços tão vazios, transparentes e abstratos, podem ter certeza que eu não estaria me movendo com a velocidade de um avião. Só estou cumprindo a sentença que vocês próprios pronunciaram há muito tempo. Perdoem-me, mas tanto quanto sei, foram vocês que inventaram o termo ’Antropoceno’. Reivindicaram toda a honra da catástrofe; agora que ela está acontecendo, é tarde demais para renunciá-la. Os mais honestos dentre vocês sabem bem disso: não tenho outro cúmplice que não a vossa própria organização social, a vossa loucura da ’grande escala’ e da vossa economia, o vosso fanatismo do sistema. Apenas os sistemas são ’vulneráveis’. O resto vive e morre. Só há vulnerabilidade para aquilo que aspira a controlar, para a sua própria extensão e perfeição. Olhem para mim com cuidado: sou apenas a outra face da Morte que reina.

Por isso, parem de me culpar, de me acusar, de me perseguir. Parem de paralisar-se perante mim. Tudo isso é infantil. Proponho-vos que mudem de visual: há uma inteligência imanente na vida. Não precisam ser um sujeito para ter uma memória ou uma estratégia. Não é preciso ser soberano para decidir. As bactérias e os vírus também podem fazer com que chova ou que faça sol. Olhem para mim como o vosso salvador e não como o vosso coveiro. São livres para não acreditar em mim, mas eu vim desligar a máquina cujo freio de emergência vocês não encontram. Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns. Eu vim expor a aberração da ‘normalidade’. «Delegar noutros a nossa alimentação, a nossa protecção, a nossa capacidade de cuidar das nossas condições de vida tem sido uma loucura… Não há limite orçamental, a saúde não tem preço»: vejam como faço os seus governantes, como o Emmanuel Macron, retraírem-se nas palavras e nos atos! Vejam como os reduzo à sua verdadeira condição de comerciantes miseráveis e arrogantes! Vejam como de repente se revelam não só como supérfluos, mas como nocivos! Para eles vocês são apenas o suporte da reprodução do seu sistema, ou seja, vocês são menos que escravos. Até o plâncton é tratado melhor do que vocês.

Mas não desperdicem as vossas energias reprovando-os ou atacando as suas limitações. Acusá-los de negligência é dar-lhes mais do que eles merecem. Perguntem-se antes como pôde parecer tão confortável deixá-los governar. Louvar os méritos da opção chinesa por oposição à opção britânica, da solução imperial-legitima por oposição ao método darwinista-liberal, é não entender nada de um ou outro, nem do horror de um ou outro. Desde Quesnay, os ‘liberais’ sempre olharam invejosamente para o Império Chinês; e continuam a fazê-lo. Eles são irmãos siameses. Que um vos confine para vosso próprio bem e o outro para o bem da ‘sociedade’ consiste em esmagar, de forma equivalente, o único comportamento não-niilista neste momento: cuidar de si mesmo, daqueles que amamos e do que amamos naqueles que não conhecemos. Não deixem que aqueles que lhes levaram ao abismo finjam que lhes tiram dele: eles só vos prepararão um inferno mais perfeito, um túmulo ainda mais profundo. No dia em que puderem, patrulharão o além com os seus exércitos.

Agradeçam-me, sim. Sem mim, por quanto mais tempo fariam passar como necessárias todas estas coisas aparentemente inquestionáveis, cuja suspensão é imediatamente decretada? A globalização, as competições, o tráfego aéreo, as restrições orçamentais, as eleições, o espetáculo das competições desportivas, a Disneylândia, os ginásios, a maioria das lojas, o parlamento, o encarceramento escolar, as aglomerações de massas, a maior parte dos trabalhos de escritório, toda essa sociabilidade inebriada que é apenas o contrário da angustiada solidão das mônadas metropolitanas. Afinal, nada disso é necessário quando o estado de necessidade se manifesta. Agradeçam a mim o teste da verdade que vão passar nas próximas semanas: vão finalmente viver a vossa própria vida, sem os milhares de subterfúgios que, mal ou bem, sustentam o insustentável. Ainda não se tinham dado conta que nunca tinham sido capazes de instalar-se nas suas próprias existências. Estão a viver em meio a cubículos e não o sabiam. Agora vão viver com os vossos entes queridos. Vão viver em casa. Vão parar de estar em trânsito rumo à morte. Podem odiar os seus maridos. Podem odiar os seus filhos. Podem ter vontade de fazer explodir o cenário das suas vidas quotidianas. A verdade é que, nessas metrópoles de separação, já não estavam neste mundo. O seu mundo já não era habitável em nenhum dos seus pontos, se não em fuga constante. Tinham de se atordoar com o movimento e a distração à medida que o hediondo ganhava terreno. E o fantasmagórico reinava entre os seres. Tudo se tinha tornado tão eficaz que já nada fazia sentido. Agradeçam-me por tudo isto e sejam bem-vindos de volta à terra!

Graças a mim, por um tempo indefinido, não trabalharão mais, os vossos filhos não irão mais à escola, e ainda assim será o oposto de férias. Férias é aquele espaço que deve ser preenchido a todo custo enquanto se espera pelo ansiado retorno ao trabalho. Mas este espaço que se abre diante de vós, graças a mim, não é um espaço delimitado, é uma imensa abertura. Eu vim para vos perturbar. Nada vos garante que o não-mundo de antes vai voltar. Talvez todo este absurdo lucrativo chegue ao fim. Se vocês não forem pagos, o que pode ser mais natural do que deixar de pagar a renda? Porque é que alguém que não pode mais trabalhar deve continuar a pagar prestações aos bancos? Não é suicida viver onde não se pode nem cultivar um jardim? Não é porque vocês não têm dinheiro que não vão comer, e quem tem o ferro tem o pão, como Auguste Blanqui costumava dizer. Agradeçam-me: eu os coloco ao pé da encruzilhada que tacitamente estruturou as suas existências: economia ou vida. A decisão é de vocês. O que está em jogo é histórico. Ou os governantes vos impõem o seu estado de exceção ou vocês inventam o seu. Ou vocês se apegam às verdades que estão por vir a reboque ou colocam a cabeça na guilhotina. Ou vocês aproveitam o tempo que vos estou a dar agora para imaginar o mundo do depois, a partir das lições do colapso a que estamos a assistir, ou ele será completamente radicalizado. O desastre pára quando pára a economia. A economia é o desastre. Esta era a tese antes do mês passado. Agora é um fato. Ninguém consegue ignorar quanta polícia, quanta vigilância, quanta propaganda, quanta logística e quanto tele-trabalho será necessário para suprimi-lo.

Perante mim, não cedam nem ao pânico nem à negação. Não cedam à histeria biopolítica. As próximas semanas vão ser terríveis, esmagadoras e cruéis. Os portões da Morte estarão bem abertos. Eu sou a mais devastadora produção de devastação em produção. Estou aqui para reduzir os niilistas ao nada. Nunca mais a injustiça deste mundo será tão flagrante. É uma civilização, e não vocês, que eu venho enterrar. Aqueles que querem viver terão de criar novos hábitos para si próprios. Evitar-me será a oportunidade para esta reinvenção, para esta nova arte da distância. A arte de cumprimentar, na qual alguns eram suficientemente míopes para ver a própria forma da instituição, em breve deixará de obedecer a qualquer rótulo. Caracterizará os seres. Não o façam ‘pelos outros’, pela ‘população’ ou pela ‘sociedade’, façam-no pelos seus. Cuidem dos seus amigos e dos seus amores. Repensem com eles, soberanamente, uma forma de vida justa. Criem aglomerados de boa vida, expandam-nos e eu não terei poder sobre vocês. Este é um apelo não a um retorno maciço da disciplina, mas da atenção. Não ao fim do descuido, mas ao fim da negligência. Que outra forma havia para lembrar-lhes que a salvação está em cada gesto? Que tudo está no ínfimo.

Tive de me render às evidências: a humanidade apenas coloca as questões que já não pode mais evitar.


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