A Epidemia do Filósofo

Por Marco D’Eramo, via New Left Review, traduzido por Julio d’Avila

Não haverá recuperação. Haverá convulsão social. Teremos violência. Haverão consequências sociais e econômicas: desemprego dramático. Cidadãos sofrerão dramaticamente: alguns morrerão, outros se sentirão muito mal.” Não são palavras de um escatologista, mas de Jacob Wallenberg, descendente de uma das mais poderosas dinastias do capitalismo global, antevendo uma contração de 30% da economia mundial e altíssimos níveis de desemprego como resultados dos lockdowns decorrentes da crise do corona vírus.


Enquanto filósofos temem que nossos governantes estejam explorando a epidemia para impor disciplina biopolítica, a classe dominante parece ter preocupações opostas: “Morro de medo das consequências para a sociedade… temos que medir os riscos do remédio afetar o paciente drasticamente”. Aqui o magnata sueco ecoa o prognóstico de Trump de que a terapia matará o paciente. Enquanto filósofos veem providências anti-contágio  – toques de recolher, fechamentos de fronteira, restrições a reuniões públicas – como sinistras medidas de controle, os dominantes temem quem os lockdowns irão afrouxar seu controle.

Ao avaliarem o impacto da COVID-19, os filósofos em questão citaram as páginas extraordinárias páginas sobre a praga em Vigiar e Punir, nas quais Foucault descreve novas formas de vigilância e regulação ocasionadas pelo surto no final do século XVII. O pensador que tomou a posição mais nítida em relação à pandemia é Giorgio Agamben, que, em uma série de artigo combativos, começando com “A invenção de uma epidemia”, publicada pelo il manifesto no dia 26 de fevereiro de 2020. Nesse texto, Agamben descreve as medidas de emergências implementadas na Itália para impedir o espalhamento do vírus como “frenéticas, irracionais e completamente infundadas.” “O medo de uma epidemia da vazão ao pânico”, ele escreve, “e em nome da segurança nós aceitamos medidas que severamente limitam restringem nossa liberdade, justificando o estado de exceção”. Para Agamben, a resposta ao corona vírus demonstra a “tendência de usar o estado de exceção como paradigma normal de governo” – “É quase como se, com o terrorismo esgotado como causa para medidas excepcionais, a invenção de uma epidemia oferecesse um pretexto ideal para suporta-las para além de qualquer limitação”. Agamben reafirmou essas ideias em dois outros textos que apareceram no site da editora italiana Quodlibet em março.

Agora, Agamben está correto e enganado ao mesmo tempo; ou melhor, drasticamente errado e um pouco correto. Ele está errado porque os fatos o contradizem. Até grandes pensadores podem morrer de contágio – Hegel faleceu de cólera  em 1831 – e filósofos tem o dever de rever suas posições quando as circunstâncias o exigem: se o negacionismo do corona vírus era ligeiramente plausível em fevereiro, ele já não era mais razoável no final de março. Entretanto, Agamben está correto em dizer que nossos governantes usarão toda oportunidade para consolidar seu poder, especialmente em um período de crise. Não é nenhum segredo que o corona vírus está sendo explorado para fortalecer a infraestrutura de vigilância em massa. O governo sul-coreano monitorou a disseminação da infecção a partir do rastreamento da localização de seus cidadãos via seus celulares – uma política que causou alvoroço quando expôs uma série de casos extraconjugais. Em Israel, o Mossad irá logo implementar sua própria versão desse rastreador, enquanto o governo chinês dobra sua aposta em vigilância de vídeo e dispositivos de reconhecimento facial (não que as agências de inteligência estivessem esperando pela desculpa de uma epidemia para começar a nos monitorar digitalmente). Muitos governos europeus estão atualmente decidindo se irão imitar os programas chineses ou sul-coreanos, com o Gabinete do Comissário da Informação carimbando essa medida no fim de março. Agamben não é o primeiro a argumentar que um dos objetivos da dominação social é atomizar os dominados; Guy Debord escreveu na Sociedade do Espetáculo que o desenvolvimento de utopias capitalistas baseadas na mercadoria nos uniria em isolamento, em “perfeita separação”.

O que nos traz ao ponto que Agamben não nota: a dominação não é uni-dimensional. Não é só controle e vigilância; também é exploração e extração. (Um pouco de Marx, junto com Schmitt, não lesaria sua análise.) O sério dano que essa epidemia ameaça infligir ao capital explica a relutância dos políticos de impor isolamento e quarentena: Boris Johnson (inicialmente) e Trump são os exemplos mais gritantes: eles resistiram anunciar uma quarentena pelo máximo de tempo que conseguiram, e querem acabar com ela quanto antes, mesmo que ao preço de centenas de milhares de mortes. Nesse momento, o lento andamento de políticas públicas de saúde deve ser contrastado com a velocidade da resposta financeira. Naturalmente, as “generosas” medidas orçamentárias refletem parcialmente os anseios de Wallenberg: elas visam evitar maior convulsão social ao fornecer subsistência a trabalhadores, por enquanto. Nenhum capitalista gostaria de ser forçado a essa posição keynesiana. Mas, como afirmou o chefe de gabinete de Obama, Rahm Emanuel, “você nunca pode deixar uma crise séria ser desperdiçada”. Então, enquanto escassas extensões são feitas ao pagamento estatuário de funcionários doentes, estados também fizeram esforços extraordinários para apoiar seus setores financeiros, ou “espumar a pista[i] para os bancos”, nas palavras do ex-secretário do Tesouro Timothy Geithner. Por enquanto, governos da OCDE se comprometeram a fornecer mais de cinco trilhões, e esse número está fadado a crescer.

Os governantes também estão se aproveitando da pandemia para empurrarem medidas que causariam ultraje em tempos normais. Trump deu à indústria americana um passe livre para violar leis de poluição durante a emergência, enquanto Macron desmantelou um dos maiores feitos do movimento trabalhista, ao estender para sessenta o número máximo de horas de trabalho semanais. Porém, de certa forma, a  mesquinhez desses truques legislativos – muito localizados e limitados a salvar uma fragilizada ordem neoliberal – mostra que a pandemia pegou as classes dominantes desprevenidas: elas ainda não captaram a gravidade da recessão que nos aguarda, e sua capacidade de derrubar ortodoxias econômicas. Assim como Agamben vê todas as emergências como anti-terroristas, nossos governantes veem essa crise sistêmica como meramente financeira: eles respondem à pandemia como se fosse um novo 2008, imitando Bernanke e prescrevendo expansão monetária friedmaniana. Prisioneiros do monetarismo ortodoxo, eles não entendem que nesse momento o choque de demanda vai causar mais que uma simples crise de liquidez.

Em breve, fortunas inteiras serão perdidas, quando capitalistas verem seus empreendimentos (linhas aéreas, empreiteiras, fábricas de carro, circuitos de turismo, produtoras cinematográficas) irem para o ralo. Mas, nesse contexto, o “dinheiro do helicóptero” de Friedman – a injeção de quantias astronômicas de liquidez na economia – vai iniciar uma destruição de capital em larga escala, já que a recém-emitida moeda não corresponderá a nenhum valor real. Na guerra, capital financeiro e material é demolido: infraestruturas, fábricas, pontes, portos, aeroportos, edifícios. Mas, quando a guerra termina, começa a reconstrução, e essa reconstrução engatilha uma retomada do crescimento econômico. No entanto, a atual epidemia parece mais uma bomba de nêutrons, que mata humanos e deixa prédios, estradas e fábricas intactas (ainda que vazias). Então, quando a epidemia terminar, não haverá nada a ser reconstruído – e nenhuma recuperação econômica em consequência.

Quando a quarentena for suspensa, as pessoas não irão simplesmente voltar a comprar carros e passagens de avião na escala pré-crise. Muitos perderão seus empregos, enquanto aqueles que os mantiveram enfrentarão dificuldades para encontrar clientes e consumidores em uma economia sem dinheiro. Enquanto isso, alguém terá que responder à imensa conta dos gastos relacionados ao vírus, especialmente considerando que uma dívida enorme mina a confiança do investidor, e, nesse momento, o temor de Wallenberg pode acabar sendo justificável: qualquer tratamento de choque que seja implementado depois da crise – quando, em nome da necessidade econômica, o povo tem que pagar pela dita “generosidade” – pode de fato levar pessoas à revolta. Essa epidemia trará o aumento do controle e vigilância dos de cima contra os “de baixo”; ela irá refazer a sociedade como um laboratório para técnicas de disciplinamento. Mas, nessa situação, o trabalho dos governantes será o de comandar um tigre: aqueles que querem nos supervisionar e controlar prefeririam fazê-lo por meios menos custosos. No fim, revogar a quarentena será fácil. Reiniciar a economia será mais problemático.


* Arte de Beatriz Serra


Notas:

Observação: as notas/referências para esse texto podem ser consultadas no site da NLR.

[i] Trata-se de uma expressão americana, algo como “preparar o terreno para um desastre”


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